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Você já tentou varrer a areia da praia?

Você já tentou varrer a areia da praia?

Já?
Eu não. Mas por quê eu varreria a areia da praia? Eu acho que não tenho motivo pra fazer isso, não tenho mais como. Há muitos anos, muitos mesmo, um amigo me disse teu problema é mulher, e eu na hora disse é, pode ser; mas não é não: meu problema é esse troço que faz tum-tum no meu peito, essa coisa desobediente de esporas, que chia por qualquer coisinha, essa, essa coisa indecisa que manda e desmanda na minha vida – o marca-passo.
Sofro do coração e há tempos que ele não anda funcionando direito, e aí eu entrei na faca. Sou movido à bateria. Tem um fiozinho que sai de dentro de mim, ligado a uma caixinha que faz um zunido esquisito. Pra parecer mais humano, eu digo que é tum-tum o som que ele faz. Só que o queu tenho no peito é um ar-refrigerado. E de tempos em tempos eu vou ao técnico, digo, ao médico pra que ele veja como vai o aparelhinho (é, como eu vou não interessa) e pra queu tenha minha vida mais uma vez regulada por remédios caros e intragáveis, vão esticar sua vida, ele diz, e eu penso pra quê, se eu não posso fazer nada. Odeio pombo, então não vou ficar em pracinha nenhuma enchendo o papo desses bichos, como ele sempre me recomenda, aquele cretino, e muito menos vou ficar passeando por aí sem rumo só porque ele diz que é saudável e vai me fazer bem. Pode é me fazer mal, isso sim, posso ser assaltado, atropelado, agredido por ser judeu, por ser preto, por ser Fluminense, por ser mulher, por ser pobre, por existir; assim eu penso, eu sorrio com malícia de velho, concordando com tudo o que ele diz. Me passa uma receita de fazer inveja em lista telefônica, aperta minha mão sem força, por ser ele um sujeito fraco por natureza, e os dentes ele me mostra mecânico pra me agradar, aqueles dentes de quem fuma e bebe café feito uma praga. Vai ficar careca cedo, eu percebo também, e dou tchau sem desgrudar os olhos do alto da sua cabeça, e ele nota e fica constrangido. Ponto pra mim.
Do lado de fora a Maria pergunta como foi, eu entrego a receita pra ela, e ela me diz normal como sempre meu velho. Eu sou o velho dela, porque a vida dessa mulher é cuidar de mim, sou a sua distração de todas as horas. Meu problema nunca foi mulher, e depois de velho eu virei problema pra minha mulher, e isso me irrita mesmo sendo casado com a Maria. Não fazemos sexo desde 199...não interessa desde quando, não fazemos nem me lembro direito qual foi a última vez. Não nos despimos na frente do outro, a velhice não permite mais. Besteira.
Nossos filhos às vezes ligam, gastam preciosos minutos de suas jovens vidas com uma atenção queu não vejo muita utilidade. Estamos vivos, ainda, e ocupando a casa que um dia, quando já não estivermos por aqui, será alvo de disputas e desgraças. É o queu acredito que vá acontecer porque conheço meus filhos. São iguais a mim. O atavismo crônico não deixa negar a raça.
O que eu faço dentro de casa? O que converso com a minha Maria, minha enfermeira? Tenho algum hobby de velho? Quem são meus amigos, a velharia que joga tranca na pracinha e bate papo com os guardinhas municipais do bairro? Só ouço um zunido horrível, o tempo todo, e não consigo pensar em mais nada. Sou um velho que quer morrer, mas a idéia de morte pra mim é inaceitável, me revolta a simples imagem dos urubus que pari rodeando nossas carniças, alimentando os filhotes e todos destruindo suas vidas logo a seguir. Não sei.
Nunca tentei varrer a areia da praia, covardia, indecisão talvez, ou tempo queu sempre achei que tinha de sobra, e motivo forte também. Meu problema jamais foi mulher. Eu sempre fiz parte do problema, porque nunca tentei me emendar, sempre fui fraco, quebradiço. Sem amor, com amor, tanto faz, se a gente não dá um sentido mínimo pra coisa. Fazer por fazer é  perda de tempo que não volta, é grão perdido.
A areia da minha praia fica lá, indo e vindo com as ondas poluídas, com o vento forte e abafado, com os pés molhados dos banhistas.
E eu fico aqui esperando a minha pilha acabar.
Marlon Magno
Enviado por Marlon Magno em 20/08/2005
Código do texto: T43874
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Sobre o autor
Marlon Magno
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 35 anos
7 textos (457 leituras)
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Marlon Magno