Vamos, maninha

Vamos, maninha,

Pular a pinguelinha;

A água é pouca,

Não dá no joelho nem nada,

Pra quem já brincou de espada,

Vamos, maninha, que é fácil.

Ai, que eu não quero,

Essa água me assusta;

Depois aparece uma cobra, um gambá, um morcego, um rato,

Um cabrito, faz a gente pular de retro

E aí, cadê terra firme, cadê um buraco,

Uma toca pra gente se esconder?

Não tenhas medo, não corras, não fujas,

É a vida, maninha, brincando com a gente

De escorregar, de se esconder, de botar medo, de arrepiar;

Se a gente não brinca um pouco,

Aí sim é que dá medo de tanto bicho grande

Que aparece na cabeça da gente.

Viste, maninha, quanto tempo passou?

Fomos cada qual para lugares outros;

Passaram-se tantas estações, tantas coisas vivemos;

Agora que nos reencontramos, repara,

Continuamos as mesmas:

Os mesmos laços nos unem,

As diferenças mesmas nos separam.

Agora deita-te aqui neste colo,

Vou cantar-te uma canção de ninar

E logo em seguida, uma de acordar.

Viva, maninha, comigo este nosso tempo;

Quantos reencontros destes teremos, quantos outonos

Ainda viveremos juntas ou separadamente?

E olha que não te peço que em mim confies:

Tantas vezes erro, em tantas outras tremo;

Peço-te que confies é em nosso Deus, Aquele

De quem falava nosso pai na mesa

E nossa mãe, na hora de rezar.

Só Ele não falha, só Ele tem extremo amor;

Ele nosso sono vela,

NEle nossa esperança é sã.

É a Ele que consagro cada feito meu e todo sonho,

É a Ele que entrego todos os cuidados e medos meus;

Com Ele pulo pavores tamanhos, atravesso sustos medonhos,

Corro com os ventos bravios;

NEle minha coragem é grande, este sempre foi o segredo.

Partilha comigo este meu mais precioso Bem;

E olha que não é de hoje que te digo estas coisas;

Tomara que não te tarde o dia

Em que tenhas segura e constante posse

Desta sublime, mas forte e sábia compreensão.

E quando for eu a errante,

Como tantas vezes me viste,

Lembra-me, maninha,

Desta Verdade e Caminho,

Estende-me tua mão

Pra eu entrar de novo na roda

E acertar o passo nesta ciranda.

Querida Ná, é ainda a ti que escrevo. Com um grande beijo,

Neu.

Neusa Storti Guerra Jacintho
Enviado por Neusa Storti Guerra Jacintho em 06/01/2008
Reeditado em 11/12/2012
Código do texto: T805069
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