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Apenas 3 Amigos

Vejo uma imagem congelada de 3 amigos, 3 amigos sentados num bar, num bar com 3 mesas quaisquer, mesas acompanhadas de 3 bancos apenas. Não é nenhuma doutrina do 3, nenhuma superstição ou número da sorte. Era a verdade.
Na imagem congelada vemos 3 pares de olhos distintos, 3 pensamentos alheios e 3 caminhos diferentes. Parecia um recorte, cada qual de uma revista e unidos ao redor de uma mesa, como se faltasse sintonia, como se houvessem muitos vazios, como se a ausência da cor refletisse alguma melancolia. Os 3 pensamentos saíam da imagem e me apunhalavam de tal forma que dava para sentir a frieza dos corações. Eram 3 pensamentos distintos, 3 pensamentos de resignação, 3 pensamentos vívidos. Insinuavam que queriam partir dali e estarem numa imagem com melhor resolução. Os pensamentos faziam eco diante de tamanho silêncio nas redondezas da mesa. Um era como a batida das asas de uma borboleta, outro como um turbilhão de uma alta cachoeira e o terceiro como um vento daqueles inconstantes, ora forte, ora branco, ora desejado, ora medonho. E os pensamentos se misturavam e se cruzavam e se diferenciavam, como num bailar sem opção, como se costurassem um botão, como se caíssem e fugissem do chão. Os pensamentos estavam lá, rodeando os 3 amigos, dançando na mesa, segurando a atenção.
Os 3 amigos tinham seus olhos refletindo, cada par, uma emoção. Dentro de cada um ainda havia o reflexo do reflexo do outro, tornando o reflexo infinito diante de uma finita situação. Os olhos tentavam fugir de tudo a sua volta como se quisessem ser os únicos a ter atenção. Não havia os olhos já descritos nas literaturas. Eram olhos congelados que guardavam o seu passado. Seria possível descobri-los, mas ao começar já davam calafrios... cada qual com o seu olhar, cada olhar escondendo o do outro, cada olhar a olhar para um ponto absorto... Os olhares não bailavam, não ecoava, nem se insinuavam. Os olhares vagavam, vagavam e divagam, divagam e alfinetavam. Alfinetavam-se uns aos outros como se mostrassem indiferentes, como se revelassem superioridade, como se vivessem separados. Contudo, aqueles olhares não poderiam estar isolados.se não compusessem aquela imagem, de 3 amigos sentados na mesa, aqueles olhares seriam comuns, comuns a toda mesa de bar, comuns a toda descrição literária, comuns a todo olhar. Mas digo que não há obra a descrever aqueles 3 olhares, pois  cada um guardava a sua imensidão de expressões, cada um guardava um elo com o outro, cada um guardava a descrição  da descrição. Vejo os meus próprios olhos refletindo no deles...
No preto e branco da imagem, observo as expressões. Um sorriso de desdém, um sorriso sem pudor, um sorriso oculto. Sorrisos que não se encaixam numa mesma conversação, sorrisos que talvez sejam de mera ilusão, sorrisos pertencentes a uma cena sem iluminação. Eram sorrisos preto e branco congelando ainda mais a imaginação. Sorrisos de pura vaidade para não deixar no silêncio um vão. Sorrisos logo apagados por não terem nenhuma função. Eram sorrisos que escudavam os olhares, que se distorciam dos pensamentos, que davam um ato a ocasião. Eram sorrisos pálidos, sorrisos amassados, sorrisos sem nenhuma veneração. Eram sorrisos que não me tentavam, que não me prendiam, que não me acariciavam a imaginção. Talvez, por isso, chamavam a minha atenção. Os sorrisos contrastavam-se com as suas mãos, que por sua vez contrastavam-se com os pensamentos, que por sua vez também se contrastavam com todo o cenário.
Uma mão a apoiar um queixo, uma mão a brincar com o seu par, uma mão a repousar numa coxa que não precisa entrar em questão. O par da primeira estava fechado em absoluta resignação como se protestasse pelo recorte, preferindo estar num vão. O par da segunda relutava em parar de brincar para disfarçar a falta de graciosidade e a alienação no nada que habitava entre os 3 bancos. O par da terceira estava a procurava de uma posição, fingindo-se relaxada em busca de alguma distração. E os 3 pares de mãos compunham a imagem insossa de uma mesa vazia acompanhada de 3 amigos viviam algum segundo de imperfeição.
Lembrei-me que esta imagem representava apenas um segundo, apenas um clique, apenas um olhar entre duas sucessivas piscadas. E comecei a buscar o restante na imaginação.
  Vi um pingo cair sobre a imagem e ele inundar toda a encenação. Como podem as cores conceder tanta diferença a uma criação? A imagem congelada estava ficando menos fria, como se estivesse mudando a estação, como se a neve estivesse transformando-se em pétalas, como se o sol se descobrisse das nuvens. Eram ainda 3 amigos sentados numa mesa de bar, num bar não mais com 3 mesas quaisquer, mesas acompanhadas de não mais 3 bancos somente.
Os pensamentos agora brincavam, brincavam de se embaralhar, brincavam para se recriarem. Eram 3 pensamentos distintos presos por elos amigos que queriam ficar eternizados assim. Eram como uma suave sinfonia que ora transmitia harmonia, ora transmitia a eternidade de suas notas, ora transmitia a alegria da brisa sobre um jardim. Não eram os pensamentos de balbúrdias nem os de estrondo, nem os queriam fugir. Eram os pensamentos dançantes, coloridos, mutantes, de 3 jovens reunidos em volta de uma mesa de bar.
Seus olhares ganharam o brilho da vivacidade solar, ganharam o calor que queima só de pensar, ganharam o mistério da fase de sonhar. Ainda não podiam ser descritos, nem podiam ser comparados aos já detalhados pelos ilustres escritores, muito menos desintegrados da cena. Mas eram, agora, olhares venerados, olhares invejados, olhares que traziam à tona o sonho de ser jovem. Cada olhar guardava o olhar do outro, cada olhar refletia o reflexo do outro, cada olhar era o olhar do outro. E tudo isso tornava aqueles olhares pontos particulares que retinham a imensidão da cena, que refletiam a harmonia dos atos, que consagravam aquela mesa de bar. Os olhares ficaram registrados e registravam o momento tão singular daqueles 3 amigos que estavam ali a se olharem, a se compartilharem, a se entenderem só pelo olhar.
Os sorrisos eram longos; não, eram intensos; não, eram profundos. Eram daqueles que vêm da alma e deixam o caminho para esta sem que percebam, abrindo a porta para aquele que quer conhecê-la. Os sorrisos preto e branco transformam-se nas mais vivas expressões, não manifestas só pelos lábios, mas pelo ser ao todo. Eram sorrisos vibrantes, daqueles que estremece o espírito, que invadem a alma que enchem todos os vazios, até os mais tolos. Sorrisos juvenis. Sorrisos que não necessitam de nenhuma força para surgir. Sorrisos que isolam a mesa de tudo que está por ali. Eram simples sorrisos, mas daqueles poucos que já vi. As mãos estavam esquecidas, agiam por si. Se estava no queixo, era porque queria dar um ar de imperatriz. Se estava a brincar, era porque estava a se divertir. Se estava sobre a coxa, era para se preparar para a apresentação. Nenhuma estava fechada por resignação, ela tentava guardar o ar saudoso que tinha ali; nem desejava parar de brincar, era só seu joguinho para se descobrir; muito menos procurava relaxar, ela só queria registrar tudo que estava ali.
Tudo tomou cor, forma e jeito; gosto, cheiro e som; vivacidade, lógica e beleza. Eram 3 jovens amigos, sentados numa simples mesa de bar, vivendo uma história que poderia lá se encerrar, recortada por um clique da vida e interpretada de acordo com quem a olhar. Vejo os meus olhos ali brilhando e ouço a minha imaginação bailando com as outras e admiro o meu sorriso que não poderá mais voltar.
Éramos 3 amigos brincando de sonhar, tendo a mesa como um elo a nos cruzar. O 3 estou a guardar e a usar, pq sou só um que estava este momento tentando recordar. Os outros eu já não sei mais aonde encontrar, pode ser que os 3 ficaram congelados naquela mesa de bar, mas eu ainda os busco indo de bar em bar, de mesa em mesa, de banco em banco. Sempre o número 3 a lembrar.
Gabriela Ferper
Enviado por Gabriela Ferper em 22/10/2006
Código do texto: T270381
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Sobre a autora
Gabriela Ferper
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 30 anos
7 textos (361 leituras)
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Gabriela Ferper