Uma boa ação

Uma boa ação

Aos primeiros dias de maio de 2011, o exato mês do meu aniversário, meus pais adquiram uma linda mansão num lugar chamado de Ilha Porchat, na cidade de São Vicente no litoral paulista. A mudança para a nova residência foi providenciada imediatamente após toda a papelada assinada, lavrada a escritura em cartório e os valores justos certos e combinados depositados na agência bancária indicada pelos seus antigos proprietários, fato que adorei, pois estava mais do que farto de viver confinado num apartamento grande, mas sem nenhuma graça, mesmo com espaço adequado para a garantia das minhas brincadeiras infantis um tanto desastradas.

A minha mãe por um erro médico ao eu nascer, nunca mais pode ter filhos, portanto vivia sozinho no enorme apartamento com uma cuidadora de crianças, um tanto gorda e chatinha que me proibia de quase tudo dentro de casa: ordens dos meus pais; eles eram empresários bem-sucedidos. Por consequência disso não podiam estar com seu “bebê”, eu mesmo, quase nunca; ou melhor, apenas nos fins de semana ou feriados prolongados, isto é, quando não viajavam para as Minas Gerais tratar de negócios de pedras preciosas ouro e tal e coisa mais que eu ainda não entendia. Pois muito bem, ainda, ah. . ., sim, havia outro agravo: nem mesmo podia ir à rua brincar com amiguinhos, por morar numa avenida de intenso movimento no centro do bairro de Higienópolis na capital paulista. Sim, claro está que os meus pais tinham medo, muito medo. Trânsito infernal, pessoas estranhas, assaltos, sequestros, estupros; enfim, havia tantas coisas corroborando contra mim que. . . bah! Crianças em minha volta, no meu convívio diário apenas as da escola, mesmo assim, por poucas horas.

Meu pai era empresário de pedras preciosas e ouro no estado de Minas Gerais, sem tempo para me amar de verdade, que sei eu, estava sempre ocupadíssimo. A minha mãe, ah. . ., a minha mãe era diferente, ela me amava e também ao meu pai à sua maneira, é claro. Não era de amor carnal, era sim, um amor verdadeiro escondidinho no seu cerne. Conheceram-se no curso ginasial, e isso já fazia bastante tempo. O meu pai também a ama, isso é mais do que lógico, por que de outro modo não estariam juntos por tantos anos. Eles apenas tiveram um pimpolho, que sou eu! Certa vez ouvi os dois velhos conversando sobre as atrapalhadas da equipe médica na hora do meu nascimento há doze anos. Agora mais “velhinho” entendo um pouquinho mais da vida; ah! Vida de criança, como “sofremos”. Ser filho único ou não, hoje não tem mais a menor importância para mim.

Pois muito bem, a mansão adquirida situava-se na Ilha Porchat, na alameda do lado leste antes de se chegar à parte mais alta da ilha onde se encontram instaladas as antenas retransmissoras de TV da região. Na frente da mansão, temos uma praça que, mesmo não sendo lá grande coisa em tamanho, me satisfez muitíssimo. Em verdade, alegrei-me bastante, pois tinha a dimensão suficiente para descarregar as minhas exacerbadas energias (molecagens), além de, haver espaço de sobra para estacionar muitos carros em sua volta, assim como um monte de majestosas árvores chapéu-de-sol fazendo sombra e frescor. No meio da praça temos três enormes vasos de artesanato em cimento e pedregulhos retangulares abarrotados de lindíssimas rosas e gerânios de várias cores e tamanhos plantados neles: praça bem airosa por sinal. “Por Deus, até que enfim muito verde em minha volta”, em pensamentos desabafei satisfeito.

Pois muito bem, vamos lá à meleca toda que eu quero pôr a pratos limpos: tudo começou ao ver-me no interior da mansão logo na primeira noite; e que noitada, Jesus! Ah, sim, ia me esquecendo, o meu nome é Raphael e, como já contei tenho doze anos de idade. Ao acordar lá pelas, creio eu que fosse as duas da madrugada, pois muito bem, o horário nos atuais momentos de a peste do falatório não faz mais diferença alguma. Ao dirigir-me ao banheiro, observei através da janela basculante instalada dentro do Boxe onde se encontra o chuveiro elétrico bem afastado da boníssima banheira de hidromassagem, lampejos muito estranhos parecidos aos clarões provocados pelas faíscas elétricas dos assustadores raios numa constrangedora tempestade. Entretanto não chovia, não ouvia nenhum estrondo e o céu se encontrava aberto; era uma noite cintilante de lua cheia, além de, o céu, como pude observar abarrotado de estrelas piscantes e brilhosas. Sei disso porque subi no banquinho que temos no banheiro para olhar para fora através dos vidros basculantes da janela.

Olhando para o morro por baixo da mansão e para as duas laterais da construção até onde podia enxergar, sem perceber coisa alguma, notei que toda aquela roda-viva-de-piscadelas-e-de-luzes-fantásticas, aos poucos ia se dissipando. Com muito cuidado desci do banquinho e me dirigi à privada para fazer o meu merecido xixi. Logo depois, ao retornar para a cama um tanto. . . amedrontado, já encima dela, cobri-me com o lençol até a cabeça e adormeci em instantes. Meia-hora, se tanto depois de o segundo sono começar a percorrer o meu cérebro, pressentindo alguém ao meu lado acordei e, devo confessar de que fiquei mais assustado com o acontecido do que na hora que me enfiei na cama depois de o susto tomado com as luzes do céu e de fazer o meu merecido xixi. Sentando com as mãos em tremedeira apoiadas em cima do colchão, ouvi um sussurro:

— Não tenhas medo Raphael, não desejo fazer mal algum ou machucar você, necessito muitíssimo da tua ajuda. . .

Disse a aparição ao meu lado de voz à fula. Tremi ainda mais de pavor; oh, Santo Deus!

— Quem é você? Como conseguiu entrar em casa e o que faz na minha cama? — perguntei atordoado sem saber ao certo se gritava forte para chamar a atenção dos meus pais no quarto ao lado, se ficava bem quietinho ou se saía em disparada aos berros para fora de o aposento.

— Por favor, Raphael, me ajuda, não grita, não, por favor, e não sai de perto de mim. Fica calmo e escuta o que tenho para dizer, pois necessito muitíssimo de você. . .

Espantadíssimo, além de estranhar o fato de a pessoa ao meu lado saber o meu nome, ouvi em silêncio o que a aparição tinha a revelar. A princípio disse que se chamava Alicia e, de que tinha os mesmos doze anos de idade. Contou que chegou a ser moradora da agora a nossa mansão e de que, ela também dormia no quarto onde estávamos conversando antes da inauguração de Brasília, e isso lá se vão montões de anos, hoje a capital do Brasil. Contou também, de que ali perdeu a vida vítima de um dos assaltantes que invadiu a casa para roubar as joias da família, pois eles eram muito ricos. E disse mais: relatou de que, o seu pai era negociante de ouro prata e pedras preciosas extraídos de três garimpos de sua propriedade no estado das Minas Gerais, assassinado, ele e sua mamãe pelos mesmos bandidos na mesma noite do assalto. A seguir, contou-me de o porquê necessitava tanto do meu auxílio.

— Durante o assalto. . .

Continuou ela: nesses instantes estávamos os dois sentados na beirada da cama olhando-nos admirados; o meu coração dizia de que estava começando a gostar dela. Não sei por que, mas a aparição caíra em graças sobre mim: havia tocado fundo meu coração. Por ventura seria o “amor” de mulher e homem adulto? Mas. . ., com doze anos. . .?

— Ao perceber que um facínora entrou no quarto para agarrar-me; fazer-me mal, pois eu era bastante alta e bonita mesmo com a pouca idade que tinha, fugi correndo para a sala de visitas perseguida por ele. Contudo, ao tentar escapar pela varanda que fica sustentada por vigas de concreto fixas na encosta do barranco entre as pedras do morro, como você já deve ter visto, fui empurrada por ele rolando morro abaixo como uma bola de futebol chutada com toda força. Raphael ao desabar pela ribanceira, uma vala muito funda que havia e ainda a há ao lado do muro de pedras entre o sopé do morro, vala que servia e ainda serve para escorrer as águas da chuva, entre o meio do mato e a rua um pouco mais abaixo da mansão, “carinhosamente” ali me acomodei morrendo dias depois de frio e inanição.

— Nossa, que horror — balbuciei; apaixonara-me pela linda garota.

— Pois e, Raphael, foi dessa maneira que tudo aconteceu. A polícia acreditou de que o meu sumiço se deveu a um sequestro e, nem se deram ao luxo de me procurar nas redondezas ou na vizinhança, mesmo que pouca. Permaneceram no aguardo de um suposto telefonema dos bandidos pedindo algum tipo de resgate junto com os meus avós chamados às presas de Poços de Caldas onde moravam fazia muitos anos, para que viessem a São Vicente, já que, a mansão se encontrava sem ninguém. Telefonema que nunca aconteceu, pois não houve sequestro algum. Raphael é exatamente neste ponto que você entra na estória da minha vida. Não, não, na estória de nossas vidas!

— Como assim? Você não vê que eu ainda sou uma criança? — acabei formando juízo insciente sem imaginar por que dissera tal bobagem.

— Não precisa se preocupar Raphael, você é bastante bom, forte e confiável. Você é totalmente diferente de as tantas pessoas que já estiveram morando nesta mansão antes de ti e dos seus pais. Este é o motivo pelo qual pude fazer-me ser vista por você ainda esta noite: gostei muito de você, contudo, sinto que o amo como se vossa pessoa fosse o irmão que eu nunca tive assim como você também não tem. Um namoradinho, um marido, vá lá. . . tal vez. . .? A coisa toda será bastante fácil de se fazer: escuta com atenção; como meu corpo dissecado ainda se encontra intacto e oculto no lugar onde eu caí décadas atrás, necessito de que, simplesmente você conte o que ouviu de mim aos seus pais para que removam o resto mortal ainda enterrado na vala. Nos dias de hoje coberta por pedra terra e lama e, de que me enterrem como cristã, além de receber por um padre a extrema-unção. Depois de isso feito, a reza de uma missa em meu nome para que o meu espírito possa descansar em paz.

Caramba, foi exatamente o que eu fiz, contudo, a minha estória não passava goela abaixo dos velhos nem mesmo lubrificada com qualquer porcaria que fosse. Convencer os meus pais como a tal aparição pressagiará não foi tão fácil assim; sofri um bocado! Demorou bastante tempo até que eles entendessem e aceitassem minha fantasmagórica estória. Contudo, finalmente depois de muita labuta de minha parte, ao frigir dos ovos, tudo acabou dando certo. Os velhos fizeram exatamente o que a garota pediu que fizessem por sua alma. Espero que Alicia, meu primeiro amor, a final das contas possa descansar em paz!

Ao completar vinte anos, conheci uma linda e inteligente adolescente. Eu na faculdade e ela no terceiro ano ginasial, nos apaixonamos e nos unimos em matrimônio. Ao terceiro filho veio-nos uma linda garotinha e, não sei por que carga d’água, quando aos doze aninhos, o rosto, a cada dia passado mais e mais, não que já não houvesse percebido a coisa toda antes, achava-a igualzinha à menina Alicia, a que surgiu na minha vida quando apenas tinha doze anos: A primeira garota que, em verdade me tocou o coração. . . que amei de imediato como se ela sempre fosse minha. O amor verdadeiro mesmo que na imaginação! Alicia, hoje minha. . .

Querida filha!

Uma boa ação

Frank P Andrew

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Frank P Andrew
Enviado por Frank P Andrew em 21/08/2023
Código do texto: T7866682
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