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Cara aberta ao Escritor Júlio Severo

Júlio,

Verdadeiramente lamentável o que foi escrito pela sua pessoa, referindo-se aos jogos de RPG - . É uma coleção absurda de incoerências pré-concebidas, aliadas a uma capacidade única dos evangélicos de julgar atos alheios. Não julgueis..., Ele disse. E as Igrejas Evangélicas continuam dando uma aula de como interpretar a palavra de Cristo da maneira que mais os convém, de como tratar do que não conhecem de maneira arrogante, etnocêntrica e preconceituosa. A ignorância é tanta com relação ao assunto, que torna-se difícil saber por onde posso começar. Talvez fosse mais fácil, se o autor de "Entretendo-se na escuridão: As implicações dos RPGs na vida dos jovens" soubesse o mínimo necessário de história geral, história e estética das artes, e lesse livros que não os apenas permitidos pela sua religião, como livros de folclore bretão, saxônico, eurasiático, ou de literatura geral.
Pois bem: o artigo começa com uma estranha associação entre jogos de computadores e RPGs, o que pode signifcar duas coisas: 1- Total falta de embasamento sobre a matéria escrita, o que já a invalida, ou 2- Formação tendenciosa, agressiva e IMORAL sobre os RPGs. A associação continua até os filhos do casal evangélico, que são tentados por jogos de computador "sombrios". "Contudo, o rapaz gostava de games que tinham personagens e papéis envolvidos em cenários de túmulos, pentagramas e outros símbolos satânicos. Embora fossem batizados no Espírito Santo, ele não via problema com esse tipo de RPG(...)" Antes de tudo, DEFINA: do que o sr. está falando? De RPG ou de jogo de computador?
Em segundo lugar, se o garoto tornou-se bruxo, será mesmo que o foi porque jogava RPG? Não seria por torcer para o Coríntians, ou por usar meias brancas, ou por tomar Coca-Cola? Francamente, isso é uma associação RIDÍCULA. Se ele se tornou bruxo, eu e mais centenas - eu disse centenas - de jogadores que CONHEÇO pessoalmente não nos tornamos, assim como nem todos os pastores e "bispos" são corruptos, nem todos os padres são pedófilos, nem todos os aidéticos são promíscuos. A paranóia os cerca a tal ponto, que torço sinceramente para que você não conheça alguém que gosta de chocolate virar bruxo. Seria o fim da Nestlé no Brasil.
"Os RPGs podem não ter ocasionado diretamente a contaminação desses jovens evangélicos no ocultismo, mas, juntamente com outros fatores(...)" Bela conclusão!! Um lampejo de lucidez. Pena que o texto destrói esta frase, que talvez tenha sido a única coerente. De fato, muitos outros fatores podem ter contribuído para a "contaminação" (sic) dos jovens no ocultismo, como identificação pessoal, discordância de dogmas evangélicos, aversão à ignorância, ou mera opção. Então, até aí, o RPG saiu ileso...
Se a moça reconhece que havia "sérios problemas em sua vida", também há na minha, e na vida de todos. Isto não é privilégio nem punição para este ou aquele.
Chegamos ao Dungeons and Dragons, que, sendo o 1º RPG lançado no mundo (inspirado em um jogo de tabuleiro chamado ChainMail - "cota de malha" (armadura medieval) e na literatura de J.R.R. Tolkien (você o conhece?)) O D&D foi o primeiro jogo do mundo a propor uma total liberdade de ação para os seus jogadores, dentro de situações criadas por um jogador, o Dungeon Master (mestre do calabouço, ou mestre de jogo). O jogo é baseado na Idade Média, e geralmente propõe situações típicas da literatura medieval, como o resgate de uma bela princesa, a defesa de uma cidade ameaçada, ou a expulsão de um feiticeiro das terras conhecidas. A índole do jogo depende apenas da índole dos jogadores.
Portanto, se a sra. Pat Pulling acusa o D&D de usar demonologia, feitiçaria, vodu, assassinato, estupro, blasfêmia, suicídio, assassinato, insanidade, perversão sexual, homossexualismo, prostituição, rituais satânicos, jogatina, barbarismo, canibalismo, sadismo, invocação de demônios, necromancia e adivinhação, ela deveria mesmo era procurar outro mestre de jogo... ou então um psiquiatra.
Se o filho dela cometeu suicídio... bem, o filho de uma vizinha minha também cometeu. Nada a ver com RPG. Ele apenas queria encontrar com Deus mais cedo. (Sim, Júlio, fanatismo religioso. Acontece...)
Segue uma lista de crimes cometidos por pessoas que jogam (ou jogaram) RPG. Solicito também uma lista de todos os crimes cometidos por fanatismo e/ou intolerância religiosa no mundo, nos últimos trinta anos. Não sei qual lista será maior.
Os jogos baseados na Era Medieval muitas vezes possuem deuses pagãos, de acordo com os registros dos deuses cultuados pelos antigos (deus da colheita, dos animais, da sabedoria, etc.) Isso mantém a diversidade do jogo, sem que seja intenção profanar, blasfemar. E, como a evolução dos personagens não é limitada (e aí reside um dos baratos do jogo, pois é uma franca lição de vida - a de sempre tornar-se melhor), os personagens podem atingir graus altos de aperfeiçoamento em suas habilidades, tornando-se "godlikes" (semelhantes a uma divindade). O que não significa ser "Deus". Ou seja, a tradução pecou. Também não existe "Manual Monstruoso", mas sim "Manual dos Monstros", que são uma designação genérica a todos os seres que habitam o jogo de ficção. (Os humanos também estão neste manual). Os "Manuais Completos" são livros que listam habilidades dos jogadores. NÃO SÃO manuais de bruxaria, de barbarismo, feitiçaria.
Gnomos, Elfos e Anões NÃO SÃO demônios. São seres do folclore europeu, e/ou baseados na literatura de Tolkien. Ou será Branca de Neve e os Sete Anões um filme satanista? Vindo de alguns evangélicos...
Os Dragões dos RPGs são, geralmente, seres malignos, e um dos objetivos dos jogadores é destruí-los, o que só conseguem quando seus personagens possuem um alto grau de evolução (persistência para vencer o mal; outro valor do jogo).
Bruxo não é a tradução certa para "Wizard"; tradução melhor seria lançador de feitiços. Por tratar-se de um jogo de fantasia, muitos personagens podem lançar magias, como luz sobre as trevas, curar os amigos, ventriloquismo, armadura mágica, o que pode ajudar seus amigos a completar as missões e derrotar o mal.
Os ladrões são personagens que escalam muros, abrem fechaduras, e isso não é necessariamente para roubar alguém. Aliás, existem personagens ladrões que jamais usam suas habilidades para o mal. E estas habilidades ajudam o personagem.
Não existe "RPG Ocultista". E, se existir, e daí? Quem somos nós para classificar este ou aquele desta ou daquela maneira? Ao contrário das tantas e tantas igrejas portadoras da verdade divina, não nos preocupamos em tachar ninguém, em expulsar ninguém. Cada um é livre para ser como é. O jogo é nosso ponto em comum, embora tenha conhecido muitas pessoas (meus grandes amigos até hoje) a partir de uma partida de RPG.
"Não permitam que se ache alguém entre vocês. que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos. O Senhor tem repugnância por quem pratica essas coisas."
O RPG é um jogo. SÓ UM JOGO. Ele não tem pretensão nenhuma de parecer-se com a realidade. No entanto, se você quiser fazer um RPG sobre evangélicos, vencendo o mal com a palavra de Deus, sinta-se perfeitamente à vontade. Certamente você encontrará pessoas para jogar, e terá momentos interessantes de entretenimento saudável, asséptico e irrepreensível. Prometo: não escreverei um artigo criticando-os, não perderei meu tempo falando sobre algo que eu não conheço, nunca joguei, não sei como é. Portanto, seja coerente e concentre-se em sua própria fé.

Respeitoso abraço.
Thiago Salinas
Enviado por Thiago Salinas em 02/07/2005
Código do texto: T30419
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Sobre o autor
Thiago Salinas
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
40 textos (15563 leituras)
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Thiago Salinas