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Dois irmões]]

O menino de dois anos de idade, subitamente largado no canto sossegado da sala, brincava enfeitiçado pelo brinquedo novo que, do alto da estante pulou em seus braços pelas mãos do irmão mais velho. Este sempre o levava para novas estripulias e traquinagens e o acobertava com uma piscadinha e um sorriso maroto lançado para as primas e amiguinhas da casa. O garoto, muito grato, olhou admirado para o irmão malhado e partiu na conquista da recém-chegada. Embabascado, suas mãos apertavam tudo o que tocavam e seus dedos corriam soltos a futricar a máquina fotográfica.
            Na festinha de música animada, as meninas corriam das lagartixas ao perseguirem os rapazes, enquanto suas mães debatiam numa roda de comadres os seus votos de castidade. O bigode do tio chato era delicadamente limpo com o guardanapo enquanto seus olhos preocupados atestavam ninguém tê-lo visto de chantily lambuzado.
            A mãe sorria aos convidados e empilhava os presentes desembrulhados enquanto o pai servia mais cerveja e brindava o aniversario de seu filho adorado, o primogênito imaculado. De repente, todas as atenções foram paralisadas pelo caçula no canto largado, totalmente concentrado. Surdo, mudo e isolado, na ânsia de ver o botão disparado, foi surpreendido por um estralo clássico acompanhado de uma luz fantástica.
            Click! O gemido da máquina agradecia com um sorriso iluminado o brilho dos olhos daquele que a conquistara com um inocente olhar sedutor de don juan de dois anos de idade.
            Mas a máquina, que nada deixava escapar, na hora H, de gozar a fotografia, piscou para o irmão do fotógrafo e precisou o momento exato em que seus pés saltavam do parapeito da sacada jogada intencionalmente para trás.
            Um grito desesperado foi abafado. A mãe exasperada deixou os presentes caírem no chão e, em um surto louco pelo filho, foi bruscamente segurada pelo marido. Os copos que cantavam como cacos no chão se calaram e os talheres se largaram nas bordas dos pratos. O dedo do moleque soltou o botão apertado e o breve silêncio demorado foi quebrado. O fato estava registrado e a mãe se soltou correndo em busca de seu bem amado.
            Ao se debruçar na janela teve a certeza que se jogaria do alto do penhasco para resgatar seu filho no ar. Criaria asas ou morreria acidentada, só não seria internada. Ao desabafar em um suspiro desesperado a angustia de ver por um fio a vida que havia gerado, viu se levantar sobre um emaranhado de arbustos entrelaçados, com a capa vermelha toda rasgada e os joelhos machucados, seu filho correndo para seus braços, chorando com o coração despedaçado. Arrancou a capa e disse que era um herói de verdade e não uma fantasia mal contada. Os convidados puseram-se a rir do aniversariante emburrado, ludibriado pelo desenho animado.
            Anos depois o super-menino já era homem de músculos encorpados, tendo salvado dezenas de donzelas e auxiliado várias velhinhas com suas sacolas vindas do mercado. Um belo dia, assistindo TV com a namorada, o super-herói recebeu do correio um pacote muito bem embrulhado, devidamente endereçado. Ao abrir a caixa de presente um álbum de família foi encontrado e no verso do retrato o amor do irmão mais novo estava declarado: Lembra do dia em que você descobriu à duras penas ser um herói de verdade?  Me ensinou que a vida é um real desenho animado e que, o segredo para voar de fato é vestir a capa, subir no parapeito e, sem pensar, estralar o click da máquina! Ao infinito e além!! Foi o que você gritou instantes antes de voltar chorando para secar as lágrimas de nossa mãe, sempre pálida com os sustos que você pregava.
Te amo! meu brother, e, à propósito, amanhã serei premiado no festival nacional de fotografia, muito obrigado!
 
Stéphanie Winck
Stéphanie
Enviado por Stéphanie em 09/11/2007
Código do texto: T730344
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Sobre a autora
Stéphanie
Uberlândia - Minas Gerais - Brasil, 28 anos
8 textos (302 leituras)
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Stéphanie