A SEPARAÇÃO

Maria casou-se ao completar 16 anos. O namoro foi tranqüilo e não eram permitidos maiores intimidades.

José e Maria preferiram viver cada fase do relacionamento com as alegrias daqueles momentos, sem anteciparem nada antes do casamento.

Com o casamento, vieram dois filhos. Marilha e Jorge. E viviam em paz , harmonia, com muita alegria e amor. Até o dia que José passou a apresentar-se bastante modificado. Antes extrovertido, fechou-se em si mesmo, outrora calmo, agora encolezirava-se facilmente com tudo, com todos arredio, ensimesmava-se, sem nada falar.

Maria tudo fazia para restituir o brilho do olhar do esposo, sua alegria de viver. Porém, Jose alegava estar cansado de tanto trabalhar. Costumava dizer que trabalhava para trazer o conforto para a esposa e para os filhos, e que não ficava passeando.

E a vida continuou, até que um dia Maria resolveu ir até a empresa da família sem avisar o marido, queria fazer uma surpresa e convidá-lo para jantar e irem dançar mais tarde. Faria mais uma tentativa para salvar seu casamento de mais de trinta anos.

E qual não foi à surpresa, quando, adentrando no escritório, surpreendeu com uma cena chocante. José estava com outra pessoa em comportamento que não permitia dúvidas.

Descontrolada foi embora, pois descobriu que passados mais de trinta anos fora trocada pela funcionária, a qual se dizia sua amiga e freqüentava sua casa, pois nos final de semana para ganhar um pouco mais, pois era mãe solteira, fazia faxina na casa do casal. Maria sempre ajudo-a por saber da dificuldade que aquela pobre moça passava, tendo que criar sua filha sozinha.

Até hoje José não aprendeu a conjugar o verbo amar, como nosso Pai Maior nos ensinou. Passou a viver com a nova família, esquecendo que um dia teve esposa, filhos, netos e bisnetos. Ele sempre afirmava que era muito feliz com sua nova família, esposa e filha, a qual ele assumiu como pai, e deu todo o conforto, o qual nunca dera para sua família.

Quando seus filhos o procuravam e perguntavam por que ele não telefonava e não aparecia, costumava falar aquele ditado antigo, que hoje não se usa mais, pois tudo mudou, “ainda sou do tempo que a carreta vai à frente dos bois”, querendo dizer que era os filhos que deveriam procurar.

Mas quando os filhos ou netos o procuravam sempre tinha palavras de rancor, humilhava com toda sua ira, espezinhava e ofendia. E no final da visita sempre falava, somente fiquei com a Maria por causa de vocês, quem seria vocês hoje se não fosse a minha fortuna. Hoje vocês têm pai rico, amanhã vocês serão filhos pobres. Eu a amava, mas o tempo desgastou a relação. Mas ele esqueceu que quando existe amor tudo se faz para não magoar a sua família e a todos.

E hoje José vive com sua nova família dizendo-se feliz e bem de vida, pois o que importa para ele são os bens materiais e sua nova vida, que não permite a convivência da velha família, aquela se foi ficou no passado. Tendo uma índole violenta, procura justificar de muitas maneiras a sua conduta, e afirma estar agindo em conformidade com seus direitos. “Aqui mando eu, o dinheiro é meu e faço o que bem entender, e vocês vão morrer pobres, pois vou viver até os 104 anos”. Então enterro vocês todos.

José esqueceu de seguir a recomendação de Cristo: “fazer a outrem o que desejamos que outrem nos faça”.

Este José era um herói para os filhos, e hoje ele é visto aos olhos dos filhos como um pobre coitado. Os sonhos daquelas crianças já foram, e dele sequer respeito tem, pois ele não se dá o respeito a si próprio.

Os bens materiais ficaram na retaguarda carnal. A riqueza é uma provação muito difícil, pois estimula o egoísmo, a ambição, o orgulho e todo o tipo de excesso.

José que detém um grande patrimônio fica no dever de administrar esses bens em benefício da coletividade. Assim como o intelectual não pode guardar para si os frutos do seu conhecimento, devendo antes distribuí-los a mancheias a seus irmãos em Humanidade.

Nada nos pertence, somente temos a posse dos bens que aqui na terra temos, o proprietário é Deus. E quando retornarmos a Pátria Espiritual nossos bens aqui na terra vão ficar. No mundo espiritual somos avaliados por nossas virtudes que tenhamos amealhado durante a travessia carnal.

A nossa felicidade somente será possível na medida em que “não fizeres a infelicidade de ninguém, e fizeres a felicidade de alguém”.

E este caminho José não quer saber, vive o seu mundo com sua nova família, e se diz feliz, pois a velha família não serve para nada. Ele é o dono da razão e tudo que fala quer que seja lei. José teve pouco estudo, mas sempre diz que o mundo lhe ensinou de tudo um pouco, então ele é médico, veterinário, advogado, entre tantas outras profissões. Ele sabe tudo, mas nunca aprendeu o que deveria aprender, amar seus familiares como a si próprio.

(Graciela da Cunha)

Santa Maria/RS - 10/08/08