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Corra

Os olhos estavam cheios de medo. Corria aturdido pelas ruas escuras e imundas do subúrbio que morava. Mal podia sentir o chão logo abaixo de seus pés, quão rápida era a troca deles. Parecia mais um velocista. O suor salgado escorria pelo seu rosto. A camiseta que já não era mais branca estava empapada de suor. Algumas manchas de sangue compunham a aterrorizante aparência do jovem. Nas mãos, o revólver com o tambor vazio que segurava com firmeza. Provavelmente o teria usado, mas não se lembrava. O pavor tomava conta da situação e apagara de sua mente o propósito da fuga insana. Algumas breves olhadas para trás para conferir a aproximação de seu perseguidor. Mas nada se via além das luzes dos postes que ele deixava para trás. Não subestimava a astúcia do inimigo. O medo aumentava. Ele corria ainda mais rápido. Só o som dos seus passos ressoavam em meio ao silencio. O cheiro de lixo dos becos em que se enfiara invadia suas narinas e confundiam-se com o cheiro de sangue seco do seu rosto. Os pés doíam, mas isso ele só constataria depois. Desfalecendo de pavor sem parar um minuto sequer de correr, traia suas pernas que chegavam a falhar. Tentava pensar, lembrar-se porque estava correndo tanto, mas não conseguia. O mundo parecia não mais existir, apenas medo. Sentia vontade de vomitar, mas não, não podia parar agora. Estava agora a poucos metros de distância de sua casa. Olhou mais uma vez em volta, desesperado. Demorou-se para encontrar suas chaves. O terror estava estampado em seus olhos lacrimejantes. Após alguns longos segundos, com as mãos trêmulas, conseguiu com algum esforço encontrar o objeto procurado. As chaves, naquele momento, pareciam não caber no buraco a ela destinado. Não conseguia conter o pavor. Alguns grunhidos de medo saiam da sua boca sem que ele pudesse controlar. Finalmente conseguiu abrir a porta. Mais uma olhada rápida para fora para se assegurar de que o perseguidor não estava lá. Batera a porta com força e a trancou. Subiu as escadas correndo de lado. Protegendo, ainda que na segurança de sua casa, a retaguarda. Afinal, não ignorava o fato de não estar sozinho ainda. O som do velho assoalho da escada só aumentava mais a sensação de terror que tomava conta dos seus sentidos, o anestesiando. Entrou em meio a tropeços no banheiro e exaurido fechou a porta. Recostou a cabeça na parede e finalmente respirou. Ainda não raciocinava. Foi até a pia, abaixou os olhos e lavou as mãos ensangüentadas. Encarou-se no espelho por alguns segundos e ao invés de ver seu rosto sujo e suado, viu sua namorada dando o ultimo suspiro com perfurações de tiros em todo o corpo numa cama de motel. Matara Giulia por ciúme e dizia agora a si mesmo em meio a um choro compulsivo: “Como fugir do mostro assassino que me persegue se ele está dentro de mim?”
Natalia Gregolin
Enviado por Natalia Gregolin em 21/10/2006
Código do texto: T269557
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Sobre a autora
Natalia Gregolin
Piracicaba - São Paulo - Brasil, 29 anos
9 textos (447 leituras)
7 áudios (479 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 20:01)
Natalia Gregolin