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Confissão e Defesa de uma Vilã Literária (Capitu)

  Estou, mais uma vez, hipnotizada pela capacidade que uma canção tem de prender uma mulher. Toca aqui, ao pé de ouvido, uma antiga música com tudo quanto imaginar belo, notas de piano, toques de saxofone e cantares de canção.
  Depois de tanto tempo, pelos cálculos lá se vão seis meses ou mais, a canção ainda me toca profundamente. Não se contendo com a mera comoção que me leva quase às lágrimas, penetra mais fundo, na alma, só para ter o gosto de despertar o que estivera recluso e inalcançável.
  Escrevendo estes dois parágrafos anteriores, ainda em vésperas de rascunhos e quando prosseguir com eles me pareceu absurdo, passei os olhos pela pauta e nesse simples gesto tive a resolução maior de transpô-los ao papel. Saíram-me da cabeça como borboletas funestas de um passado que eu faço questão de esquecer, mas, e todas elas, com a ânsia de contar ao mundo o legado das minhas derrotas. E como sou trágica em assim dizer, me lembrando até mesmo Machado de Assis no ‘gran finale’ de seu Brás Cubas.
  Já de pé ao lado da escrivaninha, pensei durante uns minutos, na verdade nem eu me recordo se pensei. Tanto acontecia comigo por aqueles dias que não me é estranho não lembrar. Um turbilhão angustiante, no qual via se mesclarem a minha raiva de tudo e de mim mesma com um sentimento novo, mas expansivo e, portanto, cheio de vontades e manhas, era a minha liberdade que acabava de entrar.
  As primeiras letras que lancei sobre a folha foram de galhofa. De alguma forma o inconsciente dá seus sinais e para o ser feminino é ainda mais fácil captar a mensagem. Tentei então mascarar o meu ato porque a criação e os modos de infância influenciam a sociedade e, sendo eu parte dela, natural que me afetasse também. Se não fosse, caso não houvesse o julgamento das pessoas, quem sabe não seríamos assim cínicos puritanos. Muito provavelmente ninguém acreditaria em Deus.
  Cansado leitor, antes que vire a página, me proponho ir às vias de fato. Vou me despir agora de toda a secura de sentimentos e rigidez de palavras que usei até então. Se as palavras te foram agradáveis ou a secura pareceu-te enfadonha, não sei. Certo que existem duas partes diferentes, dois ‘eus’ neste escrito e apenas um agradará ao leitor. Ou não.
  Vamos à narração dos fatos.

  Não sou jovem, nem aparento ter menos idade do que tenho. Também, apesar de ser mulher, não me preocupo com as rugas que aos poucos chegam. Limito-me a informar que os acontecimentos se passaram na flor dos meus vinte e sete anos.
  Por essa época, meu marido oscilava entre seus cabelos brancos, o escritório e nossa casa na antiga Glória, Rio de Janeiro. Vez ou outra me batem as saudades deste tempo, passado que não volta a ser presente tal qual a vida que não volta a habitar meu corpo morto de agora. Saudades sim, regresso jamais. Eram cansativos os meus dias e, sendo mulher, não havia chance de mudança ou reclamação.
  Há tanto sempre aquela paisagem da janela. Quando me casei, ela me parecera a mais bela entre todas que poderia ver na vida. Com o cair dos anos, já meus olhos e minha pele ansiavam ver e tocar outra imagem e outros ares, diferente textura.
  O fenômeno da mudança é inevitável e tangível aos sentidos e eu, Capitu, sentia cada vez mais um não sei quê se rebelar e mudar em mim. Não sabia se mudança boa ou ruim. O meu leitor poderá julgar a seu modo, baseando-se na moral de seu tempo e, se o leitor for digno, na crença de si próprio. Um verme, nada poderá ser mais apropriado, pois nada cresceria tão rapidamente e me consumiria o corpo de tal forma. A única diferença entre o verme e o outro está no fato de que o outro consome alma, em vez de corpos. Basta de mudança.
  Sem saber que nome dar, seguia com o cotidiano de sempre, ao passo que me pareceu cada dia mais distante a minha felicidade. As desventuras que vou contar levaram não só o meu marido e o lar que construímos, não se esquecendo de roubar também minha paz de espírito e minha crença em Deus.
  Claro que eu amava Bentinho, embora não fosse coisa tão clara quanto antes. O meu herói de infância que deveria me arrancar de Matacavalos e do fardo de ser filha de um funcionário municipal perdido na sua passividade, cumpriu deveras a sua missão. Na verdade, nunca me conformei com os fundos do quintal.
  E meu amor de infância se diluía nas diferenças entre mim e Bentinho e o que nos separava era bem mais que um simples muro. Havia um mundo em mim e este mundo queria entrar pelo buraco daquele muro e se alargar casa adentro e depois, quando tivesse medo, se enfiar quieto no fundo do coração de meu Bentinho. Eu, apesar de ser a Capitu vilã literária, não sou de todo podre como me julgam e eu amava acima de tudo o meu marido.
  A traição, confesso que foi cometida. E da única noite que passei no leito de Escobar me veio Ezequiel. Não foi por promiscuidade nem apenas por volúpia, no entanto, por um tanto de solidão.
 Umas vezes cheguei a pensar, em criança, que o casamento traria novos ares e que Bentinho supriria todas as faltas, enganei-me . Não tinha ambição insaciável e também não era inconformada. A solidão apenas existia, estava em mim e falava sozinha, pela boca, pelo corpo inteiro, mas principalmente pelos olhos. Olhos de cigana oblíqua e dissimulada.
  A dissimulação, usei como maneira de esconder os meus soluços de um marido que se tornava dia após dia mais recluso, que fugia da minha cumplicidade para escutar as negociações de Escobar. E fui dissimulada muitas e muitas vezes a meu favor, na cama, na mesa, no quarto, no retinto do talher. Nas reuniões de “amigos”. A dissimulação é uma marca de caráter.
  Perguntam-me se a Capitu da Glória já estava dentro da de Matacavalos? A resposta é sim. A dissimulação sempre esteve em mim e dela não me envergonho. O que a sociedade do meu tempo não consegue aceitar nem entender é que também sofre por solidão a mulher casada. Talvez, nunca entendam meus motivos nem assim espero.
  O que importa é que saio da sepultura dos livros para defender o meu nome e a minha honra que constantemente são ofendidos. Como a mulher firme que sempre fui e que ainda sou, reafirmo que todos podem não compreender minhas razões ou achá-las banalidades promíscuas, porém não admito a partir de hoje que me julguem sem conhecer a minha versão da história.
  Não estranharei nada que os homens me achem mentirosa ou vadia.
  Da vida que levei, não sei o que me fez mudar de opinião sobre casamento e companheirismo. Só sei, veementemente, que o meu parecia, mas não era espelho que ninguém se mirasse. As aparências enganam, enquanto só se vive delas.
  Retomando e deixando com que o leitor descanse os olhos, termino por dizer que os homens devem mesmo não entender as minhas razões. E espero, de verdade, que os que me lerão daqui a alguns bons anos pensem diferente.
  Há um motivo que enquadra quase todos os homens numa mesma classificação, onde são raríssimas as exceções.  Sabe o que é? Pois vos digo, citando um verso adaptado de autoria de uma íntima amiga, que crê haver dentro dela um tanto de mim, não importa o que ele fizer, nenhum homem sabe a amplitude da alma de uma mulher.
  Saudades eternas e que a minha fraca defesa desatine a doer na consciência de cada um dos leitores de Dom Casmurro. Que a consciência pese mais ainda naqueles que me condenaram sem, ao menos, me conhecer.
  Até qualquer dia, durante encontro breve nas páginas de Machado.
 
Capitu Inocente.
 
Géssica Ranieri
Enviado por Géssica Ranieri em 26/10/2007
Reeditado em 26/10/2007
Código do texto: T710825

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Sobre a autora
Géssica Ranieri
Santo Antônio de Pádua - Rio de Janeiro - Brasil, 27 anos
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Géssica Ranieri