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Sobre o Livro da Isabelle

São três mulheres, mulheres e não homens, porque é inspirado e Ms Dalloway e Virginia é mulherzinha. Elas são três e tem idades diferentes, sete, vinte e dois e quarenta e três, que se fosse igual não teria muita graça.
Agora me acompanha e esquece o passado delas, elas não tem nem passado nem futuro, são apenas uma cena, três cenas, essas que você vê comigo, esquece que está comigo, esquece que são elas, pensa só na menina, Luzía, sete anos, cabelos cacheados castanho claro para traz, ao vê-la, sua imagem te remete à luz e velas e santidade, está de vestido branco cheio de bordados brancos, luvas e botinhas também brancas, segura um pingente de peixinho como o que Rebeca ganhou, percebeu a semelhança, não é? Mas esse livro não é inspirado em Garcia Márquez, é inspirado em Virginia Woolf, e eu tenho medo dela, sabia? Mas volte a me acompanhar, veja Luzía, anda com suas botinhas segurando o pingente de peixinho dourado com a mão direita, braços largados, olhar atento, ela procura se encontrar, mas não sabe disso, só quer perguntar, mas não solta uma palavra, suas perguntas estão presas na garganta. Agora que a imaginou me diga, atemporal, não acha?
Vamos para Lucia, está sentada, vinte e dois anos, juventude e beleza, mentira. É feia, feia e velha porque se acha feia e velha, também não pergunta, suas dúvidas se encontram num sorriso constrangido durante a aula de anatomia, não tem mais coragem de andar, por isso está sentada. Tem medo de subir, tem medo de cair, tem medo de vertigem, quem não tem? Cantarola baixinho, quer ser como uma bailarina, perfeita, mas ela é feia, feia e velha, eu repito, mas não adianta eu repetir, você não vai me acompanhar nisso. Você me reprime em pensamento:
 - A sociedade midiática não sabe mais o que quer. A mulher ideal, colocam-na lisa, brilhante, perfeita... imagino que não deva cheirar mal também.
Mas você não me diz isso, só pensa, você é reprimido como Lúcia, a observa: a mais linda das mulheres. Eu rio discreta, sei o que está pensando, exatamente como era Ana Karenina para o Godard. Nouvelle Vague, meu amor. Você a vê como a mais linda das mulheres e se fosse seu o relato deste livro, a veriam dessa forma também. Mas sabe, eu desprezo um pouco a Lúcia, besteira minha, só porque ela é uma ponte, sabe, isso me irrita um pouco, mas ela não deixa de ter seus créditos, possibilidades mais alcançáveis que as de Luzía. A criança é a fonte de energia do livro. A Moça é a de possibilidades. Porque a criança realmente, é o futuro. Mas ela não pode fazer muita coisa com sete anos. E isso não tira os créditos de Lúcia, que também procura se encontrar, mas já tem essa consciência e se sente frustrada e mal sucedida. Está tão perdida quanto Luzía, tem perguntas e busca em si a resposta e como as trocas mudam os rumos das pessoas.
Ah, claro, esqueci de dizer, o livro é de perguntas, dessas bem boçais e manjadas, mas que todo mundo se faz ou fez algum dia. Sei que deve estar pensando que vai ser cheio de interrogações e frases esdrúxulas, mas não, o livro é de perguntas, mas elas não necessariamente precisam ser feitas diretamente. Porque são como as suas, que como Luzía, Lúcia e Luísa, que ainda não entrou na história, as segura na garganta.
Poderia dar mais detalhes, mas a Isabelle ainda não me contou o resto da idéia.
Barbara Coimbra
Enviado por Barbara Coimbra em 04/09/2006
Código do texto: T232143
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Sobre a autora
Barbara Coimbra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Barbara Coimbra