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CARTA DE FIM DE ANO

                                                Para Eny, de vestido branco.

Nítidos no meu passado, há a bola de futebol número 4, a bicicleta inglesa, a loja de material esportivo da Barão de Bom Retiro e a série de injeções de glicose na veia.
É melhor lembrar agora, antes de entrar no mês da correria, o mês do Papai Noel em que todos vão às compras; nada é definitivo, porque começa com um prato de jiló com arroz e antes aconteceram muitas coisas.
Meu pai e minha mãe, se foram; há a profissão que segui e me dediquei com paixão; um trem que passa com carga completa. Há os filhos, os netos e uma estrada mágica a percorrer; o corpo diz não, o espírito diz que tenho que ir.
Estão vivos: o Maracanã de 50, a Copa e o gol do Ghiggia que me persegue em sonhos; a briga no largo da Morais e Silva, em que tinha tudo para bater e apanhei feio.
-- Engraçado, você é magro mas tem pernas grossas.
-- É porque jogo futebol -- respondi sem jeito pra dona da quitanda.
Há sexo pago mais pra frente e um amor não retribuído, que estagnou os melhores anos da minha vida.
 Lembro dos meus 8 anos e da minha avó que fazia bife com osso; uma forma de carinho.
Tenho o Souzinha nas minhas lembranças, coveiro do cemitério do Caju; ele deu uma surra no motorista de ônibus, que arranhou o carro do meu tio e disse que não ia pagar.
Minha homenagem ao policial que sai de casa pra trabalhar e não sabe se volta.
Vejo crianças que vão para a escola com a mochila cheia de livros e cadernos, mas não ensinam à elas a verdade da vida.
O Sputnik foi lançado, o homem foi à Lua, a Laika morreu.
Há champanhe pra nós enquanto milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza; me angustio e o máximo que faço é ir aos Correios selecionar algumas cartinhas para o Papai Noel. Sempre pedem uma muda de roupa e um carrinho ou boneca.
--Papai Noel, me dá a Moranguinho que tem cheiro de morango e minha mãe não pode comprar?
Leio a carta e meu choro sai aos trancos, o coração está frágil. Novamente o prato de jiló: foi em 45, minha mãe me olhando.
Um dia, meu avô soltou o pintassilgo do vizinho. Detestava gaiolas, amava a liberdade e todas as mulheres.
Numa fase houve o Lexotan. Agora, o "stent" na coronária.
Olho o Tempra antes de sair, nunca me "deixou na mão".
Vida que segue. Onde você está?
O mendigo na cadeira de rodas me olha e abaixo o vidro do carro:
-- Prometo que amanhã, trago um saco cheio de moedas.
-- Tem de um real ?
-- Muitas, muitas mesmo.
Perambulo pelas ruas. Observo. Tenho que trocar os óculos.

Há a lembrança nostálgica de você, Eny, que ficou anos e anos no fundo da fotografia e não percebi.

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OBSERVAÇÃO: este texto está registrado na Biblioteca Nacional.
Elysio Lugarinho Netto
Enviado por Elysio Lugarinho Netto em 27/11/2007
Reeditado em 06/07/2008
Código do texto: T754649

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Sobre o autor
Elysio Lugarinho Netto
Teresópolis - Rio de Janeiro - Brasil, 79 anos
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Elysio Lugarinho Netto