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As gotas grossas da chuva batem no vidro da janela como a desejar estilhaços

As gotas grossas da chuva batem no vidro da janela como a desejar estilhaços, o mundo lá fora parece desabar sobre ímpias ruas numa faxina divina, desvia o lixo para as bocas de lobo de dutos entupidos que vomitam cachoeiras volumosas de volta para a estrada que agora, transformada em rio caudaloso, dá destino diverso às tranqueiras que as pessoas esqueceram de reciclar.

Na esquina, alheios ao trabalho árduo das nuvens, brincam dois meninos sob uma bica que desce forte do telhado do botequim. Por mais que me esforce em ouvir suas vozes, apenas as adivinho atrás do som absurdo dos trovões. Sei que se divertem e seus sorrisos viajam tranqüilos por entre o aguaceiro para pousar em minhas retinas cansadas e maior que a chama da vela bruxuleante por sobre a mesa, maior que os reluzentes raios que derrubaram a energia elétrica, maior, bem maior, me chega o brilho de seus dentes brancos.

Me sinto meio antiética a roubar a luz de pequenos seres que não se dão conta de minha existência, não sei bem se temo ser descoberta no flagrante do delito, mas o fato é que apago a vela e fecho as cortinas deixando só uma greta para que não me fuja de todo o esplendor da alegria, que ora me parece a única razão concreta para deus não dissolver toda sua criação em um imenso mar no planeta azul.

Tenho frio, eu, seca e agasalhada dentro de minha masmorra em formato de apartamento e os meninos não se importam, deitam no chão sob a força da água que jorra sentindo-se como se sob uma cachoeira belíssima de um grotão qualquer ao final de uma trilha longa e penosa.

Tenho pena de mim, eu, protegida pelo concreto caro revestido de belas cores e objetos decorativos, com certeza absoluta quanto às minhas refeições da próxima década, derreada sobre o confortável sofá, apreciando a brasa vermelha do cigarro pendurado em meus dedos, cujas cinzas emporcalham o assoalho, vez que não faço idéia de onde está o cinzeiro nesta escuridão cortada pelos flashes dos relâmpagos, qual a iluminação de uma danceteria.

Tenho pena de minha solidão, incapaz que sou de me juntar à alegria dos meninos que simplesmente brincam na chuva, tenho pena de minhas escolhas mal feitas e seus conseqüentes desastres perfeitamente catalogados nos arquivos de minha memória. Tenho pena de não ter energia elétrica que possibilite uma trilha sonora depressiva e infeliz para esta noite, uma música que me fizesse encher os olhos de água limpa e turvasse a visão dos meninos lá fora que ainda brincam. E brincarão pela eternidade, por que nada disso vai mudar, nem a posição torta que impus à minha cabeça para garantir a visão lá de fora mesmo com as cortinas fechadas, nem a posição torta que impus ao meu coração para garantir que nenhum incauto ouse invadir o imenso salão vazio de minha torpe existência.

Quanto de mim ainda se penitencia por opções canhestras? Quanto de mim se posiciona com armas em punho para defender minha atual zona de conforto? Quanto de mim permanece com o dedo em riste acusando por não ter tomado iniciativas e ter perdido oportunidades? Será proporcional ao tanto de mim que agora, mesmo sem a trilha sonora, verte litros d’água salgada apiedada deste ser que inveja a leveza dos meninos que brincam voando, batendo suas asas de anjo sob a doce chuva de maná que desce somente sobre suas cabeças? Sim, pois todo o mundo recebe chuva ácida à exceção daquele pequeno ponto sob a bica do telhado do botequim da esquina, onde dançam harmoniosamente dois seres etéreos iluminados de sorriso, que para quem não conhece, é a forma de luz mais pura que já se inventou.

Tenho impressão de que os meninos se foram, mas sua luz, de tão densa, ainda permanece formando desenhos no ar, ainda reflexo da atuação mágica que tive a presteza de surrupiar os poucos fios que me chegaram pela janela, me agarrando como a uma tábua para um náufrago, sem perceber que estava atada à pesada âncora da autocomiseração.

Fecho de vez as cortinas e corto a ligação com o exterior, até por que a energia voltou e a chuva passou e a televisão com suas imagens desconexas e seu som repetitivo, meio mantra, meio bate estaca, vai me levar ao sono dos justos, ao sono pesado e sem sonhos de quem se acostumou a entender o funcionamento das drogas lícitas sobre o próprio organismo e sabe perfeitamente que este excesso de sensibilidade é decorrente da sua absorção pela corrente sangüínea; de quem conhece bem a maneira correta de acordar de manhã para envergar a máscara e a armadura que duram exatamente o período de um dia.
Jane de Paula Carvalho Santos
Enviado por Jane de Paula Carvalho Santos em 14/10/2006
Código do texto: T263879
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Sobre a autora
Jane de Paula Carvalho Santos
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 49 anos
20 textos (703 leituras)
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Jane de Paula Carvalho Santos