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A ESPERA

Ela era sua primeira namorada. Seu coração batia forte quando pensava nela. Queria casar, ter filhos, dar-lhe uma boa vida. Sairia dali, iria para uma cidade grande, ganharia muito dinheiro e faria o casamento perfeito, afinal, ela merecia.
Naquela noite, ao se despedirem, tocou no assunto para ver a reação dela.
Quão maravilhosa era!
A sua resposta?
– Vá meu amor, te esperarei.

Ele foi, com a promessa de voltar para se casarem.
Ela, esperou o quanto pode...

Nada foi como ele pensara. Não arrumou emprego na cidade mais próxima e teve de ir para São Paulo.
Voltaria em um ano, que se tornaram dois, três...
Devido a angústia, começou a beber.

Nesse meio tempo, conheceu outra moça, linda, tão formosa quanto e... casou-se com ela.
Não deixava de pensar na outra. Tinha prometido voltar, mas amava a esposa.
O tempo passou, os filhos vieram; três: uma linda garotinha e dois meninos robustos.
Sua paixão era pelo menor. O mais parecido com ele em gênio, fisionomia e compostura.

Sua vida tomou outro rumo, os anos passaram rápido e a antiga promessa foi deixada de lado.

Certo dia, uma prima distante ligou e disse que tinha algo em que ele podia trabalhar.
Ganharia muito dinheiro, poderia voltar à sua cidade natal e, ainda, trazer a família.
Ele não pensou duas vezes, avisou a família que iriam partir.
Os filhos mais velhos, não quiseram ir, estavam estudando, fazendo faculdade, já trabalhavam e não iam deixar a vida que estavam acostumados para morar no Nordeste.
A esposa por sua vez, não podia deixar os filhos aqui. Tinha o seu trabalho e, como dava aulas, não podia simplesmente largar tudo para acompanhar o marido.

Ele, com aquela velha vontade de progredir, de ser alguém, sem notar que já o era para a sua família,  decidiu partir. Com a promessa de voltar para buscar a família, mais uma vez ele se foi...

O emprego prometido, não era o esperado. A política e seus tentáculos, tentaram corrompê-lo, sem sucesso. Era pobre, sem família perto, mas tinha a vontade de voltar. Pensava dia e noite nos filhos, na esposa e de como era injusta a vida.
De desgosto, começou a beber mais... e mais. Em pouco tempo estava desempregado.
Com vergonha de voltar para a família em desgraça, foi ficando e quando viu, trabalhava a troco de cigarros e de um lugar para dormir. Sua prima, que antes era tão amiga, agora o deixara por sua conta e risco.

Certo dia, recebeu a notícia de que sua mulher estava doente. Achou que não era grave.
Queria voltar com dinheiro, dignidade. E, foi ficando. Pensava e orava por ela sempre e dentro de si, sabia que algo não estava bem.

Tinha tanta vergonha de si mesmo, que ficou meses sem olhar-se no espelho. Envelheceu e não sabia.
Dinheiro seu? Há muito não sabia o que era isso. Tornara-se um garoto de recados de gabinete político. Que vida!

Acordou com alguém batendo na porta de seu quartinho. Era um telefonema para ele. De São Paulo.
Com o coração batendo forte segurou o telefone: - era sua filha.
Com voz estridente ela disse:
“Está satisfeito? Ela está morta! Morta! “
Mais uma vez ele pensou em como a vida era ingrata. Sua mulher falecera no dia de seu aniversário...
Petrificado, com o fone na mão, ouvia a voz da filha ao longe, berrando todas as tristezas pelas quais passaram. Deixou cair a ligação.

Bebeu durante dois dias, até desmaiar.

Sem dinheiro para pegar um avião e vir para o velório, preferiu afogar suas mágoas na bebida. Virou nada.
Em um momento de sobriedade, repensou sua vida. Tinha que parar de beber ou morreria.

Seguindo conselhos de amigos, começou a freqüentar reuniões do A. A. (Alcoólicos Anônimos). Em um mês estava sentindo-se melhor.
Em uma manhã, olhou-se no espelho e não acreditou no que viu. Á sua frente estava um velho de 70 anos. Demorou a relacionar a imagem consigo. A bebida o destruíra.
Sabendo que tinha de recomeçar e sem motivos para voltar, decidiu fixar-se ali definitivamente...


A convite de um amigo, resolveu ir a um baile da terceira idade. Tinha medo de sair e cair na tentação de beber. Juntamente com outros “A A”, resolveu divertir-se um pouco, fazia parte do processo de recuperação.
Procurou algumas roupas que ficassem bem, todas estavam largas, emagrecera muito. Encontrou uma camisa, presente de sua mulher. Lembrou-se do que ela falou no dia em que lhe deu:- “Essa, é uma camisa da sorte”.
Deu um suspiro e lembrou do rosto da sua gordinha. Mulher amiga, não merecia passar pelo que passou. Sozinha, enfrentara um câncer.
Mais uma vez, o arrependimento, a dor do remorso bateu em seu peito. Seus olhos encheram-se de lágrimas e pensou que nunca mais seria feliz.

No baile, junto aos amigos, dançou um pouco e ouvia as conversas sem participar. Ficava observando aquelas pessoas, todas unidas em um só objetivo: - parar de beber.
Estava neste devaneio quando seus olhos cruzaram com um perfil conhecido. Fixou os olhos para ter certeza. Não acreditou.
Ali, bem a frente, estava a sua primeira namorada. A mulher por quem apaixonara-se na adolescência.
Seus olhos se cruzaram e ela também o reconheceu. Sorriu para ele.
Tentou retribuir, mas não conseguiu. Não sabia mais sorrir e nem se lembrava da última vez que o tinha feito.
Ela caminhou em sua direção de mãos estendidas e com os olhos marejados.
Ele levantou-se e entendeu o porquê da sua camisa da sorte...


Este conto é baseado em uma história real.

CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 24/09/2006
Reeditado em 24/10/2006
Código do texto: T248463
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
25 textos (2985 leituras)
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CRISTIANE DONIZETE