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Retalhos da minha infância.

Menina do interior, fui criada numa casa com um enorme quintal convivendo com plantas e animais. Também convivi com padres e feiras. Estudei durante anos no Instituto Nossa Senhora dos Anjos ( INSA). Pelo nome já dá para ver que fui educada para ser meiga e pura, uma verdadeira “anja”. Por outro lado, o fato de viver numa casa grande sempre cercada de irmãos, primos e vizinhos estimulou meu espírito de liderança. Das crianças da minha família eu sempre fui a que coordenava o grupo. Rodeada de colegas eu comandava as brincadeiras e travessuras.
No quintal de casa eu e meus amigos subíamos nas árvores para apanhar goiaba, mamão e araçá. Também lembro da guerra de jenipapo. Era uma brincadeira divertida, ficávamos imundos e felizes.
Foram muitas as cenas da minha infância que marcaram a minha memória, entre elas o cheiro do bolinho de farinha fritando na cozinha, o brigadeiro feito pela vovó Rosa e o primeiro beijo que dei escondida atrás de uma cortina. Lembro que eu tinha doze anos e fui brincar de “ pira esconde” com os meus primos. Eu e o Luizinho, que tinha a minha idade, nos escondemos juntos e lá aconteceu meu primeiro beijo. Eca! eu disse para ele: isso é horrível, você babou na minha boca. Porém, algumas semanas depois... eu já não achava horrível beijar na boca e não por acaso, a minha brincadeira predileta era “ pira esconde” .
Atualmente porém, de todas as cenas de minha infância uma tem estado constantemente presente no meu pensar.
Aos oito anos eu viajava de barco de Abaetetuba para Belém. De repente começou uma forte tempestade, seguida de uma grande maresia e o barco começou a jogar. Todos os passageiros ficaram agitados, uns choravam, outros gritavam, outros rezavam, mas todos corriam para o mesmo lado do barco. Parecia que a embarcação ia tombar. Fiquei apavorada e também desejei correr. Meu pai pegou-me pela mão e me levou para o lugar mais alto do barco. Com aquela tranqüilidade que lhe era peculiar colocou-me um salva vidas e disse: filha sempre que um barco ameaçar de afundar, afaste-se da multidão e vai para o lugar mais distante do tumulto, porém se veres que não há jeito pula o mais longe possível assim você evita o risco de ser tragada pela força das águas. Nós ficamos de longe observando a confusão. A tempestade passou e chegamos à Belém sãos e salvos. Eu desci segurando firme na mão do meu pai e pensando cheia de orgulho: este é o meu herói.
Até hoje todas as vezes que percebo que há risco de um barco afundar esse pensamento invade o meu coração e ouço a voz do meu amado pai dizendo: filha pula para bem longe para não ser tragada pelas águas.
Hoje faz trinta e dois dias que o meu amado pai foi viver junto a Deus. A minha saudade é grande, mas todos os dias recordo essa cena e entendi que o que ele queria me dizer é que nos momentos da vida em que há risco de afundarmos e preciso afastarmos tranqüilamente para esperar a maresia passar ou pular para bem longe da situação para não sermos tragados pelas águas da vida.

francineti – Quarta, 08/11/2006 – 18:26
Publicado no Poemas-de-amor.net/ V Concurso Literário

Francineti Carvalho
Enviado por Francineti Carvalho em 08/11/2006
Reeditado em 06/01/2007
Código do texto: T285735

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Sobre a autora
Francineti Carvalho
Belém - Pará - Brasil
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