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The Unsaid

Faz semanas que não sei de você e às vezes parece que há uma vida inteira entre nós. De novo. Tenho pensado em você cada segundo do meu dia. Posso lembrar de extensos e intermináveis diálogos imaginários com você. Imagino o desabafo, a risada, o aconchego. Penso nos seus doces olhos, sempre como o céu, imprevisíveis, lindos, variáveis e inalcançáveis... Penso nos seus lábios, sua língua procurando a minha, quase sinto o toque suave, o carinho, o encontro de peles; tremo sozinha e me calo.

Imagino como você deve estar. Bem? Espero que sim. Lembro do seu pai, sua família, seus problemas, sua vida. Preocupo-me, preocupo-me. Demasiadamente. Então me recordo que sou a mentira, que sou o jardim secreto, cheio de rosas e espinhos. Que sou a lembrança sofrida do passado. Que sou a dor esquecida num canto da memória. Que sou a dúvida, sou as possibilidades sem certeza.

Lembro que, para você, posso ser a agressão. A falta de comunicação. Para você, posso ser muito pior que uma situação sem saída. Que eu não entendo e (repetidamente) jamais me fiz entender. Como eco, vêm as palavras “prefiro que saia da minha vida”, “eu queria a sua amizade”... Então eu simplesmente me enterro em mim mesma e não sucumbo ao impulso de ligar para você, pedir perdão por qualquer coisa, dizer que amo você mais do que nunca e que me sinto ausente, perdida, longe de você.

Outro dia eu li um conto, inspirado em fatos reais. Publicado por um terapeuta, reproduzia a carta de uma paciente. Tempos depois, ela afirmava que ninguém é capaz de viver bem, amar, verdadeiramente, se não é capaz de viver sozinho, de se amar. Por Deus, como eu, logo eu, fui também enveredar por este caminho de viver um outro alguém, de se perder num olhar, de desviar a rota para cruzar um caminho. E ficar ali. De verdade. No melhor sentido que essa tola palavra puder ter.

Tento me lembrar todos os dias o quanto sou feliz, o quanto tive domínio sobre minha vida, minhas escolhas. Quantas pessoas boas eu tenho o privilégio de conhecer. Quantos momentos felizes perpassam minha vida. Mas então eu lembro do seu sorriso, sua voz e tenho aquela sensação da gargalhada no ar. De um arco-íris sumindo, um espetáculo que se faz e se desfaz num piscar de olhos. Como uma pegada, marcada na areia, no peito, na alma e então só há vestígios, daquilo que não mais se ‘sabe’.

Dentro de mim, carrego a certeza do que não sei. Irônico, não? Carrego um sentimento tão intenso que se esgota em palavras; tolas explicações. Diante disso, só lembro de você e cada segundo que não estive e não estou – nem virtualmente- ao seu lado. De que vale isso tudo sem você, sem saber de você? É tão magnânimo, se me permitem ser assim, mais uma vez exagerada, que não importa o uso, mas a existência, como uma pequena chama. Se sou amiga, se sou namorada, amante, parceira, ouvinte... Este sentimento tudo abriga.

Situações, vaidades, angústias e saudades nos arrastaram em desentendimentos, mas o inexplicável se esconde detrás desses sentimentos vis. Penso, penso nisso com tanta força, que me lembro que eu acredito nisso. Eu, logo eu, eu acreditei, eu fiquei, eu me torturei de frustração e saudade, crendo que algo iria, por fim, encaixar-se... Mas... Você disse vá... Você soltou as amarras, de vez, do que parecia uma conexão inexplicável. Você desacreditou na ligação. Fez com que, de uma vez por todas, eu me achasse lunática por não pensar, não entender, porém, ainda assim, sentir tão vibrantemente.

E, nesse instante, volto a ouvir a sua voz imaginária dizendo para eu sair de sua vida, para eu deixar você em paz, de uma vez por todas. Para eu permitir, com minha ausência, que você volte a essa vida, que é só sua, que só você sabe, à qual não pertenço.

Nesse mundo tão seu, na qual vaguei em sensações, sem palavras. Feeling. Feeling. Marcos daqueles “telefonemas tremidos”, daqueles silêncios de expectativa. Daquela espera febril pelo encontro físico, carnal e metafísico... Aquele, aquele abraço, que, como num filme, isolou-me, com você. O mundo ao nosso redor, numa  Paraty histórica, da nossa história. Aparências, capas nossas, que se reconheceram num olhar, num sussurro de nomes. No sopro de desejo e paixão.

Parece aquela coisa de cinema. Fora da realidade. Eu vejo você cruzando o salão do hotel e, em meio a animais que me distraiam, sua aparição na minha frente. Materialização de sonhos. Estrela cadente na minha cidade. Rosto cansado. Meus problemas. Seus problemas. Tantos...

Aquele beijo, olhos nos olhos, seu corpo rente ao meu, uma eternidade em segundos. Eu sinto seus pés sob meus dedos, num momento em que a tela enorme do cinema parecia uma realidade paralela. Seu calor, seu cheiro, presença tão real ao meu lado, como se eu entrasse em você e sentisse você, de novo, em mim.

Meus lábios, depositários de tanto desejo, repousando nos seus braços, frenéticos, seu gosto imaginário correndo nas minhas veias, paisagem correndo, do lado de fora, do ônibus e da vida de outros. Quaisquer outros.

Seu beijo, no meio da praça. Tanto medo, tanto medo, tanto desejo, meu Deus. De mãos dadas, como crianças, na liberdade de um  momento. Na liberdade etílica. Na liberdade de sentir.

Como adolescente, não largando o amor, na  porta de casa, na porta do hotel, numa rodoviária, no saguão de um aeroporto. Sempre, sempre me despedindo, a cada segundo, dessa ausência em mim mesma, que você deflagra.

Eu sinto, sinto, sinto... Mas, no final, volto a ouvir a sua voz imaginária dizendo para eu sair de sua vida, para eu deixar você em paz, de uma vez por todas. Para eu permitir, com minha ausência, que você volte a essa vida, que é só sua, que só você sabe, à qual não pertenço. E, como você, eu sinto, eu sinto muito...

'Cris Liebe'

Daniele Sorris
Enviado por Daniele Sorris em 15/10/2005
Reeditado em 15/10/2005
Código do texto: T59989
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Sobre a autora
Daniele Sorris
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
5 textos (496 leituras)
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