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CARTA PARA O AMOR: COMO CHEGUEI À PAZ

Você foi uma revolução dentro de mim. Seu cerco: os olhares - a chamada "paquera" -, a timidez quando estava perto, a ousadia quando estava longe. Falava comigo como um mendigo diante de um milionário, como um ignorante ante um intelectual, como quem nada tem diante de quem tem tudo. Me olhava de soslaio e me engolia com o mesmo olhar. Parecia pedir sempre desculpas. Mas tinha uma altivez que talvez nem percebesse. Eu a vislumbrava.

A sua chegada só aconteceu porque eu provoquei. E você veio como o servo que obedece a uma ordem superior. Entrou manso e calmo. Conversamos. E, de repente, a altivez que eu pressentia, a ousadia do beijo repentino e já carregado da paixão reprimida em você. Eu fiquei tonta, tive medo. Correspondi ao beijo e a toda empolgação que se seguiu. Achei que era apenas a atração física. Que apenas minha carência respondia. Era só aproveitar e pronto.

Estava enganada. Você ficou. Foi crescendo em nós um amor exigente e muito realizador. De início, a paixão avassaladora. A eletricidade de nossos corpos. A dificuldade em estarmos separados para tocar nossas vidas diferentes. A necessidade de nos vermos, nos ligarmos, nos sentirmos. Mas parecia tudo igual, ainda, às paixões comuns e repetidas. Você era diferente de todos os príncipes encantados que povoaram meus sonhos românticos. Você era praticamente o oposto do parceiro que eu idealizara. O que você era derrubava meus mitos, minhas fantasias, meus preconceitos. E eu creditava tudo ao prazer físico, à loucura que era nosso encontro. Sempre acreditei que só isso não seguraria nunca uma relação, passaria logo. Mas isso não passou. Fui percebendo, espantada, que minha necessidade de você não era física apenas. Era de você inteiro, por dentro e por fora, que eu precisava. E, mais espantada ainda, fui descobrindo que você precisava de mim, e me queria, muito além do corpo, da cama intensa e gratificante. Era a necessidade de dizer "te amo", mais que ouvir. Era mútua nossa entrega interior, tanto quanto a entrega física ao prazer. O amor, o verdadeiro amor explodira e se instalara em nós. Eu já não me perturbava mais, eu me entregava à felicidade nunca sonhada. Foi um tempo de indescritível alegria. Éramos nós, em plenitude, quase perfeição.

Mas veio o dia do corte brusco e inesperado. Até hoje, nossa separação é um enigma para mim. Não sei ainda o que aconteceu comigo ou com você. Tudo está envolto num grande mistério que não penso em desvendar.

Depois do choque, resolvi voltar à vida antiga, só deixar rolar, curtir o que estivesse à mão, desenvolver minhas atividades, cuidar do dia-a-dia. Dois amores antigos retornaram. Ao primeiro não impus nenhuma resistência. Não era amor, eu sabia. Com o tempo, percebi que era amada mas não podia amar. Estava sendo desonesta. Rompi a relação quanto tive certeza. Ao segundo, resisti bravamente, não podia admitir a volta a um amor que passou, existia nele e não mais em mim. Depois de dois anos de insistência, sentindo o peso da solidão, com medo de estar dizendo não ao amor e à felicidade, aceitei o recomeço. Foi um grande erro, durou muito pouco.

Só então ficou muito clara sua presença viva dentro de mim. Não tinha mais o que negar ou discutir. E 14 anos tinham decorrido desde a separação! Você estava forte como no começo da paixão que eu julgara passageira. E nos falamos, discutimos nossos sentimentos, um tanto assustados ao percebermos como estavam vivos em nós dois. A rotina de nossa vida tinha mudado muito, ambos envolvidos em problemas que não eram mais comuns e sempre de difícil partilha. E tivemos reações opostas: eu disposta a enfrentar, dialogar, encontrar saídas; você se acovardando, assustado, fugindo. O terrível era, a cada momento, encontrarmos o amor inteiro em nós, parecendo que, para o amor, não tinha havido tantos anos de separação, as diferenças não contavam, os desencontros nada significavam. Fomos sinceros, não negamos o amor, apenas constatamos que o momento certo não chegara e nem sabíamos se chegaria um dia. E assim vivemos: separados, amando, desejando e... suportando.

Não sei falar de você. Mas sei e quero falar de mim. Todo este tempo de nosso encontro sem o ENCONTRO, foi um processo difícil, sofrido, mas também maravilhoso. Muitas lágrimas, uma saudade dilacerante, um desejo latente e continuado que judia e ao mesmo tempo gratifica. Nenhuma dúvida quanto ao sentimento, ao amor final e definitivo. No início até tentei tirar você de mim, matar e enterrar como fiz com outros amores. E até acreditei que conseguiria. Não consegui e cheguei a ter raiva. Então tive que me amoldar e optar por sofrer. Mas como amar e sofrer? Parece tão contraditório... Resolvi me entregar: sofrer o que era dor, curtir lembranças boas, nunca negar qualquer sentimento nem lutar contra ele, apenas acolher tudo que era você agitando dentro de mim. A aceitação de você como é, com dúvidas, incertezas, medos e fugas, não foi tão difícil ao meu amor. E me surpreendi entrando em calmaria, tranqüila diante de tudo o que antes perturbava.

Quando conversamos da última vez, eu já nesse clima de aparente paz, tudo ficou muito claro. Falamos do nosso amor como nossa maior certeza. Você tentou lamentar e eu pedi que não lamentasse, eu não estou cobrando nada, não importa mais querer, nem mais esperar, nem mais sonhar. Esperanças e sonhos muitas vezes se confundem com ilusão e acabam produzindo sombras perturbadoras. A ansiedade acabou: não preciso mais esperar o telefone tocar ou seus passos chegando. Não preciso mais questionar seu comportamento, nem reclamar ou lamentar, nem ter ciúme ou qualquer sentimento de posse. Enfim, já não preciso mais procurar uma luz no fim do túnel, tenho a luz inteira no meu dentro. A mim só importa o meu amor e o essencial de você, que é seu amor por mim. A realização desse amor, está provado, independe da presença física, do companheirismo do dia-a-dia, do tocar, do sexo, das palavras, dos olhares, das juras repetidas. É um amor que gosta de tudo isso, mas prescinde de tudo para viver e continuar crescendo. Não é um amor platônico, o desejo existe e é muito forte. Mas é um desejo que só pode se satisfazer, em mim com seu corpo, em você com meu corpo. Somos livres para ver e querer e tomar outro corpo. Na alma, o amor que nutrimos.

Isso é LIBERRDADE! E a liberdade gera a PAZ!
Sal
Enviado por Sal em 22/10/2005
Código do texto: T62066
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Sobre a autora
Sal
Marília - São Paulo - Brasil, 78 anos
507 textos (44785 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 06:51)
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