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CARTAS DA GUERRA Nº 2 - PARTE INTEGRANTE DO ROTEIRO DE FÚRIA E REDENÇÃO

Benjamim, Catarina e Helena,

As Minas Gerais são lindas, a arquitetura muito se diferencia da nossa. A linguagem me é quase estrangeira, sotaques que custo a entender, nomes diferentes para as mesmas coisas, um povo moreno, olhos escuros e porte baixo. Sou o mais alto da minha turma.
 
Estamos em treinamento, uma rotina que não é fácil. Se para mim que estava acostumado ao trabalho na estância é difícil, imagine então para os rapazes que saíram do colégio. Nós levantamos às seis da manhã, arrumamos nossas camas e tomamos um café magro. Tudo é muito rígido, mas pelo que ouço é ainda mais difícil para os comandantes e para o nosso país. Nosso exército é moldado pelos padrões franceses e torná-lo adaptável aos americanos não é tarefa para amadores. Recrutar homens, treiná-los para uma condição acima da nossa realidade, discipliná-los a diferentes organizações com padrões superiores, como o americano, é a maior dificuldade. Todos sentimos a inferioridade e a impotência, e somente com a nossa coragem é que vamos lutar contra o nazismo.

Querido Benjamim, assim se forma a FEB, de coragem e determinação. A nossa força terrestre é constituída de três regimentos de infantaria, que formam três batalhões, composto por sua vez de três companhias de fuzileiros. A essa organização corresponde o apoio da artilharia e engenharia. Eu estou nessa última.
 
É difícil receber ordens, como a hora que devo me levantar, comer, dormir ou ir ao banheiro. Meu inseparável amigo Francisco também se queixa, mas nada podemos fazer. Ao anoitecer estamos tão cansados que dormimos imediatamente. É só deitar.

Passamos todo o dia em instruções militares. Soubemos que somente na Europa vamos conhecer armas mais sofisticadas, por enquanto vamos levando como podemos. Treinamos com fuzis Springfield, de repetição, arsenal velho, vindo da Itália. Só lá teremos as metralhadoras 30 e 50, fuzis com baionetas e tudo mais. Também aprendemos a cavar trincheiras de um metro de profundidade.

A infantaria aprende a conhecer armas pesadas, como canhões de 57 e morteiros de 81 mm, mas tudo é ensinado de maneira muito vaga. Tenho pena deles, agradeço a Deus por não estar na linha de frente.Nós, da engenharia, estamos aprendendo a desmontar bombas, minas terrestres, como chamam aqui. Impressiona-me o mecanismo dessas bombas, penso no dinheiro que foi gasto para fabricá-las e quantos pagarão para morrer sobre seus estilhaços. Algumas detonam com o peso, outras por tração, mas todas são igualmente destruidoras, fazem um homem em pedaços. Estou aprendendo a matar, de todas as formas.

Também fazemos pontes de madeira, cada parte encaixada por parafusos. Sabe o que eu acho irónico? Depois de todo o trabalho, colocamos explosivos em lugares estratégicos e as mandamos para o ar. Mas o que realmente me fascina são as minas, que têm um mecanismo fantástico. As antitanque têm uma espoleta no centro que fica abaixo de uma porca presa a um parafuso. Ao desatarraxar, retira-se a espoleta e a bomba não explode.

Estou em outro mundo, Benjamim. Eu que sempre tive a idéia de que as bombas explodissem com o calor do fogo. O TNT só detona com pressão e, de acordo com os soldados, essa pressão nem sempre mata, mas pode arrancar as pernas de um homem ou ainda deixá-lo com os intestinos de fora, agonizando numa dor que não consigo nem imaginar.

Meu Deus! Só penso na minha terra, no meu gado, em vocês. Mande-me retratos. Estou morto de saudades, saudades desesperadas.

Rafael.

OBS: Parte integrante do roteiro "Fúria e Redenção", escrito por José Donizetti Morbidelli, uma adaptação da obra homônima de Ditinha Lima.

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JDM
José Donizetti Morbidelli
Enviado por José Donizetti Morbidelli em 20/02/2006
Reeditado em 30/10/2009
Código do texto: T114197
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Donizetti Morbidelli
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Donizetti Morbidelli