Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A eterna lucidez das sombras

Acordei com a claridade da manhã refletindo em meu rosto. Abri a janela e deixei o sol entrar, iluminando assim a mobília. Eu não sabia, mas esta era a última vez em que eu veria a luz do sol e que sentiria o calor do amanhecer em minha pele.
Saí de casa para trabalhar, e quando eu estava voltando já era tarde da noite. Passei por uma rua, perto de uma viela, tudo estava deserto e escuro, droga, como eu odiava ter de trabalhar até tão tarde, sempre morria de medo de que alguém me seguisse, ou até mesmo me assaltasse.
Tudo aconteceu tão inesperadamente que eu quase não senti quando aquele vampiro, sedento por sangue, me agarrou, mordendo rapidamente meu pescoço; ele sugou minhas veias, fazendo escorrer sangue por meu corpo, parecia que ele estava faminto há muitos séculos.
Acordei no meio da noite e, não sei como, eu estava em uma cama estranha, deitada em lençóis de seda; era tudo tão impressionante, que nem eu mesma conseguia acreditar no que eu estava vendo ou até mesmo sentindo. Era uma sensação ao mesmo tempo boa, incrível e aterrorizante, que me senti desprotegida. De repente, a porta de madeira pesada começou a se abrir, fiquei olhando espantada, e um rapaz lindo apareceu. Ele trazia em sua mão esquerda um castiçal portando sete velas, e na mão direita uma espécie de corrente tendo um pingente bem no meio, era um medalhão. Ele estendeu o medalhão para mim, mas eu senti um medo súbito e dei um passo para trás, como que procurando um lugar para tentar me proteger.
Ele chegou mais perto de mim, e me disse, quase que num sussurro:
- Não tenha medo inocente criança, eu não irei lhe fazer mal algum.
Eu não sabia o que dizer, acho que estava sem fala, talvez até mesmo em estado de choque.
- E... E.... Eu não estou com medo algum...
- Está sim, não tente me enganar, eu posso ler a sua mente e sentir o mesmo que você sente nesse exato momento, não se preocupe tudo ficará bem.
Senti-me mais assustada ainda, não sei se era pelo modo de ele falar, ou de me olhar.
Ele se aproximou mais, eu gelei, ele me estendeu a mão, e fez um gesto para que eu desse minha mão a ele. Estiquei meu braço, fazendo assim minha mão chegar até a dele, que a pegou com leveza, com ternura, e foi me conduzindo para perto de seu corpo. Pegou o medalhão e enquanto o colocava em meu pescoço, ia dizendo:
- Este medalhão irá proteger você de qualquer mal que tente te atingir.
Eu pensei que devia ter este medalhão antes de ele ter me mordido.
- Eu não pensaria isso se fosse você meu anjo das sombras.
- Mas eu não disse nada!...
- Mas pensou!...
Achei incrível o poder de ler a mente das outras pessoas. Aquele era um vampiro de muitos séculos, e ele disse-me que quis dar-me esse dom, pois eu era a pessoa certa, a escolhida, e saberia como usá-lo, não apenas esse, mas também muitos outros que ele iria me ensinar com o tempo.
Já se passaram pelo menos uns três séculos desde que isso aconteceu, e eu ainda posso lembrar daquela última manhã em que eu o vi, e daquela noite em que fui transformada em uma criatura noturna. Aprendi tudo o que podia, meu mestre me ensinou cada coisa que sei hoje, eu ainda moro na mesma casa que antes, só que com muitas mudanças, meu trabalho é só noturno, não tenho que me esforçar muito para realizar minhas atividades econômicas. Esse dom, o dom de “viver” eternamente, o de ser uma criatura da noite, das sombras, e até mesmo da morte...
De nada me arrependo, de nada tenho saudade, apenas queria ter aproveitado mais quando eu podia ver a claridade, a única coisa que eu queria novamente era sentir o calor do sol sobre o meu corpo e a penetrar em minha pele humana.
Minhas noites serão eternamente lúcidas, relembrando meus dias de “vida” humana, e caçando implacavelmente, sem piedade alguma ou sem qualquer culpa ou remorso, minhas vítimas pela calada da noite, escura e perdida em algum lugar do tempo, que já não quero mais recordar. Enfim, serei eternamente uma criatura imortal, com fome de sangue e saudade do calor dos dias em que eu podia sentir a luz do dia clarear minha visão e meu corpo ainda “vivo” e humano. Eu serei uma vampira sedenta por sangue por toda a eternidade de minha solitária existência sanguinária.
Lilith Góthica
Enviado por Lilith Góthica em 10/12/2005
Reeditado em 05/06/2007
Código do texto: T83774

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Lilith Góthica
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 33 anos
240 textos (31366 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 18:36)
Lilith Góthica