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"Carta da Raimunda pro Pai do Céu"


   Queridinho Painho du Céu!
   Di juelho peço sua bença!!!...
   Sevirino escreve, pruquê num sei fazê isso, meu Pai Santo, me adescurpe quarqué coisa. Meu coração já até perdeu aquela seta que uso sempre pra falá. Mas no meu coração de sertaneja, filha de pai e mãe do sertão abençoado pelo Sinhô, estou aqui pra revelá toda minha disdita vida de muié rendeira. Todo mundo me cunhece por Mundinha, aquela feia de cara, mas Pai posso ser feia de cara, mas sou a boa Raimunda. Todo dia quero agradecê ao Sinhô ter dado a minha pessoa uma vontade louca de vivê.
   Este ano já tá acabano, meu Pai, porisso vou te contá meus segredo que nem pru padre eu conto. Sabe cumé, né? as coisa do meu coração não conto pro mundo não, mas pru Sinhô Meu Pai do Céu, da Terra e de Todos os Lugá eu conto, pruquê sou sua filhinha do sertão, pobrezinha mas com muito amô no coração.
Painho, o Pai Noel está me sacaneano munto. Prometeu, prometeu um gatão pra mim no Natal e até agora espero e nada de gato ou quarqué otra coisa, pruquê nem escolho mais, quarqué um serve, porque tô munto nicissitada. Coisas de muié, sabe cumo é, né?
   Ah! Painho du Céu, os anos passano e eu aqui só esperano... Painho dos meu Amô, por caridade, pensa só na minha pessoa, minhas tristeza. Nem drumo mais dereito, as noite passa e eu só pensano naquilo, só esperano aquilo, num durmo mermo, não. Com todo respeito qui tenho pelo Sinhô, Pai do Céu, mas foi o Sinhô qui inventô aquilo tudo, aquela fuxicada arretada, aquilo que me deixa arrepiada, aquilo do tal amô, pra lá de bão, sim sinhô...
Painho do Céu, tem pena di mim, não se avexe  munto , mas já tô desesperada, munto cansada. Sabe o qui vai acontecê? daqui a pouco não sirvo mais pra nada, Pai. Aquela coisa de amô de rede é bão mesmo pra daná. A rede pra lá e pra cá e eu me pego a pensá, nem posso mais respirá.
    Depressinha, Painho do meu Céu, o ano já tá findano, não dá mais pra esperá. As rede num precisa arranjá, pruquê de tanto esperá tenho muitas pra usá. Espero até amanhã quando o ano passá, estou na minha casinha com minha galinha de cabidela cozidinha na minha panelinha, prontinha pra mode oferecê pro Sinhô sentar na minha mesa e comê. Tem feijão de corda, rapadura, tapioca pru café e um aluá pra mode se animá...
Minha rede de tucum está novinha pro Sinhô se descansá, minha água bem fresquinha e muito amô  pra esperá... Mais uma vez, de mãos posta a rezá, manda quarqué um vir me buscá.
   Tô cum os ôio rasos dágua a implorá...
   Suas bençã por favô, meu Nosso Sinhô...
   Sua filha cheia de fé, com as mão no rosário a suplicá

  Raimunda Custódia da Cruz, sua creada, obrigada..

  Myriam Peres
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 13/07/2005
Código do texto: T33953
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
473 textos (54615 leituras)
5 e-livros (275 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 05:36)
Myriam Peres