No dicionário encontro: s.f. Declive, ladeira.
Recôncavo feito pela água.
Bras. Depressão do terreno.
Bras. Volta do mato ralo ou dos capões.
Bras. (S) Volta da estrada.
Na minha vida: morada!
Moro na quebrada! Vivo na quebrada! Amo a quebrada!
Viver na quebrada é superar desafios diários é manter-se dentro padrão da maioria do povo brasilieiro: estudar, trabalhar, consumir, amar! 
Acreditem! A maior parte dos moradores das favelas são gente de bem! Gente que levanta da cama quando a maioria das pessoas ainda dormem para irem trabalhar. 
Aquela moça que serviu seu café na padaria pela manhã, está acordada há muito mais tempo do que os senhores! Ela acordou por volta das quatro da manhã para arrumar as crianças para a escola, organizou o que o marido solicitou, banhou e seguiu para mais um dia para de trabalho, tendo como seu primeiro desafio logo no início do dia: ir sentada no ônibus lotado.
Sim a vida na favela começa bem cedo, antes mesmo do nascer do sol, ônibus e ônibus saem cheios de trabalhadores de dentro das favelas!
Aqui a luta é constante, por isso somos fortes! Lutamos contra a falta de infraestrutura, contra o descaso dos governantes e da sociedade.
O preconceito vem junto no pacote quando residimos aqui. Quantas pessoas cortaram relações comigo depois que descobriram meu logradouro. Até o carteiro persiste em não entrar aqui, afinal a sociedade rotulou a favela como o lugar onde nasce a criminalidade.
E eu venho desmistificar este rótulo.
Pode parecer loucura, mas afirmo: não é aqui que nasce o crime!
O crime nasce bem longe daqui e nos lugares mais caros e sofisticados que se possa imaginar! 
O lugar onde nasce o crime tem ar-condicionado e é todo encarpetado! As pessoas usam roupas muito caras e seus carros importados vem acompanhados de motorista e segurança, afinal lá a maioria tem o rabo preso.
Lá não tem arma, fuzíl, pode ser que tenha algum tipo de droga, touca ninja também não tem. Eles não usam pé-de-cabra, dinamite, maçarico, nada disso. Suas armas são apenas canetas importadas e papéis somadas à um muito de egoísmo e falta de caráter. 
Para  que destinar algo para os favelados? Lá eles vivem bem, consomem e são felizes com pouco! Por qual razão investir em educação a aqueles jovens da periferia, afinal se investirmos muito lá, não teremos detentos para oprimir e desviar mais verbas ainda!
As pessoas na quebrada sonham com pouco sim, querem apenas o necessário para viver bem e um canto para viver. 
Mas, essas pessoas são dignas de muito mais do que migalhas, pois somos (incluo-me, pois sou da quebrada) honestas, fiés aos bons costumes e zelamos por nossa dignidade trabalhando sol a sol.
Aqueles que saem daqui para cometer crimes, nada mais é do que o fruto que vocês SOCIEDADE plantam quando excluem o morador da favela, quando não dão oportunidade de trabalho a um ex-presidiário, quando desviam verbas, quando não se importam com a ausência dos correios nas periferias, achando que favelado não precisa de endereço, apenas de força fisica para realizar o trabalho braçal que é uma das poucas opções ofertadas para nós. 
Escola na favela? Piada! Qual a necessidade de ter cultura em um lugar onde as pessoas mal são alfabetizadas e mau educadas? Conforto? Eles vivem bem nos barracos de madeira!
Estas atitudes impulsionam nossa revolta, pois é aqui que convivemos e vemos abertamente o reflexo dos desvios de verbas que acontecem.
Apresento-lhes o resultado dos milhões desviados aos paraísos fiscais. O dinheiro falta aqui. Falta para a criança desnutrida, para a rede de esgoto, para o sonhado asfalto, para uma educação digna! 
Nós moradores da quebrada somos brasileiros como os demais, somos SEUS compatriotas com os MESMOS diretos e deveres de todos! Votamos, trabalhamos, pagamos impostos. E qual é o motivo de tanta divisão social? Por que somos marginalizados? Que vocês da "sociedade" tem a mais do que nós?
Dinheiro, carro, casa, muros, seguranças, porteiros? 
Desculpa, mas esta diferença não modifica o cárater de ninguém!



 
Adriana Del Col
Enviado por Adriana Del Col em 26/03/2015
Reeditado em 26/03/2015
Código do texto: T5183848
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