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Lavras, 26 de outubro de 2007

Maria Paula.

             Ao ler sua quase-anônima  carta, senti imediata pulsão para respondê-la. Desde que, em agosto, resolvi experimentar o Recanto, tenho pensado a respeito. O que faz com que, sem mais nem menos, você encontre os seus afins entre milhares? O velho ditado cabe bem aqui, mas não explica o fenômeno nesse mundo virtual. Diga com quem anda e eu direi quem você é, a primeira vista, pelo menos para mim, é uma questão de cheiro.Mas o meu computador é inodoro.
 
           Eu também, como você, gosto muito de gente. Gosto de olhar as pessoas e imaginar o como elas vivem, o que sentem e pensam. Olho as casas com seus jardins e suas janelas abertas, as luzes que se acendem nos cômodos durante a noite, os carros que passam buscando destinos, as pessoas nas filas dos ônibus ou andando apressadas e sinto uma ternura imensa por tudo. Nas filas, salas de espera, elevadores, se não estiver lendo, estarei sempre tentando fazer contato visual. Acho que estou continuamente tentando calçar os sapatos do outro. Explico: uma vez, lendo uma história policial, ouvi pela primeira vez esse ditado, de origem árabe – “Para se compreender o outro é preciso calçar seus sapatos”. Nunca mais  o esqueci. Lembro-me até do título do conto – Os sapatos do morto. Tenho pensado nisso ultimamente por causa de meus contatos virtuais. Acho que lendo o que o outro escreve a gente vai se achegando a sua alma de mansinho, e se achegar a alma deve significar mais ou menos isso: calçar os sapatos do outro. E aqui, em um site de escrevinhadores, essa ligação nem sequer passa exatamente pela qualidade literária. Passa sim pela forma como a pessoa usa o site, pelos temas que lhe interessam, pela interação entre os sentimentos. É o ki. Palavra nova que eu não conhecia mas que achei expressiva. Kikugamaki. Você entra em minha casa e eu te recebo.Eu entro na sua e você ali hospeda a minha alma. Mesmo que seja virtualmente, que diferença faz? A alma não é virtual, é real e são elas que se encontram. Quando comecei a escrever e a ler nesse Recanto (eu, que adoro o contato com os livros através do papel, nunca imaginei que fosse gostar de “ler” por uma tela de computador) não sabia o que fazer para encontrar as pessoas. certas com quem interagir.Comecei escolhendo os títulos instigantes e inusitados, os autores cujos nomes me diziam alguma coisa. Mas foram  os retornos aos meus comentários que me fizeram voltar. Acho que tenho um bom instinto virtual. Foram poucos os que eu não quis que se agregassem ao meu mundo. Hoje, leio quase tudo o que escrevem. Procuro por eles. Procuro por você.
 
            Algumas pessoas têm preconceito em relação aos contatos virtuais. Imaginam que só os desocupados e desajustados estabelecem esse tipo de relacionamento. Eu não sou desocupada, nem desajustada. Estou sempre com meus amigos cheirosos. Tenho uma grande família grande e me interesso por tantas coisas na vida que meus dedos dos pés e das mãos juntos, são insuficientes para contar. Para fazer isso eu precisaria de muitos grãos de areia, mas a areia escapa entre os dedos, então nem tento. Pelo que tenho observado você também é assim. E os outros que estão por aqui e transformei em amigos.Gente que apenas encontrou mais uma forma nova para se relacionar. Para se renovar. Rio e choro com vocês. É um mundo novo este em que vivemos. Novo, porque está em constante transformação. Embora estejamos sempre buscando a própria individualidade através do auto-conhecimento, esta individualidade também está sempre em transformação. Não temos o direito de nos cristalizarmos. A evolução constante é que nos faz melhores e cada vez mais perto daquilo que conta realmente. Não podemos simplesmente dizer: eu sou assim e está acabado. Nunca sou, sempre estou sendo. Conhecer gente certamente faz com que eu seja melhor. Mesmo virtualmente. E, mesmo virtualmente é espantoso como conseguimos nos unir aos nossos pares.

             Em um plano mais pessoal, eu gostaria muito de ler o que sua filha escreve. Ainda não sei quem é. Peça a ela que se manifeste.
Criada a sombra de quem foi, deve ser uma adolescente especial.

                     Estou saindo agora, só voltarei amanhã. Vou para o mundo material, encontrar pessoas tão maravilhosas como  as que eu encontro aqui. Tenha uma boa noite você e todos que lerem esta carta quase particular.


                     Um beijo virtual, mas não menos real

                                                                  Maria Olimpia
                
Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 26/10/2007
Código do texto: T711204

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Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
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