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Solilóquio

Querido amigo,

Digo mal. Meu estimado ou quem sabe: amigo querido... ainda não esta bom!... não sei que adjetivo usar para expressar meu sentimento. Amigo amado, talvez seja o mais próximo do meu sentimento, embora ainda não diga tudo.
 
Bem, não há de ser um adjetivo que vai cercear esta carta.

Gostaria de lhe contar um mundo de coisas mas vou me restringir a uma conversa que certamente teríamos em nossos encontros diários ao longo de mil anos de amizade.

Vou iniciar dizendo que a muda de bambu que plantei finalmente já está na segunda vara, esta maior, mais grossa e alta que a primeira, ultrapassa o segundo andar e o telhado. Lindo, imponente.

Tenho para mim que ali é um dos lugares em que você hoje vive.

No mesmo muro das bananeiras, que hoje já são treze, isto sem contar os filhotes, essas que com o bambu formam uma barreira que me isola dos vizinhos. Não podem me espiar e nem eu os vejo, só entre um vento e outro é que antevejo uma varanda, uma janela...no mais só poucos telhados.

Por aqui me acham louca em plantar árvores frutíferas e bambu e de péssimo gosto ostentar as bandeiras das folhas de banana, tanto nos fundos quanto na lateral da casa.

Se soubessem que de fato sou louca mas que de uma outra espécie.... É outra a minha enfermaria, neste mundo onde todos somos internos e insanos.

Imagine os sanhaços adoram limpar o bico no galho do mamoeiro a espreita de algum mamão maduro. Vez por outra ficam no pé mamões e bananas maduros e aos sanhaços se juntam as sabiás e as bem-te-vis, para uma refeição farta nesta terra de alimento cada dia mais escasso pois a primeira providência dos moradores é derrubar árvores, forrar o chão de cimento, plantar jardins artificiais.

Os muros daqui de casa estão repletos de trepadeiras floridas e os beija flores  delicados com seus vôos nervosos passam de uma para outra, os canários espreitam em busca do que comer e disputam com andorinhas as palhas da bananeira. Já vi por aqui um casal de pica pau, mas só com a primeira claridade do dia, primeiro pousa um na antena do vizinho, depois o outro, no muro ao lado, depois, quase juntos, alçam vôo.

Por aqui ronda um casal de gaviões, majestosos, para desespero do carcereiro de pássaros que mora aqui ao lado.

A noite são morcegos que sugam as frutas desavergonhadamente e um dia destes foi a gambá que desfilando no alto do muro olhava pachorrenta  para as cachorras enfurecidas. Andaram sumidas as gambás, em outras épocas as visitas eram cotidianas; tenho certeza de que cada vez nos veremos menos, pois as construções avançam com a fúria causada pela queda no preço dos materiais de construção e pela fuga dos cariocas de classe média baixa ocasionada pelo medo e em busca de segurança.

Penso nas eleições próximas e em quem..., larga pra lá, que este assunto quando passava por sua análise era desenvolvido com uma lucidez de fazer inveja a militante.

Sei dizer que a coruja do poste da frente se mudou faz tempo, os bicos de lacre que se fartavam no capim só raramente os vejo, em pequenos bandos, de dez ou vinte e não as centenas, que aqui passavam quando cheguei, e isto tem três anos!

Eu tive um livro escolar que tinha uma foto ou um desenho, já não me recordo, com inúmeras andorinhas pousadas em um fio de luz. Esta é uma cena que aqui, ainda hoje, eu vejo , ao vivo, se repetir ao amanhecer e ao anoitecer e com elas os pássaros d´água, marrecos, quero-queros, mergulhões, que aos gritos cruzam o céu diariamente. Um bando de aves completando a encenação do outro.

Tudo lhe deve soar familiar, pois lá do alto do seu morro a lagoa, a mata em volta e seus habitantes foi seu cenário durante muito tempo.

Gosto daqui não sei se pelo mesmo motivo que você gostou um dia, gosto do isolamento, embora seja dele que eu mais reclame, gosto mesmo deste silêncio sem sons urbanos, no máximo uma voz alheia, uma música mal educada, este som longínquo de crianças brincando e cachorros latindo.

A lua invadindo os jardins, a chuva molhando a roupa que seca ao sol. Tudo a moda antiga.

Aqui o que faz falta mesmo é a sua presença para trocarmos idéias sobre os acabamentos da casa, os jardins, a solução mágica de algum problema do cotidiano, - que só você sabia dar- onde e o que plantar, beber e rirmos a mais não poder de nada e de tudo, falar sério, por cinco minutos ainda que com o peso de cem anos, mas com a confiança e a leveza da amizade. De irmãos, de pai e filha, de mãe e filho, de amigos enfim!.
 
Vou agora beber uma cerveja, aquela adquirida com os dez reais, separados para o final de semana, e com ela na mão, percorrer os canteiros, molhar as plantas e continuar a conversa que sua ausência transformou, para sempre, em solilóquio.

Com muita saudades. Gilda.

 Maricá,2006
Gilda Delgado
Enviado por Gilda Delgado em 12/06/2006
Código do texto: T174384
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Sobre a autora
Gilda Delgado
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil, 70 anos
11 textos (568 leituras)
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