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LUAR - RAUL (à Naza)

À Poetisa
Naza Breeman

Pediste-me ontem, fizesse eu um texto, dentro dum contexto, com palavras que falassem, e assim numa ponte desde as nossas queixas, da presença da ausência de nosso amado Seixas.
Pois bem, com esse pensamento, cochilei um pouco tempo, num espaço que me sobrou, e foi justamente num sonho que ele me falou.
Sonho que te conto agora, antes que se perca da memória.
Estava eu sentado, à beira-mar, num banquinho improvisado, sob o luar, ali encantado, ouvindo a minha menina cantar e eis que, surgido, vindo das águas, sob a bênção iluminada de Yemanjah, naquela clarividência, apareceu o Raul, vestido de mortáguas, com um lenço de Oxalah.
Minha menina e eu, paramos de se amar, justo quando eu a ela dizia "tu és o grande amor da minha vida, pois você é minha querida". Ele se aproximou, olhou o violão meu, começou a falar, perguntou se lembramos de seus apelos e reviveu-os em alguns conselhos.
Aqui, poetisa Naza, transcrevo o que disse ele, num diálogo, não num decálogo, de forma o mais concisa, rasa, a maioria das palavras dele.
Disse para não deixar a peteca cair e que em vez de resmungar, é preciso agir. Que as pessoas, ruins ou boas, muito se enganam, lembrando que na velha Bahia, quando dançava e se contorcia, as pessoas pensavam que estava tendo um ataque de epilepsia.
Lembrou, também, que sempre há alternativa na vida (se eu quero e você quer, recordas?) e que todo homem e toda mulher é uma estrela, que se revela.
Falei a ele que eu, do meu lado aprendendo a ser louco, entendia um pouco daquele liceu e, minha menina completou que se alguém pergunta aonde eu quero chegar, repito que até a gaivota que voa já tem seu caminho no ar.
Ele disse, então, com emoção, que isso é sabedoria dos que sabem do Trem, que não precisa passagem, nem mesmo bagagem, nessa viagem.
Seguiu essa frase, na mesma base, olhando pra mim e minha amada, que assim, nessa toada, se vê, é o sinal de um romance astral.
Gostando da parceria, perguntei-lhe se queria, sob aquele luar, conosco caminhar, mas respondeu, no modo seu, firmando para ficar, porque quem pensa, pensa melhor parado.
Disse que eu devia estar contente, como a vela que acende, abençoado, pela mãe serpente, quando nos viu, percebeu, uma dança bem diferente.
Afirmei que esse relacionamento, vê se me entende, nasceu dum intento que louvo, porque aprendi a começar tudo de novo e, a seguir, que o que eu quero eu vou conseguir. Porque, continuei a falar, eu que não me sento num trono de um apartamento, esperando a morte chegar.
Disse ele perguntando, se eu escrevia, sobre o que estava falando, porque deveria, antes de ler o livro que o guru deu, teria que escrever o meu.
Respondi que sim, e, assim, que sabia que cada um nasceu com a sua voz, pra dizer, pra falar, de forma diferente, o que tudo sente.
Novamente, ele foi falando, com aquela voz que canta, que dança, que gira, bailando no ar, que o caminho do risco é o sucesso, com muqueca de esperança, na força da imaginação e, com paixão e confiança, continuou e falou que essa estrada é comprida e não tem saída.
Eu, entusiasmado, falei do meu estado e que eu perdi o meu medo da chuva, pois, no meu aprendizado, entendi que a chuva voltando pra terra traz coisas do ar, vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar.
Continuou ele, a frase, e disse que a chuva é minha amiga, que a serpente está na terra, o problema é a guerra, que pouca gente liga, pois todo dia aparece o mal, destacado no sangue no jornal e que é na força da imaginação que se tenta uma transmutação.
No prosseguimento, daquele entendimento, veja aí poetisa, sentindo uma brisa, disse a ele que prefiro ser, do que ter, e isso é o que quero dizer, num agradecer, por aquele ensinamento.
Aí, ele foi se afastando, sob aquele luar, caminhando de volta pro mar e gritou: "lembre a todos... os donos do mundo piraram, a arapuca está armada". Fez uma pausa e prosseguiu, o que foi bom, no mesmo tom: "buliram muito com o planeta... procura sempre ser como um alerta, indo em frente, sem deixar a mente fosca". E, me lembro, falou de ser exemplo, mas não entendi direito, pelo jeito, e perguntei: "Quem?" e ele respondeu: "A mosca meu irmão!". E nada mais eu disse, pois seria tolice.
Ele foi sumindo detrás das montanhas azuis, e lembrei que o sol da noite agora está nascendo, em cada dia ou em qualquer lugar.
Assim que acordei, aqui nesse texto lembrei, o que possa parecer espanto, esse feliz encontro, e espero ter tudo lembrado, aqui registrado, para não cometer injustiça, ao te remeter essa notícia.
Por outro lado, agora recordado, ao final do sonho, sem engano, saimos eu e a menina de lá, fomos pra uma casa, parece que alugada, sei lá, subi no muro do quintal e disse pra ela "vem cá mulher, deixa de manha, minha cobra quer comer sua aranha". Acho que foi isso mesmo.
O resto não digo mais, é segredo, são íntimos cenários, mas espero que este escrito, naquilo que foi dito, seja de teu agrado...
Até logo mais, espero que leias cedo, pois aguardo teus comentários.
Abraços
Joseph Shafan



NA: Interressante notar aqui que as frases, as expressões de Raul Seixas, mesmo embaralhadas, continuam a fazer sentido, para pensar sempre.
Joseph Shafan
Enviado por Joseph Shafan em 08/12/2005
Reeditado em 08/12/2005
Código do texto: T82396
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Joseph Shafan
São Sebastião - São Paulo - Brasil, 63 anos
773 textos (98821 leituras)
25 e-livros (10469 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 10:05)
Joseph Shafan