UMA LÁGRIMA DE NATAL

Aquela manhã de dezembro trazia, mais uma vez, o calor do verão. Elza literalmente pulou da cama pensando na missão especial: Passear com o pai, “seu” Edevair.

Com carinho arrumou a cadeira de rodas e com a ajuda do irmão, ajeitou o pai no “veículo”. Foi para a rua, sentiu a brisa da manhã e como fazia sempre, passou a conversar com Edevair, mesmo sabendo que ele não a ouvia, não falava, quase não enxergava e estava paraplégico, tudo isso resultado de um derrame acontecido há quatro anos.

- Hoje o dia está maravilhoso pai! Que sol!

- Pai, olha que flor maravilhosa. Ali pai, naquele quintal!

- Olha que criança bonita pai, aquela ali no colo da mãe.

Constantemente limpava as lágrimas que insistiam em molhar seu rosto, como se lembrassem da realidade do velho pai.

A verdade é que Elza sentia falta do “gigante” que a embalava nos braços e falava numa voz grave; Daquele que ela tinha até certo medo, mas que se derretia todo quando ela chegava da escola e lhe aplicava um beijo: “Meu pai” falou no silencio da alma em meio às lembranças.

Agora a realidade é que ele estava ali, entrevado numa cadeira de rodas esperando a partida sem nenhuma esperança médica de recuperação.

Chegando ao jardim do fim da rua, Elza estacionou a cadeira e limpou o rosto do pai.

- Tudo bem papai?

- O senhor sabe que dia é hoje?

- Não?

- 24 de dezembro.

- Véspera de Natal!

- Lembra quando o senhor me chamava para ajudar a enfeitar a nossa arvore?

- Eu ficava toda boba!

- E nas festas que o senhor organizava?

- Lembro da sua alegria em ver a casa cheia de gente!

- E quando o relógio marcava meia-noite, o senhor fazia questão de distribuir os presentes.

Num repente Elza olhou para o pai.

- Sinto saudades “velho”... Mas o meu maior presente este ano é ter o senhor mais uma vez aqui comigo para passarmos juntos mais este Natal.

Carinhosamente, segurou o rosto do pai, disse “Feliz Natal” seguido de um beijo.

Neste momento, algo a surpreendeu, sentiu uma das mãos molhar com um liquido quente. Olhou assustada e constatou!

Sim! Era uma lágrima.

Uma lagrima de: “Feliz Natal pra você também, minha filha”.