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Ion

O sol, tão perfeitamente moldado por artífice gigante do passado, esfera de fogo de brilho ofuscante, quando refletido na gélida  superfície do mar, encrespada pela gentil mas constante brisa da manhã, perdia a celestialidade fantástica e tornava-se mais um --- apenas mais um - efeito que a sua ciência mundana e corriqueira podia explicar. Podia vê-lo agora, não mais esférico, nem mesmo circular, mas alongado - ele diria elíptico, se a superfície líquida fosse completamente plana.

Tudo à sua volta --- tudo o que conhecia, conheceu e provavelmente, pensou, o que talvez um dia viesse a conhecer --- estava perdido,
sem retorno, onde o sol agora buscava inutilmente penetrar, até mesmo a sua imagem pálida e ondulante: nas águas do esquecimento. Ele sentia-se no entanto como aquela esfera de fogo. Talvez tudo o que o sol solitário gostaria de fazer --- todos os dias, desde e para sempre --- seria mergulhar , uma única vez, não importa, e saciar sua terrível sede, descobrir o que haveria de tão secreto e quais delícias escondidas por inimigo ignoto o esperariam nas profundezas. Mas ambos, sol e homem, eram mantidos à parte dos desejos; o astro, não se sabe porque ou por quem; o homem, pela fatídica e cruel lógica --- tudo estava perdido, nada volta do passado, ninguém reconstruiria o seu futuro come deveria ser, muito menos vindo da água escura e fria. Mas sua angústia ainda o tentava às vezes a procurar as ruínas e escombros da sua vida debaixo de toda a água, coral, molusco, sereia, tritão, deus de carruagem de prata, tridente, peixe, monstro, baleia, gigante, octópode, onda, espuma, tempestade; na placidez ou na tormenta do oceano.

Mas tudo o que ele sempre fazia era recolher seus poucos pertences
e voltar os pés à estrada, depois de instantes, minutos, horas, dias, apenas parado, estático, olhando, mirando não se sabe o quê, os olhos fixos, sempre em direção à água, sob chuva tempestuosa ou sol escaldante. Foi em um destes momentos de total inércia que o reencontrei, depois de tantos anos. Ion era o seu nome.

Eu, garoto imberbe, o conheci ainda jovem, com não muito mais de trinta invernos. Então ele era forte, pleno de energia, inspirando confiança e simpatia. Belo acredito que sempre foi, mas naqueles tempos não levava a tristeza que se apoderou dos seus olhos negros e nunca mais os abandonaram. Em seus momentos de desespero resignado, como eu viria a notar depois de rencontrá-lo na areia branca, costumava sorrir, um sorriso irradiante de melancolia, e dizer ``Tu, Gregório, és afortunado e não vês com meus olhos.'' Ao que eu lhe respondia ``Não, mas posso ver os seus com os meus, e posso imaginar como seria.'' O que mantinha seu sorriso por mais alguns segundos torturantes, e eu podia imaginar também o que pensava, quanta saudade, quanta tristeza lhe nublavam e emolduravam a visão. ``É, Gregório, sei que tu o podes, meu amigo.''
Luiz Eleno
Enviado por Luiz Eleno em 28/07/2006
Código do texto: T203889
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Sobre o autor
Luiz Eleno
São Paulo - São Paulo - Brasil, 40 anos
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