Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A morte

A Morte

Emerenciana odiava a Morte. Apavorava-se a cada ano passado, certeza de primaveras a menos a contemplar. Com infeliz monomania, vivia a tentar evitar o desfecho final: não movia um músculo que não fosse necessário aos seus oitenta anos, gastava os dedos no correr do terço, não evocava jamais o nome da Maldita; acordava sobressaltada, quando dormia, bradando alegres toadas quando se descobria ainda viva. Oh, não, não temia morrer: temia a Morte. A ela se revelava como feia Senhora, em trajes andrajosos, exalando miasmas fumacentos de dentes podres.
Da água duvidava: a comida, o gato provava antes cada prato que se lhe punham nas mãos.
_Velha esclerosada!, bradavam as sobrinhas,
_Vai morrer amanhã, velha!, zombavam os moleques a passar.
Emerenciana estertorava:
_Não morro pela Morte, mas antes por mim mesma!
E guardava carinhosa um frasco pestilento no debaixo da cama, continente de letal veneno:
_Quero ver se a Maldita me vem buscar! Não me acha esperando!
E assim vivia cismando, trazendo louca a sobrinhada,
_Veremos se a velha louca não vai ser um dia enterrada!
Pois em uma noite tranqüila, Emerenciana deitou-se com vagar e cochilou sonhando com o acordar tão viva quanto nós outros; despertou aterrorizada com a Morte assombrando os cômodos:
_Emerenciana!
Tremeu; levantou-se de pulos e bradou:
_Desgraçada! Vem então me visitar!
Acocorou-se e tomou do frasco mortal, e levou-o aos lábios.
_Emerenciana!
E então a Morte se apresentou na porta aberta: oh!, que choque levou a pobre velha! A Morte era muito diversa do que havia sempre imaginado.Trajava longas vestes brancas, suas mãos eram brancas, e sua cara era hediondamente branca. Apenas os olhos verdes, de verde adorável, piscavam naquele rosto sepulcral.
_Emerenciana!
_Vê, Infeliz, se conseguirá me pegar!
E tomou de um gole o líquido fulminante, caindo em espasmos horrorosos, levantou, dobrou, gemeu; morreu em agonia triste.
A vizinha acudiu aos gritos tremendos que começaram a vir da casa de Emerenciana, encontrando em prantos e tremores a sobrinha da velha em roupa de dormir, máscara de beleza e lágrimas surpresas:
_Que se passa?
_Tia Emerenciana se matou! Tia Emerenciana se matou!...
Alexsandro Sgobin
Enviado por Alexsandro Sgobin em 08/09/2005
Código do texto: T48845
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Alexsandro Sgobin
Sumaré - São Paulo - Brasil, 41 anos
1 textos (92 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 00:34)
Alexsandro Sgobin