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CARTA PARA UM ENDEREÇO CERTO

Hoje fiquei intrigado com a tua mensagem. Comecei a pensar, logo existir. Não digo que fiquei preocupado, porque há muito tempo não me preocupo mais com o que falam e pensam de mim ou com as palavras calorosas que me dirigem. Acho que no passado nada te prometi, portanto não vejo a razão dos avisos de cobranças. Tampouco jamais insinuei irresponsavelmente algum jogo de sedução. Se abri brechas para que seguisses tais veredas não posso ser o culpado nem ser condenado sem algum julgamento maduro e imparcial. Ora, analisemos por etapas.

Primeiro: não nos conhecemos pessoalmente e, mesmo virtualmente, nosso conhecimento é muito superficial. O que está atrás de um micro nunca é o que imaginamos ou o que queiramos que seja. Se pudéssemos mudar o mundo da maneira que os nossos desejos pedem, acho que não estaríamos com guerras e desavenças pipocadas aqui e ali em redor do planeta. Consideremos que, se nos relacionamentos ditos normais e reais, isto é: namoro, compromisso, noivado, aliança, festa de casamento com véu e grinalda, incluindo aí a virgindade e toda a fidelidade possível e imaginável, existem fricções, diferenças, quebras, rachaduras, lanhaduras, porradas e tantas coisas mais, imagina o que acontece quando se cruzam dois polos distantes, com realidades completamente diferentes, captando sinais gráficos soltos pelas infovias da comunicação moderna!

Segundo: tudo nesta vida é passível de mutação. É dia. É noite. Faz sol ou chove. As árvores crecem para depois serem destruídas. Inspiramos e expiramos e não somos mais os mesmos. Acabou o que era. Mudamos. Somos outros — mais felizes ou menos bobos. O bom momento existirá somente na lembrança. O importante é o tempo que vivemos.

Terceiro: tentar me descobrir será uma luta hercúlea, infrutífera e será mesmo um trabalho de Sísifo — um trabalho inútil. Estarás sob a condenação de rolares até a base da montanha toda vez que atingires o seu cume. Que os deuses não te dêem tal castigo. Gosto dos mistérios, dos enigmas, das respostas não dadas, dos não esclarecimentos dos fatos. As coisas óbvias são vulgares. Por isso é que as pirâmides do Egito, a Esfínge, o Olimpo e todos os mitos humanos que conhecemos são eternamente questionados. Aviso: não tentes seguir caminhos pelas minhas palavras ou minhas histórias. Coloco máscaras toda vez que falo ou escrevo — está no meu currículo e no meu cartão de visitas — tenho plena consciência de cada uma que colo na minha face. Desgrudo-as quando quero e bem entendo ou arrumo-as sotopostas, talvez dando uma visão angelical ou monsturosa — deixo a opção de interpretação para quem me vê. É assim que sou e ninguém vai me mudar a essa altura da vida. Vivo no mundo da poesia e entro em transe por dias, semanas, meses, às vezes anos. Sumo das pessoas sem aviso. Que me busquem no ar ou no fundo dos oceanos entre peixes e sereias. Notifico-te que será em vão essa busca, pois quando toda a água encharcar o teu corpo, o meu estará com os pássaros ou com os anjos ou talvez exorcisando demônios nos profundos dos infernos, sei lá... Não dou nem peço explicações a ninguém.

Agradeço-te pelo trabalho de lamber meus filhos enquanto os pari ou quando eles andavam pelo mundo rotos e maltratados, com feridas que foram pensadas com carinho e amor. Não te pedi que tivesse tais desvelos, mas já que o fizeste, aceito o presente que nunca será esquecido. Aproveito para esclarer-te que não te chamo por nomes e se outros uso, fecho os olhos e escrevo, misturando realidade, fantasia e sonho em meio de visões dementes.

Por último, quero te informar uma coisa muito importante que espero que não te confunda: vivo pacificamente e bem feliz com a minha ex-esposa. Confesso-te uma coisa: passamos a conhecer a felicidade — eu e a minha ex-esposa — quando nosso casamento acabou.

Abraços de paz.
Fernando Tanajura
Enviado por Fernando Tanajura em 27/07/2006
Código do texto: T203289
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Fernando Tanajura
Estados Unidos
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