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Vida de Lagarta


Vida lacrada,
Vida largada,
Vida de Lagarta...

 “O que a lagarta chama morte, o Mestre chama borboleta...”
                  (Provérbio chinês)

Ai, ai! Acordei hoje com uma sensação estranha. Como se algo totalmente novo fosse acontecer. Talvez tenha sido o sonho que tive. Um sonho de cores e perfumes e uma sensação leve e estranha de que flutuava pelo espaço. Acho que é a idade chegando. A gente começa a querer repensar toda uma vida.
Não sei porque, mas sinto que não verei a próxima estação. Decerto, terá sido o sonho que me deixou assim, tão... tão melancólica...
Ao bem da verdade, não é de todo mal ser uma lagarta. Nem, propriamente, bom. É como é, e pronto.
É bom, quando acordo e vejo o Sol surgir por detrás do outeiro, e os pardais, formando um inspirado madrigal, anunciam o verdejante mundo que jazia sob o véu da mãe noite, aconchegante e terna. Quando é ruim ser lagarta? Quando me vejo só, largada ao pé de uma copa de figueira, atada a esta minha tênue e limitante forma de existência, a contemplar – e só contemplar – a diversidade de aladas cores que ornam a natureza. Puxa, acho que meu sonho me fez poeta, de repente.
Mas, não me queixo. Penso que acharia minha vida um tanto tediosa, caso soubesse, eu, em minha simples condição, o significado deste estado de alma. Ou, se, por outra, me fosse dado o direito de vivenciar um estado de não tédio... Ora! Mas esse não é o destino das lagartas.
Pois então?... Deixo-me perder, outra vez, em devaneios...
Confesso que, se pudesse escolher, gostaria mesmo é de ser um pássaro, ou, quem sabe, uma flor. Ah, como invejo os pássaros... Como admiro as flores...
Quisera, mesmo, voar pela azulidão infinita, sob os movimentos harmônicos de um belo par de asas.
Não que seja mal viver agarrada a uma árvore. Não. Árvores são generosas, hospitaleiras, amigas de verdade. Excelentes senhorias a quem não devemos mais que algum reconhecimento e respeito. Além disso, exalam, muitas vezes, um maravilhoso perfume de flores. Ah! Como eu amo as flores! Às vezes, mesmo agarrada a minha estática e cinzenta condição, me perco em admirar as flores do campo, com suas lindas e variadas cores, seus perfumes balsâmicos, inebriantes, e sua delicadeza sem igual. Como deve ser sublime ser bela e enfeitar o mundo com o simples existir.
Ah, sei que Deus fez a lagarta à sua própria imagem e semelhança. E não é justo me mostrar uma lagartinha muito mal-agradecida, uma vez que nunca me faltou nada. Tenho um bom casulo para morar, encravado em uma frondosa e bonita figueira, toda seiva de que preciso e o ar do campo para me alegrar. Sei que nasci lagarta, sempre vivi como lagarta e como lagarta hei de morrer. E sinto que não tardará... Mas, se pudesse escolher, preferiria ser bela como as flores e ter asas como os pássaros.
Hoje, quando amanheci, me senti tocada por algo indescritível. Os pássaros voavam e cantavam, como sempre; o Sol iluminava a vida, como todos os dias; as flores estavam lá, como sempre estiveram... mas, eu... eu é que não sou mais a mesma. Minha amiga, do casulo de cima, disse que é porque estou velha e em breve irei morrer. Se assim for, espero não sentir nenhuma dor. Não quero o mesmo destino de algumas de nós, infelizes, que foram esmagadas pelas árvores-abrigo que tombaram pelas mãos do bicho-homem, o predador perverso e arqui-inimigo da vida.
A verdade é que, amanhã, talvez, não esteja mais aqui. O que me espera, não sei... Mas há de ter um lugar no outro mundo para uma lagarta honesta como eu. E quem sabe, se outra vida houver, eu aprenda a voar como um pássaro ou possa ser bela como uma flor.
Ai! Sinto me fraca... acho que é hora... Adeus, amiga árvore, adeus lindas flores, adeus belos pássaros, adeus, mísera e cinzenta condição... parto...  para onde, não sei... mas preciso sair daqui... este meu aconchegante casulo já não mais me serve... que dor de alma eu sinto!... ter de quebrar minha linda casinha... mas é hora... será isso a morte?... que estranha transformação... o que me espera...?   em breve saberei... “Um bel di vedremo...” Adeus...


Rio, 12/06/2006












Antonio Sciamarelli
Enviado por Antonio Sciamarelli em 08/07/2006
Código do texto: T189944
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Sobre o autor
Antonio Sciamarelli
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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