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Conto de moça

        O sol nasceu e o galo cantou mais uma vez.
Os olhos da moça abriram mais uma vez, mas não como todos os dias. Abriram olhos de moça, que até ontem eram de menina.
O pensamento fugidio, assim como o olhar dos olhos recém abertos, navegava pelos momentos vividos. Viajava, também, pelas palavras que um narrador de história infantil dizia com aquela voz suave e acolhedora.
A moça levantou-se e espreguiçou-se, mas não como todos os dias. Ela calçou a pantufa que a vovó fizera para seu ultimo aniversario, e levou seus olhos até a cozinha.
A avó tinha sabedoria de avó, carinho de avó, e dotes de avó mineira. A senhora tinha cabelos brancos e um coque alto, com uma ou duas mechinhas do cabelo grisalho atrás da orelha. Usava um colorido desbotado com um broche sofisticadíssimo para sua época, que só as velhas comadres sabiam o quanto. O saiote ia até o joelho de um tecido quase brim e os chinelinhos, por suas mãos criados, estavam no pé sempre que estava dentro de casa.
Assim, como de costume, a avó servia o cafezinho, o leitinho, o queijinho, o pãozinho, o pãozinho de queijo, a manteiguinha da roça, a faca, a colher, o mel, o açúcar... E a moça sentou-se. Sentou na cadeira de costume, e como de costume passou a manteiga no pão, levou o pão à boca, colocou o café no leite e tudo no copo. E bebeu do copo.
Porém, não olhou para a avó como de costume.
A avó tagarelava com a voz trêmula e extrovertida as palavras de estranheza: “Eita menina, que má criação é essa? Não dá bom dia, num pede benção, não olha. Num ta vendo eu e seu avô aqui não?”.
A moça, desconfortada,  acordando de uma viagem, e inebriada por sentimentos que ainda desconhecia o nome, respondeu a avó: “Desculpa! Bença, vó! Bença, vô! Bom dia...”
O avô, que de inocente já não tinha nada a muito, fitou os olhos confusos da neta e cantarolou pra si: “(...) só vive suspirando, sonhando acordada ...”. E ainda, não satisfeito, resmungou baixinho: “Daqui a pouco, ela só quer, só pensa em namorar. A gente tem mesmo é que segurar a menina”.
A moça não ouviu nada, (na verdade, mesmo que fosse dito algo alto, dificilmente a garota iria escutar), e a avó fingiu não ter escutado.
Depois do café mal tomado, a moça não ajudou a avó como de costume.
Ela desceu as escadas que levavam à pequena lavoura e dirigiu-se à laranjeira. No corpo da arvore, sangravam os cortes. Foram talhados nomes de duas pessoas, e, totalmente por coincidência, era um de menino, outro de menina.
A menina derramou uma lágrima,  era tristeza, ou não. Mas o que seria, então?
Logo estava dona Maria aos berros. “Onde estará essa menina”. No pensamento da avó não corria nada, meio que de propósito.
A moça deixava a poncã cair do cesto facilmente. Não estava colhendo laranjas como antes, não estava brincando no laranjal como antes. Também não estava subindo nas árvores; chupava os frutos que estavam nos galhos próximos.
E a moça terminou o serviço como sempre, ajudou a avó quase como sempre.
E foi tricotar...
Marry
Enviado por Marry em 30/07/2005
Reeditado em 08/08/2005
Código do texto: T38833
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Sobre a autora
Marry
Caçapava - São Paulo - Brasil
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