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A Morte É Um Mistério, O Sepultamento Um Segredo

   Mais uma vez ela estava em seu quarto. Sozinha. Rezando para que a escuridão não a abandonasse, já que nada mais parece lhe pertencer.
   Nos corredores escuros de sua mente, ela bate de porta em porta na busca de respostas. Descendo e subindo pelo elevador da insanidade, nesse castelo sombrio chamado passado.
   As lágrimas parecem queimar sua pele, como se não fossem liquidas, mas sim etéreas, de modo que a fizesse sentir-se mais estranha do que de costume. O seu corpo exala um calor flamejante que se une a uma sensualidade sutil.
   Amor. Ódio. A tênue linha entre o amor e o ódio, agora divide o seu coração... Mas ela não sabe qual o lado certo a escolher...
   O corpo, antes imóvel, exceto pelos soluços que quebravam o silêncio e as lágrimas que interferiam no caos ordenado daquele lugar, começou a se mexer.
   Do meio da escuridão, moveu-se até a porta por onde poderia sair desse seu mundo secreto... Ou não...
   As mãos moviam-se pelo ar, indo de encontro à maçaneta. Um movimento. A porta estava aberta. Agora a luz parecia lhe cegar. Uma escuridão branca. Os pés se movimentavam cortando o ar à sua frente, penetrando em um mundo que agora começava a tomar forma.
   Olhos verdes que se acostumavam com a claridade, começavam a entender melhor tudo à sua volta. A casa, aparentemente vazia, parecia encolher-se à sua volta. Caminhou ainda com cuidado, pois os olhos ainda não haviam se acostumado com a claridade que domina a escuridão.
   Das trevas para a luz.
   Estava agora na sala de estar. Nas paredes, quadros estranhos e não muito interessantes. Arte completamente inútil, como já dissera Oscar Wilde. Um piano. Um rádio. Uma TV. Um DVD. Um Home Theater. Maldita tecnologia que separa os seres humanos? Talvez sim. Talvez não.
   Olhando à sua volta, ela sentia um conflito de emoções dionisíacas e apolíneas, mas não sabia se eram somente alucinações. Poderiam ajudar-lhe a ocupar seu cérebro paranóico?
   Os olhos agora pareciam negros. Tão negros como se a lua se tornasse como um saco de silício. Mr. Hyde? Talvez sim. Talvez não.
   Em uma das mãos, segurava um porta-retrato, mas foi a outra que cortou o ar e encontrou-se violentamente com a outra foto, enquadrada e de pé em cima da mesa. Sangue.
   A boca agora ia de encontro à mão sangrenta. Saboreava-se com seu próprio sangue. Uma autocomunhão do seu corpo com seu espírito.
   Agora, os olhos pareciam não ter cor. Mais uma vez, as lágrimas transbordavam turvando sua visão. Não queimavam mais sua pele, mas líquidas, apagavam o calor flamejante do seu coração, enquanto rolavam pelo seu rosto pálido e pingavam sobre o seu peito.
   O corpo mais uma vez movia-se através do ar. Os olhos já haviam se acostumado com a luz, mas estavam prestes a deixá-la e penetrar em um outro mundo já conhecido. Teriam que se acostumar novamente com a escuridão que domina a claridade.
   Da luz para as trevas.
   Já que nada parece lhe pertencer, ela reza pra que a luz não a abandone. Sozinha. Mais uma vez ela estava em seu quarto.
Alencar Moraes
Enviado por Alencar Moraes em 19/11/2005
Código do texto: T73591
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Sobre o autor
Alencar Moraes
Espírito Santo do Pinhal - São Paulo - Brasil, 29 anos
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