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Carta a uma certa amiga

Amiga,

Quando vieres me visitar, gostaria por favor, de pedir-te  que atentasses para os meus pedidos. E refletisses antes de abrir a boca e entornar suas sandices tão corriqueiras, mas às vezes irritantes e tão sem sentido. Sabe estou muito cansada com tanta coisa em minha vida para dar ouvido a babaquices e pequenos detalhes, que só podem incomodar tua vida, depois também não reclame que sente vazio, depressão e solidão.

Não insistas em reparar que apesar da tintura em meus cabelos ser recente (imaginem pintei ontem), você vai odiosamente apontar e comentar: “Olha já tem um fiozinho branco aparecendo!”.

Não diga após olhar para a jarra de cristal em cima de minha geladeira que ela é linda e maravilhosa, que você adoraria ter uma igual ou semelhante. (Talvez tu não saibas, mas as jarras de cristal são muito mais comuns do que tu imaginas, preste mais atenção, quando fores andar inutilmente no “shopping” a cata de um possível namorado, tu irás encontrar a tal jarra de cristal e tantas outras tralhas que  cismas em invejar quando vês nas casas alheias.

Guarde aquele teu comentário tão mordaz quanto importuno ao tentar lembrar-me, quantos anos realmente  tenho. “Tu não te lembras, isto foi há mais de vinte e tantos anos”. Eu não só me lembro, como também ainda sei fazer contas e não consigo entender porque tu te prendes tanto a datas, números, e coisas tão antigas que nem fazem sentido entre “amigas” que ainda sequer atingiram totalmente a maturidade. (Desse jeito quando entrares na melhor idade, terás tantas lembranças que os amigos terão medo de te encontrar para dois dedos de prosa).

Não me diga que tu sentes solidão, estás deprimida, estás sem dinheiro, e não suportas mais este ou aquele antigo problema (na tua cabeça é claro). Talvez se eu fosse tu, não ficaria tanto me lamentando com os amigos, eu tentaria ser mais positiva e não perderia meu tempo tentando roubar a cena de quem está muito bem, pelo contrário eu tentaria me aproximar , para ter com quem trocar idéias, e conversar sobre a rotina do dia-a-dia, pequenos fatos, mas sem reclamar de nada, (pois é lugar-comum, nossos problemas rotineiros, eu, nem ninguém, podemos mudar o rumo dos acontecimentos, talvez  tu com tua insatisfação, plena, geral e irrestrita, possa fazer tudo o que até hoje não tentou, por simples comodismo, indiferença e abandono de teu próprio ser, de tua real essência.

Não me perguntes como consigo equilibrar minhas finanças e ter sempre esta aparência despreocupada, nem tentes imaginar que espiritualmente sou superior, ou algo parecido.

Não me diga que engordei muito ou que pareço cansada, ou estressada.

Enfim, não jogue em cima de mim um monte de coisas que  sentes e pensas, mas que na realidade são tuas projeções mentais, realmente bem distorcidas, estranhamente esquizóides, que a fazem sentir-se tão sofrida, com direito a usar amigos como analista, como platéia para aplaudir suas façanhas e aumentar o tamanho do seu ego.

Deixe de vez essa mendicância e essa pobreza existencial. Cresça, olhe para a luz. Trabalhe em prol de si mesma, de sua evolução, de seu aprimoramento como ser humano, como ser espiritual, como missionária de Deus.

Talvez, eu esteja passando por alguma crise existencial, tu podes pensar ao ler minhas linhas, mas não é nada disso, estou te escrevendo  mesmo e colocando todas as palavras, do que realmente sinto e não gosto de te falar porque podes sentir-se melindrada. O que acho engraçado, não sei, talvez, tu vás vá até pensar que estou realmente precisando de ajuda, quando na verdade, é tu que cuidas de ti mesma.

Sabe, “amiga”, tenho muita vontade de ter uma conversa informal contigo e dizer-te, que o que me deprime é muito diferente da tua depressão. O que me deprime muitas vezes é assistir de camarote, tu contares que fostes ao churrasco na casa daquela outra tua amiga e que tiveste muita pena dela, ao notar que na hora de tu e as outras pessoas irem embora, não tiveste tempo para ajudá-la a lavar a pilha de pratos e talheres e dar um jeito na bagunça, também já estava ficando tarde e parecia que ia chover ...  O que me deprime, não é ir fazer compras no shopping e não ter dinheiro para comprar os cem mil pares de sapato que levarás para casa (e depois de trinta anos, sem uso, ainda vais querer vender no brechó da esquina de tua rua)... O que me deprime, é pensar que você é muito pobre, aliás me dá dó, de ter te dizer a verdade. Você é uma mendiga e olha que além de esmolar, ainda reclamas das migalhas que recebe dos que de ti se apiedam. O que me deprime, é que não percebes que o sol brilha para todos igualmente, e até mesmo aquele que não enxerga com olhos da matéria, pode vislumbrar paragens tão belas, enquanto tu estás sempre morta, e não ousas sequer olhar para dentro de ti mesma.

Esta tua solidão continuará sendo eterna, a menos que ouses sair de cima do muro existencial que divide os pobres e ricos e comeces a tentar dar teus primeiros passos ao caminho da luz.

Que vença a glória do Senhor nosso Deus e que ele na sua infinita bondade, estenda seus raios de amor e banhando-se nesta luz reacendas tua alma e libertes teu espírito, destas funestas influências negativas que rodeiam a tua existência.

Aradia Rhianon
Enviado por Aradia Rhianon em 29/03/2006
Código do texto: T130361

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Sobre a autora
Aradia Rhianon
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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