Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
Cartas da Minha Cozinha (1)

Lavras, 03 de dezembro de 2007


Vera,

        Gostei de você ter gostado do meu almoço de domingo.  Sempre acha que eu invento demais, diz que não gosta de comida complicada. Se me pediu a receita é porque realmente gostou e então estou mandando. Mas preciso explicar, não é " a receita daquele arroz", é  a receita de um risoto, coisa fina, vinda de longe. Prato típico da Itália (risotto), sua origem é do século XVI, criado por acaso em uma festa de casamento, pelo pai da noiva, Valério de Fiandra, autor dos vitrais da Catedral de Milão. Dizem as más línguas que ele queria estragar a festa de casamento da filha e enchendo a mão de açafrão, jogou na panela onde se cozinhava o arroz (risi).Quem preparava o banquete de casamento era a família do noivo e dizem que ele estava enciumado.  Mas o tiro saiu pela culatra, o prato foi um verdadeiro sucesso e surgia assim o risoto a milanesa, um dos mais tradicionais da história da alimentação ocidental. E daí por diante, cada cozinheiro foi inventando o seu risoto, inclusive eu, já que o prato que você comeu eu bolei na hora, com o que achei na geladeira. Algumas receitas porém são tradicionais e têm muitos anos de fogão. Os principais tipos são: Risoto a Parmigiana (só com o queijo, é claro, parmesão); a Milanesa (com açafrão), que é o mais tradicional e o Primavera, que se utiliza das verduras e legumes da estação. Um dia desses até vi uma receita com manga, que vou preparar quando o Lucas vier almoçar aqui em casa. Ele costuma dizer lá no Cantinho dos Marildos que eu sou boa cozinheira, mas que só sei cozinhar com manga. Sendo assim, não vou desmentí-lo.
    
     Antes de passar a receita que fiz, vou lhe dar algumas dicas para se fazer um bom risoto. Não pense que pode usar qualquer arroz e encharcá-lo com creme de leite. Não. O arroz para risoto tem que ser especial. Existem vários tipos mas acredito que aqui você deve encontrar apenas dois. O arbóreo e o carnaroli. O carnaroli é o melhor porque libera mais amido (amilopectina). e, pelo amor de Deus, nada de lavar o arroz, como sua mãe ensinou.Nem ela faz mais isso. Cozinhe-o assim como o comprou. Sempre compro no Empório, aquela lojinha charmosa lá perto da Câmara. Ou do Velório, como você preferir localizá-la. Nos Super-mercados você não vai achar, principalmente depois que todos viraram um, monopolizando esse tipo de comércio. 

           O que é preciso para fazer um bom risoto além do arroz? Há várias opções. Por exemplo: o arroz pode ser refogado no óleo, no azeite (o meu preferido) ou na manteiga. Se preferir a manteiga, reserve um pouco para misturar na panela quando já estiver no ponto de desligá-la. Mas antes de colocar o arroz na panela, coloque cebola picadinha (alho é opcional, pimenta do reino também) deixe que frite só até amolecer. Então coloque o arroz e, mexa bem.Quando você achar que está bom coloque o primeiro líquido: vinho.Branco, de preferência, mas se quiser, use o tinto.Não vai acontecer nada, só mudar a cor do arroz.  Vá mexendo, até que evapore quase todo. E aí, vá colocando água (ou um caldo) fervente aos poucos. A medida que for secando, vá colocando mais, sempre mexendo. Quando estiver no ponto, desligue a panela e coloque por cima o queijo ralado e cheiro verde, dando a última misturada. Aí é só servir, comer e repetir. Acompanhado de um bom vinho. 

        Bem agora vamos a minha receita. Decidida pela manhã e feita de acordo com o que tinha na geladeira:
         Fiz com óleo. Fritei a cebola e logo depois coloquei fatias bem pequenas de linguiça. Quando achei que estavam no ponto, refoguei o arroz e ao fazer isso coloquei também o Sazón (eu estava fazendo com amor) e o açafrão em pó. O primeiro líquido? Vinho do Porto, é o que estava aberto. Quando o vinho secou, tomates picados já temperados que haviam sobrado de uma salada e cenoura ralada crua. Também era sobra. A partir daí, fui colocando água fervente.O tempero,experimentamos juntas, se lembra? Você achou que estava faltando sal, coloquei mais então. Mas não estava, ficou um pouco salgado, eu achei. Aí, desligando a panela, coloquei queijo ralado ( mineiro) e misturei delicadamente. Coloquei mais queijo ralado na superfície meio que misturado, meio que não. E enfeitei com salsinha. Ficou realmente gostoso. Mas lembre-se o risoto deve ficar empapado, mas os grãos, "al dente". E ele estará pronto quando os grãos tiverem dobrado de tamanho e estiverem envolvidos pela substância cremosa que é produzida pelo próprio arroz.      

             Satisfeita? Mas acredite, cada risoto é único. Terá um sabor próprio, inigualável. Quanto mais fome tivermos, mais ele será apreciado. E não deixe sobrar.Requentado não é a mesma coisa. É um prato muito bom para ser feito quando estamos com preguiça ou quando chega visita de última hora, ou quando estivermos com muita fome e o tempo for curto. Mas, também é um prato para ser servido em ocasiões especiais. Um manjar dos deuses. Embora os manjares sejam doces.

          Espero ter sido clara nas informaçõs;
                          
                             Com Sazon,
                                              sua irmã
                                                     Maria Olímpia. 
      

Maria Olimpia Alves de Melo
Enviado por Maria Olimpia Alves de Melo em 03/12/2007
Reeditado em 14/05/2012
Código do texto: T763778

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Cite o nome do autor e o link para http://marilim.net). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Maria Olimpia Alves de Melo
Lavras - Minas Gerais - Brasil
1107 textos (324206 leituras)
1 e-livros (258 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 23/10/17 15:29)
Maria Olimpia Alves de Melo