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O ESPÍRITO NATALINO

Lúcio Alves de Barros

Na verdade meu caro leitor, não tenho certeza se esse conto é sobre o espírito natalino. Talvez seja, pois se trata somente de um caso e, se ele for verdade, deixo a responsabilidade para que você julgue. Porém, gostaria de lhe dizer que minha querida mãe (in memorian) afirmava que a história é verdadeira e sempre chorava quando se lembrava dela.

Era noite, uma bela noite destas de véspera de Natal: as crianças brincavam na calçada, os velhos discutiam nos bancos da praça, carros passavam e senhoras gordas e magras se contorciam para abrir caminho nos passeios das ruas mal calçadas daquela cidade. Havia movimento e muitos queriam chegar rápido em casa para aproveitar, no calor da família, a noite de Natal.

A cidade estava iluminada e se completava com as festas e com os belos enfeites dependurados nas casas. Grandes e pequenas árvores de Natal ainda eram enfeitadas. Impossível escolher qual o melhor e mais maravilhoso enfeite. As casas, cheias de grandes famílias, pareciam pequenas de tanta alegria e compaixão. Sem dúvida, era uma noite de felicidade. O mundo parecia ser, tal como nas palavras do filósofo Libnitz (1646-1652), “o melhor dos mundos possíveis”. As mesas empanturradas também eram enfeitadas: uvas, nozes, castanhas, maçãs, o peru se misturavam aos complexos enfeites natalinos e, de uma forma ou de outra, também aguardavam o badalar da meia-noite.

O Natal se aproximava. O horário tão esperado pelas crianças já estava por chegar. A televisão, ligada na missa do Galo, garantia o ambiente religioso. Mas poucos se interessavam pelas palavras do velhinho que falava com dificuldade, com exceção da vovó e do vovô, apaixonados pelo Papa que eram. De repente as dose badaladas assinalaram o horário inicial da noite do nascimento de Cristo. As famílias, no aconchego do lar, se abraçavam, se beijavam e se confraternizavam. Nestes momentos o tempo para, o mundo é belo, a vida é agradável e as pessoas são felizes.

No entanto, um olhar perdido era perceptível em uma das grandes janelas. Equilibrado sobre os pés estava José, um garoto alegre que, desde a manhã, brincava na calçada. Ele percebeu o barulho da festa e ao ver toda aquela movimentação ficou encantado. Curioso resolveu olhar sobre a alta vidraça e, ao se equilibrar sobre os frios pés descalços sobre o chão, ficou vislumbrado pelo que percebeu.

Primeiro observou com cuidado a árvore de Natal. Ela estava iluminada, uma iluminação muito estranha, pois ascendia de um lado, de outro, ao mesmo tempo em que se apagava de uma só vez. Achou esquisito. Havia aprendido com o Sr. João, um velho e amigo engraxate, que luz era para iluminar como um todo e que não devia ser desperdiçada. José olhava tudo, as crianças com os brinquedos, a vovó sorrindo num canto, o papai com o jornal, a mamãe no telefone e a TV no canal do Papa. Não conseguia entender o porque da televisão estar ligada porque poucos davam atenção àquele velho feio, gordo e mal humorado.

Olhou os presentes. Nunca tinha visto tantos pacotes de uma só vez e amontoados daquela maneira. Perto deles ainda observou carrinhos, bonecas e um jogo que até já havia visto na prateleira de uma loja. Ao olhar para o outro lado percebeu mais brinquedos e eram tantos que não dava para contar. Mas também não era problema, pois ele não sabia contar, tampouco ler ou escrever. Não havia tido a oportunidade tal como teve muitas crianças de sua comunidade. Um detalhe estava lhe preocupando: por que alguns brinquedos estavam jogados e outros quebrados? Pensou que poderia fazer muitas coisas com eles, montar, desmontar, vender ou mesmo trocar.

José já se encontrava naquele lugar por um longo tempo e ninguém percebeu a sua cuidadosa e quieta observação. Sentia muita dor nos pés, pois eles já estavam gelados e duros. Então resolveu sentar um pouco, massageou os dedos e puxou um a um até estalá-los. Pensou que ainda ia andar muito até chegar em casa, mas sabia que a dor só voltaria depois que lá chegasse. Ela sempre parava quando ele começava a andar.

Decidiu se levantar e, mais uma vez, ficou sobre as pontas dos pés em frente à vidraça limpa e dourada. José estava fascinado com aquela família. Nunca tinha visto tanta gente sorrindo, abraçando e beijando de uma só vez e por muito tempo. Havia se acostumado a ver pessoas juntas, mas logo se separando com brigas ou com morte. Isto sempre acontecia no bar do senhor Pedro, próximo à sua pequena casa.

José sentia frio e os pés continuavam gelados e doloridos. Logo sua atenção se desviou para uma mesa bonita que estava no canto da sala. Para isso, precisou esticar o corpo magro e franzino para melhor observar. Achou graça na organização: havia nozes, uvas e um bicho grande e preto misturado em meio a batatas e um monte de bolas coloridas de Natal. Apesar dos alimentos, José não sentiu fome. Tudo era novidade para seu olhar ainda ingênuo, simples e inocente. Naquele local, ainda permaneceria durante longos e longos minutos. A rua já estava deserta e o Natal já havia chegado. O vento uivava forte nas sacadas das casas e ouvia-se músicas e cantos natalinos.

Inesperadamente uma sombra se fez presente na esquina da casa em que José passava um grande e espetacular momento de sua vida. Os passos do estrangeiro eram lentos e calmos. José percebeu, mas fingiu não dar muita atenção. A luz não era suficiente para que pudesse ver quem era o proprietário da tão misteriosa sombra. O grande e forte corpo se aproximava devagar: sua roupa era bonita, os sapatos estavam engraxados e brilhando com a luz da lua. Devia ser a luz do poste ao lado, mas não interessava, um policial certamente não era.

José respirou fundo e tentou ficar calmo. Tinha medo dos policiais que, não poucas vezes, lhe bateram. Apanhar logo naquela noite, na qual estava tão feliz por conhecer uma árvore que às vezes iluminava e se apagava por completo, um vovô e uma vovó, um bicho feio sobre a mesa e mais um homem velho, feio e gordo que passava na televisão. Tantas coisas interessantes. Apanhar seria o fim de um grande dia.

O homem já estava perto e José pensou que poderia correr... e a festa? E aquela alegria? Poderia perdê-la? Disse não e decidiu por ficar. Achou que deveria aproveitar o máximo possível daquele momento. Podia ser a única e a última vez... queria ver de novo, pelo menos os abraços e os beijos (os quais faziam muito barulho), o carrinho quebrado no canto, a boneca ou a uva que havia caído no chão. José não agüentava mais esperar a hora em que a uva ia ser esmagada pelo pé de um dos participantes da festa. Sua ansiedade era tamanha que passou a pensar que o homem estava mais longe do que realmente parecia.

O vento ainda uivava, mas José nem ouvia. Já não sentia o corpo, tampouco a dor latente nos pés. Cansado, ainda se esforçava para prestar atenção na grande e bela festa e no grande corpo que, lentamente, se aproximava. Em certo momento, sua atenção foi tomada porque alguém desligou a TV e uma outra pessoa esmagou a uva solitária no chão. Achou tudo fantástico. Não acreditava que alguém pudesse ter a coragem de fazer aquilo.

No mesmo instante o pequeno menino lembrou-se do grande homem. Já era tarde demais e sentiu uma forte e pesada mão sobre os ombros. Era tão grande que quase lhe tomava as costas. Sentiu medo, pavor e decidiu olhar para trás se virando bem devagar. Olhou para o chão e começou a observar os sapatos limpos, brilhantes e bem cuidados. Verificou a calça com vincos e o cinto preto e bem alinhado. Contudo, tinha medo de olhar para os olhos daquele homem.

No qual foi sua surpresa, o estrangeiro, que apareceu levianamente naquela ocasião, dirigiu-lhe umas palavras. José olhava seus sapatos que agora estavam respingados da chuva que começava a cair. Sentiu alguns pingos na testa e nos lábios.

O homem, o estrangeiro da noite, ao contrário do que o pequeno menino pensava, educadamente tocou-lhe o queixo, ergueu-lhe e disse:

__ Menino! Ô menino! O que faz aqui? Não vai aproveitar a noite de Natal? Não tem brinquedos?

José estranhou, sempre recebeu grandes solavancos antes de alguém perguntar por alguma coisa. Pensou novamente em correr, não tinha saída. As pernas não obedeciam, os pés estavam duros e os braços haviam perdido as forças. Como o corpo não correspondia à vontade congelada, o espírito criou coragem. O grande garoto franziu a testa, encheu o peito de ar e disse:

___ Ô moço! Sabe! “Nêgo”, não é gente.

Lúcio Alves de Barros
Enviado por Lúcio Alves de Barros em 05/11/2007
Código do texto: T725061
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Sobre o autor
Lúcio Alves de Barros
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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Lúcio Alves de Barros