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Ela não queria

Ela não queria, mas mesmo assim ela foi. Passou batom, rímel e blush. Vestiu o pretinho básico combinando com os brincos e a gargantilha de prata que há tempo estavam guardados na caixa de jóias, esquecida na gaveta da cômoda, assim como esquecida estava a vida, perdida em algum lugar que ela não se lembrava aonde. Por muito tempo procurou, pelos cantos da casa, pelos cantos do corpo, pelos cantos da alma. Foram muitas as tentativas que ela fez, se desdobrava na busca, e cada vez mais se perdia no labirinto que se formava a cada tentativa. Cansou. Parou no tempo, seu tempo parou. Choveu, o vento levantou as folhas secas no outono, ela viu pela vidraça da janela quando elas se foram, no redemoinho que se formou. Quando veio o sol, fechou os olhos, não suportava mais a claridade, queria a sombra. Fechou a janela, puxou as cortinas, fechou a vida, chorou o pranto solitário, seco, sem lágrimas. Esperou pelo outono, pelas folhas forrando o chão em frente à sua janela, e foi assim que ela viu, numa tarde chuvosa em que a solidão estava inquieta, como se precisasse se libertar, fugir dessa mulher que a mantinha trancada a sete chaves junto com seu corpo. Quando abriu a cortina, ela estava lá... os olhos entristecidos denunciavam dor, pesar, alguma coisa ela tem, pensou que, talvez, tivesse sofrido alguma decepção, uma perda nos deixa assim, sem cor, sem forma, estranha... e era assim que ela se via, refletida nos vidros da sua janela fechada. Suas mãos seguravam as bordas da cortina e era como se agarrasse a si própria, para que não fugisse do momento em que via sua imagem transparente, se confundindo com o redemoinho das folhas que subiam com o vento. Há quanto tempo? Ela se perguntava enquanto as folhas vinham ao seu encontro, batiam na janela, na imagem do seu rosto. Soltou da cortina uma das mãos, e lentamente puxou a presilha dos seus cabelos, com um movimento balançou a cabeça e eles se soltaram, ameaçou um sorriso, lentamente sorriu, e viu que ainda podia sorrir. Percebeu que ela estava lá, aprisionada dentro de si mesma estava a vida que ela acreditava perdida. Quando a noite chegou ela foi ao quarto, conferiu as horas e viu que ainda tinha tempo, se vestiu, se enfeitou, se pintou, se viu bonita. Antes que batesse a porta, olhou para dentro de casa e sentiu vontade de voltar, sentiu medo de se mostrar. Ela não queria, mas sabia que era preciso viver, sabia que era questão de querer... então ela foi.
Cristina Nunes
Enviado por Cristina Nunes em 07/11/2005
Código do texto: T68225

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Sobre a autora
Cristina Nunes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
421 textos (32644 leituras)
9 áudios (1002 audições)
2 e-livros (97 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 18:56)
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