O DIA QUE AMOR NASCEU

As paineiras derramavam seus “algodões”, como que tapetes brancos, aqui e acolá, dando aos campos inusitados desenhos naturais.

As sombras projetadas qual esculturas com vários membros, amainavam o calor que encerrava mais um dia.

Lá, bem longe o sol meio que preguiçoso e curioso todo dourado, teimava em não ir dormir querendo como que namorar a lua.

Jovens ou moços como queiram, deitados sobre os tapetes de algodão das paineiras, se amavam de uma forma natural.

Ela na sua doçura fresca de moça-mulher, no inicio o recato falava mais alto. A maciez da sua pele, suave ao contato das mãos um tanto atrapalhadas e nervosas, davam um toque todo especial, àquele corpo lindo e maravilhoso.

Havia sim um clima de romantismo, de envolvimento, de entrega total de dois amantes, que tanto se amavam e esperavam o momento oportuno para se entregarem de corpo e alma, um ao outro.

A tarde caia meio preguiçosa e colorida.

O amor que os envolvia não se importava com a cronologia do tempo. O tempo na realidade não existia. Só o momento de envolvimento, paixão e amor intenso.

A inexperiência era evidente e misturada com a ansiedade, tornava o clima mais emocionante.

Escolheram aquele local e horário, por uma razão comum. Encontraram-se pela vez primeira e por acaso, quando buscavam um refúgio para meditar, se isolar e se encontrar consigo mesmo. Ambos viviam momentos de angústia e indecisão.

Não havia decepção com a vida, com familiares, com amores não correspondidos e tão pouco com o dia a dia. Buscavam de certa forma respostas para uma existência mais abrangente, mais participativa e afirmativa.

O destino na realidade havia programado aquele encontro.

No inicio como era de se esperar, houve como uma antipatia. Uma pergunta surgia do mais recôndito da mente e da alma: O que estará fazendo aqui esta pessoa? Que intruso. Exclamariam. Mas era a mente quem pautava as ações.

Indecisos. Cumprimentos descolados.

Você vem sempre aqui? Não... Bem de vem em quando. E você? Também... Acho este lugar magnífico, em especial ao cair da tarde. Pode-se ver toda a cidade, as lavouras de trigo ondulando ao sabor dos ventos.

Mas e você? Gosta daqui por qual razão? Na realidade gosto de vir aqui para me isolar, para orar no meu templo. No seu templo? Que templo? Ora, nunca ouviu falar que toda a pessoa tem um templo no seu coração? Pois é aqui que encontro a Paz, a Intimidade Espiritual e consigo iniciar um diálogo com a minha consciência cósmica.

Puxa. Nunca pensei que uma moça como você, tivesse tanta introspecção espiritual.

Você tem algo contra moças? Não. Desculpe fui mal. Mas e você o que o traz aqui?

Freqüenta este local há muito tempo? Não. Na realidade sempre que me sinto um pouco confuso, abalado, triste e meio sem rumo, venho aqui recarregar minhas energias e aproveito também para dialogar comigo mesmo. Não sou muito de orações, mas uma vez ou outra consigo entabular uma oração entre eu e o Planejador.

Planejador? Que forma esquisita de falar. Quem é este Planejado? Ora quem. Quem planejou todo isto que você esta vendo e também o que você não está vendo. O planeta Terra com suas milhares e milhares de formas, criações e existências passadas, presentes e futuras.

Minha nossa. Você por acaso é Filósofo? Não sou ex-seminarista.

Um silêncio quase que sepulcral ocorreu. Ex-seminarista? Sim? Qual o motivo deste espanto? Nenhum. Só que algo diferente e não ocasional está ocorrendo. Como assim?

Eu sou ex-noviça. Não acredito? Estudava para ser uma religiosa? Sim. De que ordem? Não tem importância em saber da qual ordem. Simplesmente deixei o noviciado e resolvi viver a vida de uma outra forma. Não vê pelos meus cabelos ainda curtos? E a falta de maquiagem? Ainda não me adaptei ao mundo laico. E você de que ordem era?

Também não tem importância. Sinto ainda uma certa intranqüilidade em relação a vida que ora estou levando em relação a que até então vivia, mas valeu a pena. Estou descobrindo novos momentos, outras experiências e formas de viver a vida.

Mas como você se chama? Sônia Regina. E você? Paulo de Tarso.

Sentaram-se à sombra da velha paineira e ali ficaram a contemplar mais um final de dia.

Desceram à pequena elevação. Ele com a sua bicicleta. Ela a pé. O caminho não era longo. Convidar a ex-noviça para levá-la na sua bicicleta nem pensar. Resolvera então ser solidário e caminhar lado a lado. Onde você mora? Sabe ali, na rua da Fonte Verde?

Tem uma casa branca, com uma varanda toda em volta da casa? É ali que moram os meus pais. Sou filha única. Mas ali é a casa do prefeito. Sim. E o que tem isto de tão diferente? Nada. Acontece que eu moro em frente a sua casa. Aquele sobrado de cor creme, com uma piscina ao lado. O meu pai é fazendeiro. Cria uns bois e umas vacas.

Sei... uns bois e umas vacas. Porque esta ironia? Ora que não conhece seu pai? Tem mais de 10.000 bois nas fazendas. É. Isto é o que falam. Mas nunca me interessei por isto. Mas agora, como filho único vou ter que me esforçar para aprender este tipo de atividade. Então somos vizinhos. Somos filhos únicos. Somos ex-postulantes a uma vida religiosa. Que incrível. Que coincidência. Você Paulo de Tarso. E eu Sônia Regina.

Chegamos. Nossa como o tempo voa.

Vamos nos encontrar amanhã? Não. Amanhã vou com meus pais para a capital. Vamos comprar roupa para uma ex-noviça. Praticamente não tenho roupa. A não ser as que usava na Casa Religiosa. Então. Bom descanso e boas compras. E ali se despediram.

Um dia. Dois dias. Três dias. Uma semana. Nenhum sinal. Subia o morro todos os dias, pela tarde na esperança de encontrar aquela singela criatura. E nada. Será que voltou para a Casa Religiosa? Dez dias haviam passados. E eis que surge então toda transformada. Toda moça-mulher. Cabelos sedosos, unhas bem feitas. Uma calça jeans, não muito justa, mas que davam certa saliência e demonstração daquele corpo.

Nossa. Sumiu? Pensei que tivesse voltado? Voltado para onde? Para a Casa.. Nem falar.

Resolvemos ir para a nossa casa na praia. O meu pai pediu afastamento do cargo por trinta dias. Agora que restam 20 dias, vamos fazer um cruzeiro pelo litoral do Brasil e da Argentina. Iremos até Bariloche e depois voltamos de avião. E você o que fez todos estes dias? Bois, vacas, cavalos, tratores, peões, vacinação, inseminação artificial, churrasco fogo de chão, estas foram as minhas lidas.

Quando viaja? Hoje pela noite. Amanhã embarcamos. Vou sentir saudades? De que? Ora de você? Como assim? Nos vimos uma única vez. Pois é. O que você poderia esperar de uma pessoa que passou parte de sua vida, só vendo homem e de batina?

A vida continuou no seu caminhar. Resolvera se mudar para a fazenda sede. Ali cansava o corpo e não dava trelas para ficar pensando na ex-noviça. Viagens para outras fazendas lhe faziam um bem enorme. Começar a tomar gosto pela coisa. No navio a vida era um tanto agitada. Jantares, almoços, shows, cassino, compras, teatro, piscina, massagens. A neve, o hotel com aquele clima todo criado, para o conforto dos clientes. Chocolates, cafés da manhã, passeios, alguns tombos na tentativa de esquiar. Compras, fotografias e um certo vazio no coração. Seria porque nunca vivera este tipo de situação? Peso na consciência, por ter deixado a vida pré-religiosa? Ou seria...?

De fato era. Comprou um lindo cachecol de lã e um perfume.

Como você está bronzeado. Foi para a praia? Nada. Serviço puro. Desde que você viajou não caiu uma gota de chuva. Sol e sol. Aproveitou bem a viagem? Maravilhosa. Tanto no navio como na Argentina. E na volta então foi algo mais gostoso. Ficamos dois dias e três noites na capital. Assisti no Teatro Colón, a Opera Don Giovani, música de Mozart. Simplesmente envolvente e linda. E no Teatro Maipo, um espetáculo lindo de morrer, com Sandra Mihanovich. Simplesmente envolvente. Em especial para mim que só ouvia: A nós descei Divina Luz; O Cálice por Vós abençoado e por ai vai.

Bom agora que você voltou, posso convidá-la a dar um passeio no final da tarde?

Combinado. Hoje mesmo. Nos encontramos as 16,00 horas. Ótimo. Só que hoje não vou de bicicleta. Ganhei uma Pick-Up do meu pai. Valeu. Nos encontramos. Puxa vida, pensei que ela ia fazer algum elogio por ter ganho um carro..

E os meses passaram. Agora se viam praticamente todos os dias. Missa? Nem tanto. Agora era viver um outro tipo de vida. Convite para visitar a fazenda. Churrasco com as duas famílias. Jantares em família. E assim foi se solidificando um relacionamento, no qual ninguém acreditava que pudesse evoluir para o que evoluiu. Recatados. Moderados. Gestos comedidos. Palavras bem colocadas. Conversar em tom de voz suave e pausado.

O vulcão que estava adormecido começara a dar sinais de vida. Um turbilhão. Mas antes a necessidade de conhecer a vida como ela era. A vida do comum, do cotidiano, da vivência real das sensações, dores, sobressaltos, angustias e temores. Mas algo andava pairando na atmosfera da vida.

A velha paineira, agora além de ser o local preferido dos dois ex-aspirantes a vida monástica, agora via surgir algo mais intenso e para concretizar tal, um coração fora gravado no seu tronco, com as inicias SR/PT.

Já não havia como esconder as atrações e desejos. Resolveram dar ciência aos pais. Um tanto careta, poderiam achar. Mas era o que lhes pedia a forma como viverão até então e como foram criados. Alegria. Sentimentos e desejos de felicidade.

E então? Quando vamos ficar noivos? Bem... antes vamos nos conhecer, conhecendo os gostos, hábitos, costumes, vontades. Vontades? Como assim?

Vontade de amar você por inteira. Cada centímetro do seu corpo. Ter você como parte integrante do meu viver. Sei que pode até parecer meio grosseiro este modo de falar, mas é isto que sinto e tenho que dar vazão a estes sentimentos. Puxa. Quanto ímpeto. Como dizem por aí, parece que você tem uma pegada e tanto. Pegada? Que pegada?

Deixe de lado. Você sabe muito bem que somos já um tanto crescidos. Que nossos mundos apesar de semelhantes, são no momento novidades para nós dois. De fato sinto o mesmo por você. Fico imaginando quando será a primeira vez, como será, de que forma. Não tenho a menor idéia. Só sei que um rio de paixão corre de forma turbulenta pelo meu corpo e mente. Sinto uma necessidade de me entregar, de amar, de vivenciar esta intimidade. Menina. Você não sabe o quanto eu amo você. E eu então?

A tarde fora precedida por uma chuva fina, que diminui a temperatura e dando um ar fresco e gostoso, que vinha acompanhado pelo suave perfume dos Manacás.

Linda, encantadora, suave e atraente. Cabelos loiros naturais, encaracolados nas pontas, blusa branca bordada com renda de algodão, jeans branco, tênis branco, meias brancas e... Seguiram para a sua aconchegante e confidente Paineira.

Um cobertor de lã que havia comprado na Argentina, cobria a grama, agora cheia de algodões brancos. E ali ficaram a contemplar o Sol indo dormir, curioso por saber o que a Lua iria fazer junto com as Estrelas.

Aos poucos foram se envolvendo, de uma forma suave, tranqüila, inocente e cheia de desejos, acompanhada pela novidade e inexperiência, tendo como base de tudo e de um todo o amor.

Se descobriram, corpos nunca antes tocados e vistos. Nunca antes acariciados e beijados agora davam realidade ao imaginário, dois corpos, duas criaturas sedentas de amor, carinho e paixão.

Delicados os momentos. Envolventes e instigantes. Um tanto tensos, mas conscientes.

Suaves e cheios de amor. Palavras de amor, suspiros de amor, gemidos de amor.

Uma atmosfera repleta de amor.

E a velha paineira, deixou cair sobre os corpos agora extasiados e consumados no amor maior, uma leve pluma de algodão.

E neste final de tarde, quando a lua cheia iniciava a sua trajetória, foi O DIA QUE O AMOR NASCEU.

ROMÃO MIRANDA VIDAL
Enviado por ROMÃO MIRANDA VIDAL em 15/07/2010
Código do texto: T2378664