SOB O OLHAR DA ESCURIDÃO

Sob o olhar da escuridão

Conto de Alexandre Florez e Camila Diniz

(Parte 01, por: Alexandre Florez)

A serpente e o escorpião nada têm em comum exceto o hábito das furnas. Cada qual destila seu veneno. Obstinados prosseguem na senda da vida e da morte.

Sob exame minucioso acentuam-se diferenças de comportamento: Serpentes observam o uso do ardil. Escorpiões tocaiam mas não primam pelas abordagens sutis. Víboras exercitam a paciência. Naturalmente se inclinam às ciladas. Escorpiões turbulentos atacam sem preâmbulos.

Quando serpentes se deparam com invasor da mesma espécie tentam evitar o confronto. Porém, se deflagrado o conflito entra em cena uma espécie de acordo cavalheiresco pelo qual as víboras não lançam as presas uma contra outra. Na peleja se limitam jogar o corpo ao encontro do contendor, enroscando-se no adversário até um dos opositores desistir da refrega.

Escorpiões agem de maneira bem diversa. Qualquer invasão territorial fora da época do cio descamba em combate mortal, pois, não hesitam arremeter os aguilhões afiados um sobre o outro em pontaços certeiros. E usam as pinças para agarrar firme membros e abdome do adversário no afã de o mutilar. Sem demonstrar nenhum respeito aos de sua espécie o lacrau vencedor - bicho pragmático, devora de pronto ao vencido.

Serpentes, dotadas da sapiência mítica de Hermes e Apolo trocam de pele conforme envelhecem no decurso das estações. Originalmente terrestres e arborícolas, víboras não receiam meios aquosos. Tampouco qualquer tipo de vegetação lhes resulta obstáculo. Escalam troncos e galhos com facilidade. Matreiras espreitam os ninhos. Quando chega o inverno hibernam em covas no solo. Nesse tempo compartilham seu refúgio com outras cobras. Ato impensável para escorpiões.

Outrossim, ofídios não são canibais fortuitos para sua prole. Escorpiões não demonstram tal escrúpulo. Seguindo o instinto aracnídeo a fêmea do lacrau pode tanto devorar as crias quanto investir contra o macho tão logo o intercurso sexual seja consumado.

[...] Tu foste para mim uma obsessão, tal como para Dante Alighieri foi Beatrice Portinari. Foste minha Helena de Tróia, minha Giulia Farnese casada com Orsino Orsini. Giulia Farnese cuja beleza majestosa levou à perdição o papa Alexandre VI. Foste minha Cecília Gallerani, a Dama Com um Arminho, amante do duque Ludovico Sforza. Aos catorze anos retratada por Da Vinci.

Foste minha Agrippina Germanici (com dois pês e tudo) mãe dos imperadores dementes. Imanente, incestuosa, lúdica. Escorpião encarnado gente - eu serpente. Um para o outro a exata medida: sete palmos abaixo. Sem salvaguardas. Sem repouso ou chance de remissão.

[...] Eu me enrodilhava com minha armadura escamífera numa prontidão algo lasciva. Tu fremias nervosa sob a queratina rija do teu exoesqueleto. Guardando a chama viva do deus Ares. Seiva vital animando teu corpo.

Criaturas perigosas. Inusitado par de amantes cujas diferenças fizeram recrudescer o desejo em prosseguir uma união por todos amaldiçoada.

[...] Com efeitos tortos, dissonâncias: o jazz band batucava para nós na pancada do ganzá - SARAVÁ! Manuel Bandeira.

Tu hás de lembrar pra sempre cada "petit mort", resultado de nossa felicidade nas tardes luxuriosas regadas a champagne falsificado e conhaque barato de gengibre. Quanta fuleiragem brejeira & gozosa; tão Brasil!

Agora seguirei só tracejando linhas sinuosas no grês avermelhado deste chão cariboca-amulatado onde se planta café; mandú-sarará! Rastejarei, curuminha, maxixando sobre o solo folhoso até o eito da siá dona do "areal da Baronesa" sibilando marchinhas de Lamartine Babo. Festejando a carne antes da quaresma.

Tu te moverás ligeira curuminha. Impaciente cunhã Nhambiquara. Mulher, fêmea aracnídea belicosa. Jamais experimentarás a volúpia lânguida das aguadas cálidas durante tórridos verões. Tua fome insaciável te tornará ainda mais ousada; imprudente até.

Indiferente á própria sorte promoverás razias sobre a terra. Não te compadecerás de ninguém. Tua paixão flamante te consumirá pois diferente a outros teu coração se auto devora.

[...] Traduzidos em canção soaríamos sambas & blues - com motivação bem convincente: "- Sister! Remember you..."

Mas tu tens tanta pressa Anhangá fêmea! Anseias ver chegar logo o tempo da muda. Estranho vínculo de tua existência para com a eternidade. Justo por reconheceres em ti mesma vazio, solidão, mortalidade.

[...] O tempo fará acentuar entre nós tênues contrastes. Linhas limítrofes das sombras tortuosas produzidas pelos movimentos ondulantes da serpente a fundirem-se co'as trevas espessas e fundas refletidas no olhar inexpressivo do escorpião.