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Estava pensando sobre os fatos da vida, as coisas que entram em nossos dias, fazendo grandes coisas serem pequenas e as pequenas se transformarem em grandes, de importância sem igual.

Vivia num ambiente com pouco diálogo familiar, nem sempre havia conversas dentro da família.

Meu pai era de temperamento forte durante a embriaguez. Nos momentos de lucidez era o pai perfeito que sempre quis, “o melhor do mundo”. Minha mãe, ah, minha mãe, cabeça sempre baixa, sem palavras, vivia sua vidinha para cuidar de mim e de meu irmão, tolerava desfeitas e ofensas que pra ela, ele fazia.

Caminhoneiro a vida inteira, chegava em casa e a primeira coisa era começar a blasfemar, empurrando portas, dando socos nos móveis e assim prosseguiam nossas vidas, eu, a caçula, ainda tinha um pouco mais de segurança para chegar no meu pai, conversava muito com ele, mas de nada adiantava, meu irmão não tinha liberdade para chegar próximo a ele, sequer um abraço podia esperar.

Mais anos se passaram, minha mãe continuou ali com ele a suportar tudo, eu e meu irmão casamos e seguimos nossas vidas.

Atualmente, moro em outro Estado, um pouco distante da minha família, mas estou sempre presente, pelo menos uma vez ao mês vou visitá-los.

Novembro de 2003. Minha família me liga dizendo que meu pai não estava muito bem de saúde, ninguém conseguia levá-lo ao médico, só queria ficar deitado, não tinha vontade de se alimentar e estava emagrecendo muito. Lembro que meu irmão deu apelido para o meu pai de FOFÃO, pois ele é fofo com as bochechas rosadas.

Bem, parti e fui para Curitiba, coloquei meu pai no carro e o levei ao médico, sou teimosa igual a ele, e sempre um dos dois tem que ceder. Conversei muito com ele, então ele entendeu que era preciso.

Foi tudo muito rápido, somente disse ao médico que ele não se alimentava direito e que estávamos com medo dele ter uma cirrose devido ao alto consumo de bebida alcoólica (cachaça pura), então o médico continuou a examinar meu pai que era forte, fofão, como meu irmão o chama. Ele havia perdido dez quilos e a pele estava toda manchada com umas feridas na boca, que às vezes saía sangue.

Bem, o médico terminou o exame e começamos a conversar. Ele, que falava pouco, começou a fazer a escrita, virou o papel de solicitação de exames, falando tudo para mim e para meu pai em voz alta, quando chegou no último pedido, virou o papel, para que somente eu visse, e disse: - esse é o principal “HIV”.

Nossa... ainda tremo só de lembrar, como olharia para o meu pai e falaria o que o médico solicitou. Levantamos em direção a porta, o médico me perguntou quantos dias eu iria ficar, disse que iria embora no mesmo dia, ele me olhou querendo dizer algo, me disse - amanhã também estou trabalhando aqui. Entendi que ele queria conversar em particular, aí falei que talvez iria embora no dia seguinte à tarde.
Nos despedimos e o médico disse: a partir das oito horas da amanhã.

Fomos diretamente ao ambulatório, lá tive uma surpresa, estava na sala de espera esperando meu pai colher sangue, de repente o enfermeiro veio me chamar e disse: Andréia, tem que assinar o papel, disse a ele para assinar, meu pai me olhou e disse: mas é de exame de AIDS, para quê, filha ? então disse a ele que seria bom fazer, assim já fazia um check-up geral. Ele concordou e assinou.

O pior era chegar em casa, saber que minha família estava esperando para saber o que o médico havia dito.
E minha mãe... meu Deus, não tive coragem, enrolei, e disse que foram feitos alguns exames, não sabia o que fazer, conversei bastante com minha tia e resolvemos falar com jeito, meu pai já começou a ficar pensativo, cabisbaixo.

Contamos à minha mãe e ela perguntou se também poderia estar com Aids. O que dizer, o que responder, não sabia o que fazer, Deus foi tão maravilhoso comigo, que não lembro as palavras que usei, mas sei que ela não ficou perturbada naquele momento, afinal, seria apenas um pedido de exame. Disse a ela que iria conversar pela manhã com o médico que estava à minha espera para uma conversa em particular. Ela foi comigo, não entrou na sala, então o médico me perguntou se aquela senhora era minha mãe, disse que sim, e ele disse: - ela tem um jeito de pessoa simples e sofredora, e realmente é assim minha mãe. Ele me disse que eu teria que ser forte e juntar as forças com meu irmão, mal sabia ele que o meu irmão era o mais frágil da família, que precisávamos encarar com firmeza, pois ele tinha certeza que meu pai era soro positivo, e que minha mãe podia estar com o vírus também.

Nossa... meu chão caiu novamente, pensei, vou sair e como olhar para ela, como ele pode dar a certeza que meu pai está com AIDS, como, meu Deus? Minha mãe não merece, meu pai não merece, ninguém merece. O médico me deu alguns conselhos, e explicou como proceder com o tratamento. Explicou-me a respeito das manchas, que eram Herpes Zoster, e sobre a imunidade do organismo que estava afetada. Por isso, o emagrecimento rápido e a falta de apetite e dores musculares.

Saí da sala, não consegui me segurar e falei para ela: - o médico tem certeza que é AIDS, mãe.

Minha mãe empalideceu na hora, e a primeira coisa que disse foi: - meu Deus, coitado do seu pai. Como pode ter acontecido? Eu não disse nada, quando ela entrou no carro, me olhou e disse e eu? Eu respondi : -Vamos fazer exames, a senhora não vai ter e nem ele. Deus é bom e vai nos ajudar.

Bem, contamos o acontecido para a família, meu marido falou que o médico ou era louco, ou era muito sábio em dizer isso sem sequer uma confirmação de exame nas mãos, contamos para meu pai, e finalmente para meu irmão que abaixou a cabeça como sempre e ficou calado, e somente disse:- o meu pai não vai morrer, ele não vai sofrer. Esse é o jeito dele, de se expressar, sempre foi assim, ele se preocupa muito. Eu disse: - É sério, mas, atualmente, controlável.
Assim, foram passando os dias, eu voltei para minha casa e sempre por telefone, conversava com minha família. Meu pai, na época, ainda bebia, estava com aquele gênio quando se alcoolizava.

Chegou o dia do retorno para saber o resultado dos exames, eu não pude ir, a esposa do meu irmão com minha mãe acompanharam meu pai.

Fiquei aqui rezando com o coração na mão, de repente o telefone tocou e era minha mãe: filha... E aí mãe, o que deu? Deu, deu que, é positivo... Seu pai é soropositivo.

Meu Deus, fico gelada só de lembrar, que tristeza, não consegui falar com minha mãe, tremia, tiveram que trazer água para mim, liguei para o meu marido, me acalmei um pouco.

E a partir daquele dia tudo mudou, nossas vidas, nosso jeito de pensar, de agir, achar que somente com os outros que acontece. Na verdade, às vezes fazemos coisas ou pensamos, achando que nada é próximo de alguém que está por perto, olhamos com outros olhos, e jamais paramos para pensar que vai acontecer conosco. Pois é, aconteceu e estamos juntos nessa. Meu pai tem AIDS, mas a família toda pegou, de modo carinhoso.

Minha mãe passou por todos os exames, em Agosto de 2004, foi diagnosticada como TOTALMENTE LIVRE DO VÍRUS DA AIDS. Milagre de Deus. Nosso pai, por quem sempre oramos e agradecemos por ter tirado essa dor que seria para minha mãe e para nós, aliviando um pouco mais os nossos corações.

O médico, em conversa com meu pai, falou que ele não poderia mais beber, e assim que saiu da sala até hoje, anos depois, nunca mais colocou uma dose de bebida na boca, transformou-se naquele homem bom e querido FOFÃO em dias de lucidez.

Mas uma coisa que eu jamais vou esquecer nessa história toda é que minha mãe não largou do meu pai, mesmo sabendo que foi através de sexo inseguro que ele adquiriu o vírus.
Continua ao lado dele o ajudando e cuidando, claro que não tem mais uma vida sexualmente ativa, mas ficou com ele, cuidando de sua saúde.

E o meu irmão disse para minha mãe: - Mãe se fosse para poder escolher, eu preferia meu pai alcoólatra e não com essa doença, que pode fazer ele sofrer no futuro.

Hoje, meu pai e meu irmão têm um diálogo que jamais tiveram, andam juntos para cima e para baixo resolvendo os problemas dos caminhões. Meu pai ajuda meu irmão e meu irmão ajuda meu pai.

E eu estou aqui, sempre indo vê-lo e o acompanhando nos retornos com o médico especialista da doença.


Amo você meu Pai e minha família.

Déia
Andreia Cristina Guadagnin
Enviado por Andreia Cristina Guadagnin em 20/06/2006
Reeditado em 20/06/2006
Código do texto: T179151
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Sobre a autora
Andreia Cristina Guadagnin
Pariquera-Açu - São Paulo - Brasil, 40 anos
199 textos (20219 leituras)
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Andreia Cristina Guadagnin