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PALAVRAS PRA TE CONTER

Tirei um tempo pra te colocar no papel, mas acho que você não cabe nas palavras. Acho até maldade defraudá-las. É tão complexo o ofício de te depor e depois, tenho medo de desmerecer em algum aspecto você. Então, fiquemos combinados, em nada me desminta e se, por um acaso eu disser algo que seja simplesmente pra te enobrecer, de tal modo aceite. E por favor, não se aborreça com minha modesta sinceridade, pois afirmo, se digo o que penso, logo, acredito no que digo. Não contrarie minhas crenças, afinal seria desacreditar da minha amizade e dos meus sentimentos por você.

Há muito tempo comecei a te observar. Verdade! Observar o tráfego do seu perfume pela a vila, o seu rastro, as suas marcas, seus contornos mais densos no meu mundo. E percebi que, vira-e-mexe, você volta no mesmo lugar e olha ao longe – Com medo? Não sei –  contida apenas por um breve suspirar. Por que será? Quando eu falo você presta tanta atenção, como se eu falasse de coisas em comum para nós e assim com este reflexivo olhar me fita, me desbarata sem dó. Ainda vai reclamar de mim, do meu jeito, meus modos e a falta que me fazem, mas não posso deixar de explanar sobre o que me causa esse olhar. Os meus pensamentos são confusos quando penso em discrição, principalmente a respeito do que sinto, quando sinto e porque... mas nunca por quem, pois seria pouca astúcia da minha parte entregar tão fácil o larápio.

Esses olhos, dóceis, amáveis, de alguém que me respeita e que me diz claramente a sua pupila, do quanto você ama a verdade. Me defronta com minhas intenções e já nem posso mais tentar jogar com as palavras – jogo qual não se aprende nas escolas, senão a da vida – nem com olhares, pois logo já me diz seus olhos, basta. Você, tão enclausurada que mesmo acercada de tanta gente consegue está segundos sim outros não com você mesma jogando os dados. E  ganhando ainda por cima. Me vejo totalmente desarmado quando você me fita assim, daí entendo que você sabe muito mais do que eu estava dizendo do que o próprio eu e também que já elaborou a sabatina sobre meu assunto. Me amedronto pois sinto que estou criando um monstro quando estou com você falando, pois sei que mais dia menos dia, todas as minhas palavras serão dadas na minha fuça, Minha Cara. E tem mais, normalmente, nunca palpita em determinados assuntos, somente ouve, poucas vezes argumenta, mas não define, não se revela. E eu amo!

Não é difícil se apaixonar por você, misteriosa, atrai as pessoas como a gravidade nos atrai a terra e como em todo campo misterioso as pessoas ponderam, mas você também, nunca expansiva sempre tão retraída e ponderada. O único problema que eu tenho aqui com você é que às vezes – quase todas – você age e me surpreende, então eu nunca sei quando você vai me atacar e fico sempre a espreita pra dar o bote e... sempre surpreendido antes por você.

Não sei se você tem muitos amigos, mas percebo que valoriza demais os que têm e faze os merecer sua amizade. Está aí um atributo seu. Companheirismo. E por que não dizer lealdade? Deste eu não posso me assegurar sem o seu total consentimento. Afinal, compromete-la com minhas palavras não objetivo. Também não posso me comprometer, pois simplesmente estou depondo do que vi e testemunhei, porém se isso me torna cúmplice seu, não fujo, antes afirmo que tal fora o que me conquistou.

E eu ainda nem falei do seu sorriso e de sua beleza, enfim Linda. Assim com ´L´ maiúsculo, com todo cuidado pra palavra não se ensoberbecer. Não nego, eu conheço muitas pessoas belas, mas a sua beleza é diferente até mesmo da sua própria imagem no espelho. Acho que é por isso que você acha que eu minto quando falo que é Linda. O espelho é indigno de refletir tamanha beleza, razão da qual não deve lhe acreditar de nada. Seu sorriso é antes de tudo, uma expressão verdadeira do que você sente. E não me contenho em dizer que muitas vezes lhe vi experimentando a felicidade, julgando pelo sorriso. E só de ver, quis a felicidade também. Acho que não preciso descrever muito, pois felicidade tem alegria, que tem força, que tem vida, que tem amor, que é origem e propósito de todas as coisas.

Me falta palavras pra continuar meu depoimento. Quanto mais eu precisaria pra poder te compor? Qual tempo seria esse? Qual tempo esse que gastei – que foram bem investidos – em descobrir palavras que pudessem te conter? E que foram inúteis pra mim e talvez revelador pra você, penso eu. Desde antemão já pensava sobre esse depoimento e previa que as palavras – alvoroçadas por escolhidas – não fechariam com o objetivo de te relatar. E creio eu que posso causar problemas com o Dicionário, tentando lhe atribuir relação com seus milhares de palavras. Imagine? Conjunto dos vocábulos de uma língua ou dos termos próprios de uma ciência ou arte, dispostos por ordem alfabética e com a respectiva significação: você. Como eu já tinha dito: você não cabe nas palavras e é um absurdo assim defrauda-las.
Marco Faria
Enviado por Marco Faria em 01/07/2006
Código do texto: T185805

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Sobre o autor
Marco Faria
Piratininga - São Paulo - Brasil, 36 anos
28 textos (937 leituras)
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Marco Faria