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Desenhos na Parede do Poço

Era um homem irritado. E irritante. Acordava pela manhã imaginando derrotas e, à noite, voltava para cama com elas enumeradas e estampadas no semblante. Nesse ínterim, parecia fazer questão de mostrar que era um desvalido da sorte e que a vida lhe fora sempre uma constante inimiga. Jamais dizia sequer "mais ou menos" após lhe perguntarem como estava e era sempre "pior" que respondia, sem ao menos se lembrar quais foram as condições que descrevera, na última oportunidade, a quem perguntava.
Se se observasse com maior profundidade que aquela, vista em superficial auto-visão, perceberia que seu pessimismo já havia muito chegado à hábito e não imagem temporária de circunstâncias. Era um derrotado antes do início da luta, um perdedor sem ter iniciado o jogo, um cansado antes da jornada, um ultrapassado antes do tiro de largada. Trazia no andar vagaroso não a calma de quem sabe que chegará lá, mas a lentidão de quem sabe que morrerá sem ter chegado. Via no copo d'água uma colônia de bactérias, antes de chance de saciar a sede; no sorriso do amigo, o prenúncio da falsidade, antes de simpatia; na garoa profícua à limpeza do ar, a antevisão de tempestade.
Era poceiro, mas, antes de sê-lo, era poceiro sem amor ao que fazia. Jamais vislumbrara mães de famílias com esforços minimizados ao conseguir um balde de água ou a imagem de crianças se banhando nas águas, que seu esforço produzia ao furar poços. Havia perfurado centenas, milhares de poços ao longo da vida e nunca se visto como alguém cujo trabalho significasse alguma importância no seio social em que vivia. Lamentava constantemente a árdua vida que levava, acordando aos primeiros cacarejos, acompanhando o sol ou o frio por todo o dia, e deitando-se ao pique do luar. Nunca admirava a força do sol ou seus raios dourados refletindo a beleza da natureza, ou a força do frio expressando a intransigência do tempo, ou a grandiosidade das nuvens, ou a virtuosidade dos pássaros. Seus dias eram passagens de sua vida, apenas. Aliás, parecia não viver, mas passar; não existir, mas estar; não co-existir, mas compactuar.
Era poceiro, mas antes de sê-lo, era poceiro que jamais quisera ter sido. De dentro dos fossos, normalmente ouvia barulhos de carros andantes pelas ruas e, fosse qual fosse a qualidade do som que ouvia, era sempre um carro importado que imagina à frente do ronco ensurdecedor. Nunca lamentava não estar ao volante do carro, pois não se via em possibilidade de lá estar, mas lamentava sempre que o proprietário o tivesse conseguido e ele não. Quando se via ao espelho, mesmo após um demorado banho, seu reflexo trazia sempre o avermelhado da terra, o cansaço do esforço do dia, a impossibilidade de crescer.
Era poceiro havia muitos anos. Há árduos anos, teria descrito. Iniciava a escavação de um poço como se estivesse abrindo sua própria cova e parecia viver a vida como se em eterno buraco. Tirava a terra com movimentos sem ritmo e sem constância, intercalando-os com blasfêmias e lamentações, maldições e reclamações. Levantava a picareta com raiva e a descia com ódio contra a terra dura a seus pés e, naqueles átimos de segundos, vislumbrava sempre seu próprio corpo sob o golpe da ferramenta, sendo dilacerado com o fim de encerrar aquela sua vida sofrida.
Nunca conseguira manter um ajudante por dois dias seguidos. Ninguém suportava passar ao seu lado tantas horas de desconforto físico regadas a sua insipiência personal. Nem os próprios filhos, que preferiam outros rumos de trabalho, ainda que menos profícuos, a terem por companheiro alguém tão negativamente visionário. Assim, além de tudo, era solto à solidão.
Estava sob nuvens de incerteza, como sempre, quando aquele jovem se aproximou, e o fez lentamente, visto que, de longe, ouvira os impropérios do poceiro. Estava roto e descalço, corpo coberto de pó das ruas, unhas sujas, tralhas trazidas em rústico saco de estopa. Mas o semblante era leve, tranqüilo, brando. Sorriu ao homem dentro da cova ao perceber que era um trabalhador. O "bom dia" não teve eco e seu sorriso não teve reflexo. Mas permaneceu ali, observando a cena e captando todo negativismo do homem, que sequer levantou o rosto para olhar o garoto, quase uma criança.
Por minutos, quase hora, o menino ficou agachado à borda do poço, sorriso aos lábios, brilho aos olhos, amizade aos gestos. Mas sem correspondência.
Finalmente, após prognosticar problemas na insistência do jovem desconhecido, o poceiro olhou para cima e perguntou o que queria o rapaz. Trabalho. Somente trabalho. Poderia servir como ajudante em troca de comida. O poceiro gargalhou e mandou que se observasse, pois não teria força naquele corpo franzino nem para enrolar a corda com a qual puxaria a terra de lá de baixo. Que fosse andando, que procurasse outro lugar e encontrasse piedade em outras bandas. Ali, não teria.
O garoto sorriu também e disse ter gostado da gargalhada do homem, pois até então, pensava que ele tivesse algum problema nos músculos do rosto que o impedisse de sorrir. Voltou a oferecer seu trabalho. Tanto fez, tanto tentou, que o poceiro resolveu dar uma lição no menino. Deixaria que entrasse na cova e sentisse o peso dos esforços, pois assim, nos minutos seguintes, certamente pediria dispensa e nunca mais voltaria.
O rapazola alegrou-se e quase conseguira contagiar o agora patrão com sua alegria, num descuido da irritadiça personalidade daquele. Imediatamente, pôs-se a descer a cova, enquanto o poceiro subia para fora dela. Desceu cantando, assobiando e rindo, atitude que o poceiro considerou insana.
Se tivesse que analisar pelo corpo franzino, o peso da picareta seria demais para o rapaz. Mas o poceiro se surpreendeu com a vitalidade com a qual manuseava a ferramenta. "Bem, dou cinco minutos para esse pirralho começar a se desmanchar em suores e vertigens". E o garoto permaneceu por todo o tempo restante do dia, escavando o chão e jogando a terra para cima com a pá velha, cantando e quase dançando, a despeito do sobrecenho fechado do chefe. N'algumas vezes, o poceiro se irritava com a cantoria e piadas do menino, achando impossível seu comportamento. Como poderia alguém agir com alegria numa função tão dura e ingrata???!!! Devia ser louco. Um imbecil.
A noite abriu suas janelas e deixou a escuridão abraçar o local. O poceiro tinha ido até uma padaria próxima e trazido um lanche para o ajudante, "minha primeira refeição do dia", no que, obviamente, o homem não acreditou. O jovem apanhou o pão com mortadela das mãos do patrão, fitou-o profundamente e disse um "obrigado" que rasgou as estranhas do poceiro como um dardo lançado à queima roupa. O homem se desconcertou um tanto, mas não o suficiente para sorrir.
No dia seguinte, o poceiro encontrou o menino já a postos dentro do buraco, sentado no chão e olhando as paredes. Do alto, mãos à cintura, observou o silêncio do menino e se perguntou como podia estar ali tão cedo, depois de uma tarde toda de esforços. "Dormi na obra, senhor.”
Novamente, foi com sorrisos e canções que o menino expressou sua alegria no trabalho. Ao fim do dia, o garoto saiu do poço e vasculhou seus parcos pertences em busca de algo. "Um lápis velho que sempre trago comigo e um caderno amassado.”
Por três meses seguidos o garoto ajudou o poceiro. Por três meses o poceiro blasfemou contra a facilidade estúpida do menino em cantar, brincar, se esforçar. Quando a oferta de trabalho rareou, o poceiro despediu o alegre ajudante, mandando-o seguir o próprio caminho. Mas antes, quis saber dele o motivo de, em alguns dias, tê-lo visto parado por alguns minutos, sentado no chão, observando as paredes dos muitos poços que perfuraram naqueles meses. O menino apenas sorriu e disse que, se explicasse, o homem riria dele e não compreenderia, mas um dia, quem o sabia, teria chance de entender. Em seu jeito nevoado de ver as coisas, o poceiro não insistiu e se separaram.
Um ano depois, o poceiro estava na sala da casa de um grande arquiteto, no sítio de quem acabara a perfuração de um poço. Esperava o pagamento, sentado na rica poltrona onde a empregada o instalara, lamentando que o tal arquiteto tivesse tanto dinheiro e ele sem quase nada para viver. A vida era realmente ingrata. Sobre a mesa central, logo a sua frente, uma série de revistas sobre arte e arquitetura. Impaciente, apanhou uma delas e folheou ao acaso. "... hoje, um pintor talentoso, mas já foi um indigente e trabalhador braçal...", dizia uma submanchete ao lado de fotos de quadros, expostos numa conhecida galeria. "Arte", ironizou, "arte é coisa de vagabundos. Quero ver esses tais artistas com uma picareta na mão, criando calos". O texto da reportagem dizia que o artista havia concebido imagens estranhas, mas belas, que pareciam expressar a frieza de fatos em dissonância com realidades alegres e repletas de sensibilidade sobre beleza e técnica. O jogo de luz que consegue transportar para as telas é algo incomum num menino que nem chegou à maioridade. Suas imagens pareciam um relevo muito bem conquistado, como se fossem efeitos naturais de golpes que o acaso dá nas entranhas da terra. "Hum... como tem idiotas no mundo e espertos para enganar!!!".
E no exato momento em que viraria a página, onde veria a foto do artista e o menosprezaria por estar com belo sorriso rasgando o rosto, a empregada entrou com o cheque à mão. O poceiro fechou a revista e, sem agradecer, sumiu pela porta afora, deixando a revista aberta sobre a mesa da sala. Não tinha tido tempo de ler a reportagem toda, em que o jovem artista agradecia a um amigo, um dia, ter lhe dado um emprego de ajudante de poceiro. Sem saber, aquele amigo tinha sido o seu meio inspirador, a despeito de, por três meses, ele próprio ter tentado infrutiferamente mostrar ao chefe que, com sorriso e alegria, os olhos dos homens se abrem melhor e captam mais amplamente as oportunidades que a vida oferece.
Serg Smigg
Enviado por Serg Smigg em 10/11/2006
Código do texto: T287189
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Sobre o autor
Serg Smigg
Caieiras - São Paulo - Brasil, 58 anos
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