Cantos do adeus

Cantos do adeus

Ele tocou por mais de dez vezes as mesmas teclas daquele piano sem mudar uma única expresão de tormento ou adoração do seu olhar, mais negro que as noites sem luas cheias da minha terra triste!

Eu fiquei alí num canto absorvida por aquela melopéia repetitiva como alguém que se esquece da vida ou planeja a morte de todas

as doutrinas que combatem o verdadeiro amor. O amor mágoa, o amor saudades, o amor sem fim de um coração espedaçado.

E as horas corriam tão esporádicamente naquele dia,

que parecia mais com as goteiras frias daquelas primeiras chuvas que enchiam a caneca desbotada e antiga do meu amado pai.

...Se me perguntarem hoje, um só verso ou uma palavra que seja daquela música certamente eu não saberia dizer, pois quando penso nesse estranho pianista percebo que não foi a canção que me atraiu e me fez ficar alí até o raiar do dia,

num silêncio que de tão estridente incomodaria até Beethoven ao compor a sua quinta sinfonia.

Depois de tudo sem se dar uma única vez que fosse por minha presença , ele se ergueu bruscamente da cadeira e se foi sem olhar para trás, deixando o piano aberto e o bule de café totalmente esvaziado sobre a partitura rabiscada e manchada por todas as lágrimas que desejei e ainda hoje desejo chorar por ele ou com ele caso eu o encontre algum dia nesse pedaço de mundo esquisito e tortuoso que é a vida...

Gilma Laísa

GILMA LAISA
Enviado por GILMA LAISA em 19/08/2022
Reeditado em 20/08/2022
Código do texto: T7586219
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