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CARTA DE AMOR

     

       Ao revirar pertences antigos, deparei-me com uma carta do meu avô materno. Uma carta, que posso dizer que é uma poesia lindíssima! Literatura pura! Repleta de um real sentimento, de dores, mágoas, saudades... Sentidas e expressadas devido ao desencarne de sua companheira de vida (minha avó).
       Então, como não podemos guardar as belas obras somente para nós... Transcrevi conforme foi escrita há 69 anos!! Divido com todos os meus amigos, uma carta de amor! De um amor sofrido... De um amor verdadeiro!
       Meu avô... Ah!  Meu avô era um poeta!!




                                      Paracatu, 10 de Dezembro de 1938.


Quatro círios acessos: eis a vida.

Alda,

       Custa-me crer na tua morte.
       Vejo-te viva, lembrando o cortejo fúnebre que te levou deste mundo, quando abertas se olhavam ainda as portas largas por onde entraste triunfante para a vida. Vida que se multiplicou em outras vidas.
       Morte que importou na morte de muitos corações vivos. Morta, sabes que lágrimas vertiam os teus ante o teu corpo inanimado? Lágrimas... Vindas do oceano d’alma, imenso e fundo... Custo a crer que mães sejam mortais... Com que animação abençoaste, na tua hora extrema, os teus cinco filhinhos e estendeste a mão indecisa e trêmula ao teu esposo, meu eterno adeus?
       E que bênçãos que abençoam são as últimas bênçãos das mães. E que adeuses longos, são os últimos adeuses: começam no mundo para terminar na eternidade! – Lá do céu velarei por ti... Certamente esta palavra referente aos teus filhinhos ao sumirem-se eles um a um dos teus lânguidos olhos que se fechavam ao mundo.
       E o teu dedicado companheiro de lutas, como não estaria o seu coração ao contemplar-te sem vida, tu que foste à razão de ser da sua vida? Na pujança da tua mocidade vigorosa, quanta vez sorriste com ele a lembrança feliz de quando se ajoelharam venturosos aos pés do altar!
       Hoje, na sua velhice moça, ele chora à realidade dura de ver-te partir do mundo, de ler em si mesmo o epílogo de um romance inacabado. Quando duas alianças são juntadas ao mesmo dedo, é porque duas vidas se acabaram: a primeira, pelo deixar de ser; a segunda, pelo deixar de ser da primeira.


                                                 Sebastião da Silva Neiva - Tanico



Scheilla Porto
Enviado por Scheilla Porto em 05/11/2007
Reeditado em 05/11/2007
Código do texto: T724402

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Sobre a autora
Scheilla Porto
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 41 anos
46 textos (7586 leituras)
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Scheilla Porto