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Ao Amigo Distante 2.

Porto de Lima, outro dia de Novembro em algum ano da era cristã.

Caro amigo,

Fico feliz que estejas bem e teu comércio esteja prosperando, seu filho está um belo rapaz na foto em que me mandaste, está igualzinho a ti, só falta ser mulherengo e seresteiro. Fico feliz que tua esposa também esteja bem, diga a ela que a mando desculpas por não ter me lembrado dela e que tenho por ela um carinho especial, sem nenhuma ofensa a ti, é claro. O vento gelado faz as oliveiras que plantastes tremerem, o inverno está chegando e com ele trazendo aqueles resfriados e friagens que detesto, o clima é meu pior inimigo, sabes disso. Mas vamos às boas e péssimas novas.

Tu, que me conheces a um bom tempo, sabes que sei guardar segredos de todos menos os meus. Sabes que preciso sempre desabafar e, mesmo te mandando essas cartas, não parece que alguém me ouve, não quero te dizer que não há sentido em mandá-las, mas mesmo assim uma profunda solidão me toma conta e preciso falar, preciso externar o que sinto ou parece que vou explodir. Não vais acreditar muito no que direi, mas deixe-me contá-lo o que aconteceu.

Estava conversando com minha amada na grande praça aqui em frente, falávamos sobre família, emprego, amigos e inimigos, enfim, sobre a vida de cada. Como lhe disse na minha última carta, somos confidentes um do outro, melhores amigos na verdade. E, durante a nossa conversa, segurou-me a mão e disse que não saberia o que fazer se não fossem a minha ajuda, minhas palavras, meus conselhos. Durante muitas vezes ela me falou dos seus antigos e atuais amores, das pessoas que se declaram a ela abertamente, as pessoas que podem dar a vida confortável que deseja. É com muita dor que a ouço e, mesmo sendo um completo idiota por fazer isso, dou a ela conselhos do que deve ou não fazer em relação a isso, mal sabe que eu também a amo. Meu maior medo é de saturá-la. Ela já tem muitos problemas com as pessoas que dizem que a amam, acho que se soubesse que também sinto o mesmo em relação a ela, provavelmente iria ficar ensandecida, seria mais uma pedra no sapato que teria de aturar. Mas aí vem uma boa nova e péssima nova.

A boa nova é que descobri que estava errado o tempo todo, mas adivinhe amigo, como tive essa certeza. Essa é a péssima nova. Eu e essa minha boca solta... Contei a ela tudo que sentia. Se soubesses o número de palavras de baixo calão que passaram pela minha cabeça... As mais brandas foram ‘imbecil’, ‘estúpido’, ‘animal’, ‘idiota’... O arrependimento atravessou como uma flecha no meu peito, rasgou as minhas entranhas e acertou em cheio meu coração. Mas foi como uma pedra saindo da minha garganta. O alívio que veio foi tão bom que suspirei forte depois.

Após ela me dizer que não saberia o que faria se não fossem minhas palavras e conselhos ela disse que não viveria sem minha amizade, que eu era seu melhor amigo.

Foi nesse momento que soltei o derradeiro “pena que seja só isso”.

Já dizia o provérbio que ‘a curiosidade matou o gato’, mas as mulheres têm isso como arma. Não existe nada meu amigo, nada, que possa detê-las quando estão curiosas. Elas querem saber de tudo, não deixam uma simples frase passar e é dessa maneira que elas conseguem realizar seus maiores anseios pessoais. E foi assim que ela conseguiu arrancar tudo de mim. Disse-lhe tudo, todas as minhas artimanhas para ficar junto dela e poder vê-la sempre, que não há momento em que não pense nela, que não há dia que não chore um pouco pensando nela. Mas o medo era maior.

Medo de tudo aquilo que construí, toda a nossa amizade, todas as nossas confidências se perdessem ali. Medo de que ela nunca mais me olhasse na cara, nunca mais tivéssemos as nossas conversas habituais. Mas sabe o que ela fez amigo? Vais te surpreender: colocou a mão no meu rosto e disse: ‘Não temas bom amigo, sabes que nunca perderia minha amizade contigo’. Mas aí perguntas: e qual foi a resposta dela quanto a tua declaração? Como bem sabes, ela vem passando por problemas pessoais difíceis, muitas pessoas de péssimo caráter estão conspirando contra ela. Ela não pensa em ter uma relação forte com alguém por enquanto, isso me dá esperanças quanto aos ‘concorrentes’, mas ao mesmo tempo me pressiona, não sei ao certo bem porque, mas me sinto em uma corrida prestes a dar a largada. Ela não quer me dar falsas esperanças, mas a frase que me marcou nessa conversa foi: ‘Porque um dia eu não poderia me apaixonar por ti?’.

É meu amigo, a vida parece abrir um pequeno sorriso para mim agora. Sinto-me com mais vontade de viver, de ignorar a velhice se aproximando e continuar a batalhar pelo que quero, pelo que gosto. Sinto-me na obrigação de ir até o fim dessa paixão. Seja lá que caminhos irá tomar, seja lá por aonde ela vai me levar, mas estou disposto a seguir cegamente, sem nenhum receio. Não me preocupo em me machucar, cicatrizes são o não faltam nesse coração.

Aqui me despeço, lembre-se que vou te atormentar com essas cartas, mas sei que sempre lês. Escreva sempre, mande um abraço para sua mulher e seu filho, dê um jeito na vida desse moleque, ele que vá ser doutor ou advogado, diferente do vagabundo do pai. Que nossas brincadeiras sempre permaneçam do mesmo jeito!

Um abraço amigo velho,
Fique bem!
Eduardo Porto
Enviado por Eduardo Porto em 03/11/2007
Reeditado em 04/11/2007
Código do texto: T722427

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Sobre o autor
Eduardo Porto
Fortaleza - Ceará - Brasil, 27 anos
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Eduardo Porto