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Ontem não te vi em Amesterdão

Meu caro,
Conheces a sensação de chegarmos a um sítio em que estivemos, quando eramos pequenos, e acharmos tudo desoladoramente minúsculo? Foi o que senti, ontem em Amesterdão, quando nos encontrámos. Não diria que continuas a ter 1,92m. Encolheste. Querias agradar-me, mostrares-te à vontade, fazermos o número de pessoas civilizadas que se separaram, mas continuam "amigas". Em boa verdade, nunca foste meu amigo. Nem sequer sei bem o que é que foste para mim. Eras encantador, lindo, alto, interessante. Gostavas de livros e de escrever, como eu, mas depois de estarmos juntos, a idéia de eu continuar a estudar, tal como tu, não te agradou. Sempre criticaste os meus trabalhos, embora ultimamente menos. Seria muito descaramento! Quanto a ti, posso dizer-te que amei o que escrevias porque te amava. Agora, que isso passou, vejo o que escreves e acho tudo - a tua escrita criativa, não a investigação - muito sem alma. Repetitivo, vazio, sem gente por detrás, sem vida, sem cor, sem beleza. Vejo apenas um amontoado de palavras. Assim são também as tuas cartas e e-mails. Frases retorcidas onde te escondes e que não provocam um mínimo de emoção. És, porém, muito bom a magoar. A criticar. Como detesto as tuas frases no imperativo: Tenta....! Faz...! Sê...! Tu sabes tudo. Rigorosamente tudo. Desconhecia, no entanto, esta tua nova faceta de indecisão. Não eras assim quando estávamos juntos. Eras decidido, dito e feito. Agora, não! Dás voltas, hesitas, recuas e fazes-te de vítima, quando eu perco a paciência e te digo: Basta!!
Vejo que continuas a fazer o teu número de grande sedutor. Verdade se diga, estás um belo homem de 56 anos. Mas começa a ser patético esse borboletear em volta das meninas. Estás em forma, mas vislumbrei um princípio de retenção de líquidos nas articulações. A idade!
Pronto, estivemos juntos na Holanda, (provavelmente pela última vez) rimos, alinhavámos umas frases, e despedimo-nos com alívio. Já não és o meu Frank, Franky, Frankenstein, Fran, Francisquinho. Franciscão. Em boa verdade, posso até dizer ao homem que tu foste e não serás jamais: ontem não te vi em Amesterdão.


Helena Santa Bárbara
Enviado por Helena Santa Bárbara em 30/09/2007
Reeditado em 01/03/2008
Código do texto: T674813

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Sobre a autora
Helena Santa Bárbara
Portugal, 47 anos
8 textos (579 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 20/10/17 10:59)
Helena Santa Bárbara