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Passado Imperfeito e um Futuro Mais-que-perfeito

           Sábado à tarde e ele estava só no seu minúsculo apartamento. Sentiu fome. Não tinha o que comer. Na verdade tinha, só não era o que ele queria. A fome aumentou e o tédio também. O ócio lhe tomou conta e o obrigou a fazer algo, senão o ócio seria a causa-mortis do seu suicídio. A geladeira abrigava recipientes plásticos de arroz, bife e uma lata contendo apenas uma sardinha. Pôs tudo pra fora e colocou tudo isso num prato e deixou o resto por conta do microondas. Nesse meio tempo, abriu uma garrafa de vinho de quinta categoria. Pra ele nesse momento a categoria e qualidade do vinho era indiferente, o fato de ter o vinho já tornava a refeição ligeiramente mais especial. Após três apitos do microondas ele tirou seu prato e levou para a sala. Seu pensamento vagueou e isso fez não sentir o gosto da refeição. O pensamento foi longe como um trem levando um único passageiro rumo ao seu passado. Por que lembrar do passado? Voltou seu pensamento e teve a idéia de fazer dessa lembrança um motivo pra engolir o passado, mas antes teve que mastigar os dias infelizes que teve. O bife duro tornou-se as lembranças árduas, mastigou ligeiramente cada derrota para engolir logo. Fez do vinho ruim um vinho bom ao lembrar das poucas vitórias que teve na vida. O passado desse homem realmente não era dos melhores. A sardinha teve seu gosto ofuscado pelas frustrações amorosas e pelos amigos perdidos por inúmeros motivos como: falecimentos, mudança de ideologia, igrejas fanáticas que os proíbem de conviver com outros. No segundo gole de vinho ele se lembrou das poucas namoradas que teve. Teria sentido amor? Teria sido traído? Teria ele traído a si mesmo? A refeição desceu pesada tal como foi viver esse passado. Terminada a refeição ele lavou o prato, pois teve lembranças que ele não conseguiu engolir como perder a ultima namorada para seu melhor amigo. Lavou o prato e foi escovar os dentes, pois o passado ainda queria ficar na sua cabeça e lhe causar mais estragos. Encheu a escova de pasta de dente e escovou brutalmente para tirar cada impureza da sua alma, a gengiva começou a sangrar como se fosse as lágrimas de uma pessoa cansada de uma vida ingrata e sem muitas alegrias. Ele sabe que poderia ser diferente e ainda pode ser diferente, pois tem muito que viver. E foi pensando assim que ele saiu do apartamento para dar uma volta na praça em frente ao prédio. Já lá fora ele sentou numa cadeira e uma moça apareceu perguntando-lhe onde fica o número 77, ele então apontou para o número que era do seu prédio. A moça dizia que estava se mudando para lá. Dias depois ela apareceu e se tornou a vizinha dele. Outros dias depois se tornaram bons vizinhos e noites depois já jantavam juntos e não demorou muito para dormirem juntos. A vida dele mudou e agora trabalha numa grande empresa, está subindo na vida e já não almoça sozinho num sábado à tarde, mas sim com sua futura esposa em restaurantes de boa qualidade onde bebe vinhos de ótima safra e prova de pratos caros. Quando ele pára pra pensar e vê que seu passado continua no passado, o presente logo passa rumo a um futuro próspero.

20/03/06
Miguel Rodrigues
Enviado por Miguel Rodrigues em 21/03/2006
Código do texto: T126219
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Miguel Rodrigues
Barueri - São Paulo - Brasil, 33 anos
1434 textos (42674 leituras)
6 e-livros (1681 leituras)
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Miguel Rodrigues