Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A CURANDEIRA

 
A curandeira
Conto

É uma espécie de bruxa, médica, enfermeira e parteira. Todos os males são tratados à base de rezas misturadas com práticas ervanárias e outras de índole tão estranho que é quase impossível descrever.
Talha o sarampo como talha o ventre caído, as bruxarias ou a intricia, mas de todos os tratamentos o que parece mais rigoroso tem a ver com a zipla zeripela, mal crónico de pele que alastra até se tornar numa só ferida ulcerada por todo o corpo. Munida com uma caçoilita de barro onde mistura azeite, água pura e alecrim, procede aos importantes tratamentos. Mexe tudo, a seguir, com um ramo de carqueja vai molhando na punção e esfregando em cruz sobre o ventre do paciente ao mesmo tempo que cita uma oração:
... «de onde vens Pedro Paulo!? Venho de Roma! Que vistes lá!? Muita zipla zeripéla e muita gente morre dela! ...Torna lá Pedro Paulo e cura com água da fonte espargo do monte e sumo de lima...»
Faz este procedimento três vezes ao dia e durante nove. Cura os ougados confeccionando um bolo de farinha de milho e centeio em que previamente o paciente espeta os dedos das duas mãos na massa, quantos conforme a idade, deixando as marcas esburacadas que depois será comido pelo sofredor atrás da porta da cozinha. Detectar a ougadês é fácil. Esta doença é muito particular nas crianças pobres que vítimas da cobiça de um alimento mais rico, ficam com o cabelo espetado parecido aos pelos dos ouriços caixeiros. As bocas, devido à ingestão de alimentos ratados e deteriorados, abrem-se em chagas.
A senhora Maria, rosto enrugado pela eternidade da vida onde assenta uma boca meio desdentada e, a dar-lhe luminosidade, uns olhitos pequeninos a reluzir ao fundo que dão um resto de luz esta cara que já não sabe sorrir, é a protagonista destas práticas religiosas de cujo o conhecimento se perde na lonjura do tempo a dar consistência ao místico indefinível das crenças do povo. Esse rosto velho, espelha apenas o testemunho de uma vida repleta de trabalhos duros e muito sofrimento. Cobrindo o corpo seco, tem uma saia de merino muito velha revestida à frente por um avental de chita preto salpicada por pálidas florzinhas brancas. Na cabeça cobrindo parcialmente a cabeleira rara e embranquecida, um lenço negro amarrado na nuca e uma blusa também de chita escura a cobrir o busto, completam a indumentária desta mulher sozinha. Viúva há vinte e muitos anos, criou à míngua um bando de filhos. Para curar as bocas rebentadas, usa um tição em brasa que vai passando a curta distância da boca do paciente, em cruz, rezando esta oração:
-Bicho bichão, aranha aranhão, cobra ou cobrão, sapo ou sapão, bicho de qualquer nação, esturrado sejas tu como este carvão...»
E remédio santo, dois ou três dias a fazer esta prece e o doente fica curado. Também trata o Arejo e a Espinhela Caída, o Tresurelho e até os males dos ventres femininos infecundos, isto é mulheres que não alcançam. Umas benzeduras e umas ervitas e lá estão elas a parir em pouco tempo. Neste fantástico e complexo mundo, surgem muitas vezes situações verdadeiramente inacreditáveis e, é também frequente ver a senhora Maria em acções de exorcismo capazes de perturbar as pessoas mais crentes.
Foi a Ilisa que sucumbiu aos domínios prodigiosos do demónio que a atacou enquanto trabalhava no campo. Era só de ver aquele corpo adulto de mulher a subir oliveiras e pinheiros, a colocar-se na frágil extremidade dos ramos mais altos e dali dançar uma bailado estranho e patético e simultâneamente emitir uns urros que pareciam vir das profundezas dos infernos ao mesmo tempo que aquela boca espumava como boi em peleno esforço. Se caminhava em cima de lajes de pedra, estas estilhaçavam-se como se movidas por poderes ocultos. Despia-se em público rindo em gargalhadas bestas e nenhuma força de homem a conseguia deter tal era a descomunal força do seu corpo possuído. Tornou-se na consternação, no espanto e na dor do povo da aldeia que impotente perante semelhante desgraça se juntava em novenas e preces ao Senhor. Alguém mais atento ao triste desenrolar dos acontecimentos, chamou a senhora Maria que com uma serenidade impressionante enfrentou a criatura quando já movida por tresloucados instintos se refugiouno monte, junto no Poço Negro. Aproximou-se dela sem qualquer companhia e mesmo antes de chegar ao local já a Ilisa urrava como bicho encurralado e aquele som sinistro ecoava nos fraguedos da serra.
-Eis aqui a cruz do Senhor! Dizia a vidente em voz alta ao aproximar-se do sítio onde os berros se tornavam mais intensos.
- Aquele que se me opuser será destruído! Retira-te Satanáz, esta é a cruz da salvação e da vida. Deixa o corpo dessa mulher porque o Senhor o ordena!
Já muito perto da endemoninhada, estacou de repente e ergueu a cruz acima da cabeça enquanto com voz firme pronunciava uma oração:
- Por mando Deus padre, das três pessoas distintas e um só Deus verdadeiro, por mando da Virgem Maria e de todos os Santos Apóstolos Envagelistas, Patriarcas, Profetas, Mártires e Confessores, por mando de Santo Ubaldo Francisco, eu, criatura de Nosso Senhor Jesus Cristo, remida com o seu Santíssimo sangue e feita à sua semelhança em Vosso Santíssimo nome, te expulso Satanás e aos teus companheiros malditos que regresseis às profundezas dos infernos. Jesus, Jesus, Jesus, sede comigo e vinde em meu socorro. Jesus, Jesus, Jesus, mil vezes Jesus, sede comigo. Jesus valei-me, Jesus acudi-me, vinde em meu socorro. Sem voz nada posso fazer, acudi-me que com o vosso Santíssimo poder expulsarei o demónio desta criatura. Vai para o inferno, abarca a terra já. Retira-te Satanás que estás vencido, quebrarei as tuas astúcias com o Santo poder de Nosso Senhor Jesus Cristo. Retirai-vos fantasmas inimigos da natureza humana, eu vos esconjuro em nome de Deus e pelo poder do Santo Lenho da Cruz em que Nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado. Por esta mesma cruz eu te ordeno; retira-te Satanás fantasma inimigo de Deus e dos homens. Esta é a cruz do Senhor a cruz da salvação e da vida! O Senhor é invencível, o senhor é Rei!
Um silencio pesado sucedeu aos trabalhos da senhora Maria. Ninguém se aproximou do local receando o que de mal poderia acontecer não havendo portanto testemunhos que possam relatar a estabureda, o medonho estrebuchar da mulher aflita em terrivel agonia. Só depois viram junto à água do poço, a Ilisa caída como morta a respirar calma quando a vidente lhe colocou a mão sobre peito ao mesmo tempo que fazia o sinal da cruz.
Manuel Araujo da Cunha
Enviado por Manuel Araujo da Cunha em 02/11/2006
Código do texto: T280263
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Manuel Araujo da Cunha
Portugal, 69 anos
10 textos (740 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 19:42)
Manuel Araujo da Cunha