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Carta a uma desconhecida

Esta carta eu escrevo para você, meu grande amor.
Como eu não sei quem é você, nem onde você está, optei por jogar minha carta neste hodierno mar.
Pensei, por um pouco, se isso tiraria o romantismo.
Então, percebi que os enamorados sempre usaram dos meios que dispunham, os quais nos parecem belos apenas por serem antigos, mas que eram atuais ao seu próprio tempo.
Se você, que recebe esta, não for o amor a que se endereça minha carta, por favor, mande-a de volta a este oceano de mensagens (no nosso caso, forward ou encaminhar ).
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Meu Grande Amor,

Estive esperando tempo demais.
Não sei se vou conseguir manter a leveza do meu ser, aqui, sozinho, enquanto nem tenho uma luz, por menor que seja no fim do túnel para me consolar.
Não avisto sequer a sua sombra...onde você está ?

Não demore tanto, não se guarde tanto, pois quando estiver preparada talvez eu não esteja mais disposto a me entregar...talvez tenha apanhado tanto da vida que não queira mais tentar...eu tenho medo que isto aconteça.

Eu sou um nauta, poeta, cancioneiro e trovador.
Você sabe...somos todos pessoas que vivem por emoção...isso é que nos faz especiais.
Tenho minhas manias, tenho minhas fobias, tenho meus desejos.
Abro mão de todos eles, inclusive da boemia, apenas não abro mão de encontrar você.
A distância é barreira tão intransponível quanto à insegurança.
Eu a procurei na minha rua, e não a encontrei!
Eu passei pelo meu bairro, e não a encontrei!
Eu vasculhei a cidade inteira e, mais uma vez, não fui capaz de reconhecer você...
Talvez não tenha sido sincero o bastante.
Talvez não tenha aberto o meu coração o suficiente.
Você bem sabe, é difícil abrir o coração, quando se está acostumado a receber flechadas de incompreensão.
Se você for minha vizinha, bata na minha porta.
Se for minha conterrânea, corra até a minha casa.
Se estiver a milhas de mim, grite o meu nome, que irei escutar, e atrás de ti partirei.
Nesse nosso mundo medíocre e pífio de sofrimentos efêmeros, cuja depressão surge sem dar explicações, preferimos, às vezes, sermos ímpios, para não correr riscos, para nos protegermos.
Muito protegido, o coração morre!
Sem experimentação, a vida se torna vazia!
Não vou brincar com você, nem quero que brinque comigo, mas sabemos o quanto é complicado, viver somente de eufemismo.
Sendo assim, vamos acordar, desde já, que não somos obrigados a promessas que não sejamos capazes de cumprir...a não ser uma única promessa:
De tentarmos com sinceridade.
A sinceridade, meu amor, é moeda rara...ainda escassa, por estes lados do universo.
Assim, dou uma pausa e respiro, e digo, que:
Falei tão pouco de mim, até agora.
Menos ainda falei de você, de como imagino ser você, de como gostaria que fosse.
Eu quero carne, mente e espírito.
Pois, há muito, aprendi que somente a conjugação destes três fatores, em equilíbrio, podem trazer felicidade, acrescidas do orgulho.
A carne precisa de descanso e de afago. Preciso deste descanso e deste afago.
Preciso de alguém com quem deitar, por horas, perdendo mesmo a noção do tempo, para ver o sol se pôr ou para sentir a brisa fresca do mar, no amanhecer do dia.
A mente precisa de paz. Quero dar paz a uma mente cansada, quero paz para minha mente confusa, inebriada de paixão inominada.
Quero crer que ainda existam mentes abertas o bastante para se lançar numa experiência de conhecimento e de descobertas.
Quero o silêncio gostoso que somente se consegue na companhia certa.
O espírito está desgastado.
Preciso colocar em ordem a casa.
Vou varrer da minha alma uma porção de noções erradas que se grudaram em mim.
Quero uma alma sorridente, e que também precise de colo - bem como eu.

Eu imagino você como alguém que queira mais da vida do que uma viagem ao exterior no fim do ano, um carro novo para poder esconder sua insanidade, dentro, uma TV por assinatura com milhões de canais para gastar o tempo, que não sabe preencher de outra forma.
Gosto de viajar. E, assisto televisão.
Apenas meu norte está em outro lugar - espero que o seu também.

Onde está você que me fará feliz ?

Ascolta il tuo cuore...e fermati
Ascolta il dolore del mondo...
Siamo persi per la via,
Orfani di vita...

Estive pensando sobre as coisas que me fazem bem, para contar para você.
Talvez fosse melhor elegermos juntos o que nos faz bem...
Gosto de acreditar que a vida é simplicidade.
Não significa que não devemos nos esforçar, apenas que não devemos compor castelos demais.

Meu grande amor, apelo, para os quatro ventos para que esta carta chegue ao seu litoral...
Se não for você, recoloque-a no mar.
Eu não tenho pressa, mas tenho esperança.

"Vamos descobrir o mundo juntos..."


Rogério W. Guasti
Rogério Espindula
Enviado por Rogério Espindula em 15/09/2006
Código do texto: T240848

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Sobre o autor
Rogério Espindula
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 37 anos
338 textos (33939 leituras)
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Rogério Espindula