SERÁ QUE ELA TOPOU?

SERÁ QUE ELA TOPOU?

Era uma tarefa difícil, dantesca, até. Apesar de conhecer, ou melhor, achar que conhecia, pois convivera com a moça por diversos anos, quase desde gurizinho, Tschê Guri nada sabia dos hábitos dessa prenda. Fazia alguns meses que os vizinhos não moravam mais ali. Seu pai, o Castelhano, como era conhecido, vendeu as terras e foi morar na cidade. Era rico e estava agora trabalhando no ramo do comércio. Ele era filho de espanhóis e por isso o apelido “castelhano”. A prenda Katty Guria tinha duas irmãs. Uma chamava-se Yulia e a outra era a “La Bandolera”. Com a Yulia ele nunca tinha falado e, esta última, nem era bom a gente se meter com ela. Conseguira este nome na boca do povo porque era brigona, quese bigoduda, principalmente, quando se tratava de defender sua própria família. Dizia cobras e lagartos e, se duvidasse, insinuava todos os outros bichinhos peçonhentos da redondeza. Era bom mesmo deixar a brabinha de lado e concentrar-se naquilo que tinha por fazer. Ia matar dois coelhinhos numa paulada só. Talvez até três, se tivesse sorte. Coitadas das coelhinhas que iam ficar sem seus coelhinhos! Mas tudo tinha que ser feito com calma, muita calma. Não podia afobar-se. Tinha que, em primeiro lugar, conseguir abrir a boca para dizer as palavrinhas tão lindas que se referiam ao pedido de perdão. Ele nem sabia como fazer isso, mas, uma vez teria que ser a primeira. O jeito era não ter medo... acalmar-se e não gaguejar.
Foi para a sanga que corria logo na entrada do mato e tomou um banho. Voltou para casa, vestiu roupa limpa, esparamou água de chiro pelo corpo e foi para a cidade, montando o cavalo que seu pai lhe dera. Enquanto troteava pachorrentamente pela estrada, em seus pensamentos procurava eliminar o medo que sentia. Mas ele sabia que, se gaguejasse diante da prenda, seria humilhado com as gargalhadas da moça. Mas o Xiru o aconselhara que tinha que se preparar psicologicamente para aparentar a maior calma possível. E assim fez. Fez de conta que iria lá para comprar qualquer coisa que ela lhe venderia e, enquanto falassem e estivessem mais a sós, ele pediria desculpas pelas palavras impensadas do outro dia. Parece que isso lhe trouxe o de que precisava naquela hora – calma e serenidade.

Chegou à loja, entrou e ficou andando entre as mercadorias como se quisesse comprar alguma coisa. Parece que as coisas se encaixavam. Quando olhou para o lado quem veio atendê-lo? A prenda Katty Guria! Esperou-a com naturalidade, fingindo olhar uns pelegos que estavam à venda. Olhou os preços e nisso ela achegou-se bem perto dele e, sorrindo docemente, perguntou se procurava algum produto.

– Boa tarde, cumprimentou-a. Não, estava só olhando estes lindos pelegos enquanto esperava por ti.
– Esperando por mim? Por que me esperavas?
– Tenho que falar uma coisa séria contigo.
– E o que seria uma coisa séria para um guri tão lindo?
Tschê Guri sentiu as pernas fraquejarem e começou a suar frio. Lá por dentro lhe pareceu como se tivesse caído do cavalo com a bota presa no estribo. Em sua pouca experiência quando o assunto era mulher, sentiu a alfinetada de um motejo. Isso não poderia acontecer. Mas, pensando no seu propósito de não se deixar abater, segurou-se com as duas mãos no “santo antônio” e fez de conta que não entendeu o deboche da guria.
– A coisa séria que eu queria falar pra ti é sobre a conversa que tivemos estes dias quando tu ia pra escola.
– A é? Só que dessa vez eu vou chamar meu pai pra te lanhar as costas com o mango.
– Também não é pra tanto. O que eu quero falar contigo é exatamente para desfazer as palavras feias que eu disse naquele dia. Eu te peço perdão pelo desrespeito. Te fiz ficar com raiva de mim. Nós nos conhecemos desde crianças e eu te faltei com o respeito.
– Aaaahhhhh!, fez ela e umas lágrimas estavam perolando seus lindos olhinhos.
Tschê Guri ficou sem jeito. Não sabia o que a gente faz num caso destes. O Xiru não lhe ensina nada sobre isso. Ah! Que falta lhe fazia seu amigo agora a seu lado! Enquanto assim tentava achar uma palavra de consolo para aquela guria que estava chorando, deu a volta ao redor do estrado, sobre o qual estavam aqueles produtos quando a moça veio e, tendo achado as palavras que iria dizer, voltou-se para ela e... ela não estava mais ali. Esperou um pouco e, quando ia embora, veio ao seu encontro, tipicamente vestida de peoa, “La Bandolera”.
– O que tu falaste para minha irmã que ela saiu daqui chorando? Boa coisa é que não foi.
– Eu nada falei que ofendesse a prenda.
– Tu sai já correndo daqui pra fora, moleque safado, senão vais ter que dançar a cantiga do meu mango.
– Mas eu...
– Já ou apanha de mulher...
Tschê Guri baixou a cabeça. Uma vergonha danada fez com que ele tropeçasse num monte de arreios perto da porta. Pulou por cima, quase esparramando tudo aquilo, tomou seu cavalo, montou e foi embora.

Afonso Martini
Enviado por Afonso Martini em 23/01/2012
Reeditado em 23/01/2012
Código do texto: T3456633
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