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CARTAS DA GUERRA Nº 5 - PARTE INTEGRANTE DO ROTEIRO DE FÚRIA E REDENÇÃO

Meu querido pai,

O Natal foi triste, sentimos todos saudades desse lugar fantástico que chamamos lar. Francisco recebeu uma carta no mesmo dia em que recebi a sua. Agradeço as fotos que me mandaste, Catarina está linda e Helena me parece bem. Tu envelheceste um pouco, mas eu também não sou mais o mesmo, nem no rosto nem na alma. Francisco me mostrou uma foto da namorada, uma bonita morena de olhos claros, e diz que pretende se casar quando esse inferno acabar. Inferno, essa é a palavra certa para o que vivemos. O que vi nessa última ba-talha ficará impresso com letras de fogo na minha alma. Vou te contar como tomamos Monte Castelo, embora as lembranças me cheguem vagas e nebulosas. Acho que a mente do ser humano não está preparada para ver tantas atrocidades, por isso Deus, se é que existe um, estou duvidando disso ultimamente, presenteie-me com lapsos de memória.

Os inimigos estavam na montanha, cavamos nossas trincheiras sob o fogo dos morteiros. As bombas do tamanho de uma garrafa explodem com o impacto, não resta tempo para nada a não ser morrer. Os alemães as miram nas trincheiras, têm até o requinte para colocarem o melhor atirador, que as lançam em curva, fazem um bonito arco an-tes de arrancarem as cabeças dos nossos brasileiros. Foi ordenado à linha de frente que cortasse as linhas de comunicação do inimigo, degolamos vários rapazes louros, bonitos e jovens. Dessa forma os germânicos ficaram cercados pelas nossas forças, sem água, comida e o mais importante, sem munição por alguns dias. Nós esperávamos. Não sei o que senti naquela espera crucial, sabendo que havia gente lá em cima passando fome, sede, suportando os gritos dos seus feridos. Às vezes nada me passava pela cabeça, outras me desesperava de tal forma que Francisco precisava me acalmar. Éramos inseparáveis, tínhamos fé que se ficássemos juntos não morreríamos.

Quando vamos à “terra de ninguém”, que é o nome que damos à linha de frente, para desativar ou localizar as minas, trabalhamos juntos, um colocando toda a confiança no outro, é uma boa forma de não enlouquecer. Um dia Francisco me disse que se sentia um covarde, acho que foi assim o nosso dialogo:
"Rafael, sinto-me um covarde. A maioria das minas que desativei foi graças a você, que estava comigo. Se estivesse sozinho não conseguiria."
"É claro que não, farias sozinho da mesma forma. Todos fazemos quando a coisa está ali nos ameaçando, aquele monte de TNT pronto para arrancar nossas cabeças." Essas foram as minha palavras para animá-lo.

Francisco é extremamente tímido, quase não se integra com o resto da tropa. Sinto-me como um irmão mais velho, gosto de protegê-lo. Tu, Benjamim, não imaginas o valor que tem um amigo numa guerra. Mas entendo o sentimento dele, medo, um medo que nos congela o sangue, paralisa os membros, medo irracional que nos ataca cada vez que estamos em cima de uma antitanque, ou qualquer outra, todas explodem.

Cercamos o inimigo, vou resumir essa parte. Mesmo que quisesse não conseguiria me lembrar de todos os detalhes. Anestesiei minha mente e combati. Não sei quantos matei, mas esse sangue que derramei não há de pesar na minha alma, mas na consciência dos que começaram essa guerra terrível e irracional, homens que nunca carregaram um fuzil ou explodiram uma bomba na cabeça de outro, homens que ficam nos escritórios ventilados no verão e aquecidos no inverno, com a barriga cheia, contando as baixas do exército inimigo ou encaminhando os mortos a seus parentes, achando que fazem um grande serviço: “aqui vai um herói, que perdeu sua vida lutando bravamente pela liberdade do mundo”. Não odeio mais os alemães, são como nós, sofrendo as mesmas agrúrias, são uns pobres diabos que perderam, que sofreram ainda mais para tentar reconstruir seu país e sua gente.

Mas voltemos à batalha, depois de dois meses, lá estávamos nós de novo, no mesmo teatro macabro, representando a mesma peça: matança. Quando tomamos o monte definitivamente, após intensa batalha, encontramos os corpos dos brasileiros que sucumbiram naquela dia que recuamos. Todos insepultos, mutilados pelos animais, em avançado estado de putrefação, irreconhecíveis. Esses não podem mais ser enviados para casa, com honras militares.

Chega por hoje, Benjamim. Não posso mais escrever, perdoe-me.

Rafael.

OBS: Parte integrante do roteiro "Fúria e Redenção", escrito por José Donizetti Morbidelli, uma adaptação da obra homônima de Ditinha Lima.

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JDM
José Donizetti Morbidelli
Enviado por José Donizetti Morbidelli em 21/02/2006
Reeditado em 30/10/2009
Código do texto: T114588
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Donizetti Morbidelli
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Donizetti Morbidelli