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Amores Brutos #1

Acho que foi naquele dia de chuva que eu entendi. Eu estava molhado até os ossos, tossindo, num puta mau-humor e ela dançava despreocupada e feliz na minha frente. Parecia uma afronta sabe? Como quando um gurizinho se chafurda na lama feliz só pra horrorizar os pais. Fiquei puto, queria poder esmagá-la, mas não podia e teria certeza de que ia me arrepender. Não eu nunca bati nela, nem quando ela veio com aquela história de um outro cara, o playboyzinho da Zona Sul, fedendo a desodorante Nivea, metido a artista. Mas, ao bem da verdade eu acabei com ele: duas facadas bem dadas na altura dos rins. Aquilo me fez sentir bem, dessa vez era eu quem estava afrontando saca? As pessoas me olhavam talvez com a mesma cara que eu olhei para ela naquele dia de chuva: uma desaprovação.

Ela me disse que eu havia sido bruto, que nada. Respondi que brutalidade seria se eu tivesse arrancado os bagos dele e depois pregado na testa. Ele sobreviveu, claro, não teve coragem de prestar queixa e nunca mais aparaceu nas minha vida e na dela. Depois disso as coisas mudaram, ela se irritava comigo o tempo todo: era como se eu sempre estivesse fazendo a coisa errada.

Foi assim quando eu cheguei bêbado em casa. Ela estava lá me esperando aos prantos - ela que nunca me esperou - disse que eu era um insensível, um grosso, que eu não amava ela. Não, ela não entendia o que eu sentia: aquele misto de vontade de sair na mão com 70 caras maiores que eu misturado com a de cuidar dela, de colocá-la pra dormir do meu lado.

Eu amava ela sim, de um jeito intenso pra cacete. Mas ela nunca entenderia nada do que eu sentia. Pra ela era fácil sabe? Era o meu dever de homem, de macho, protegê-la. Eu tinha que ficar vigilante, era minha a responsabilidade de não deixar acontecer nada. Como daquela vez que eu quebrei a cara daquele cara na festa da faculdade - eu sabia que ele tava afim dela, podia acabar agarrando ela qualquer dia. Escrevi no rosto dele "Em mulher minha ninguém põe a mão", mas tive que pagar a cirurgia no nariz. Devia ter pagado o médico pra marcar a cara dele com um bisturi.

Mas naquele dia de chuva, em que eu tava puto, foi que saquei. Era isso que ela sentia de mim: achava que eu brigava só pra horrorizar. Não era verdade, acho. Naquele dia a gente terminou. Perguntei se era por causa de outro cara, ela respondeu que não, e eu sabia que não era. Tava na hora mesmo das coisas acabarem, tipo filme, quando passa os créditos significa que tá na hora da gente levantar da cadeira. Eram os créditos da nossa história porra! Talvez ainda viessem aquelas cenas de depois, mas elas eram curtas.

Ela foi embora. Tava livre, acho.
Rafael Santos
Enviado por Rafael Santos em 22/11/2005
Código do texto: T74646
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Sobre o autor
Rafael Santos
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 34 anos
6 textos (175 leituras)
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Rafael Santos