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DESEJO INCURÁVEL

"Conto dedicado a corajosa e guerreira, Valquíria. Obrigado por me conceder sua amizade."



No dia da padroeira da cidade de São Paulo, lá estava eu com o meu melhor vestido, aquele de seda, da minha indumentária, era o mais valoroso, com belo caimento e requinte; na Catedral da Sé, era eu quem mais chamava atenção e, apesar dos meus catorze anos, tinha adornos bem pertinentes. O nome da Santa eu desconhecia. Tomara que seja Santa Joana, junção de meu nome e como minha mãe quer que eu seja: bonita e pura, vaidosa com modéstia, corintiana e fiel.
O que desejava, de toda minha vontade, era ser uma artista, não que quisesse ser conhecida de todos, seria discreta, porém, com obras vendidas.
Vivo com a solidão, gosto de ficar em casa preferindo pintar o 8 a sair: O número oito é místico e dúbio, em pé é material, e deitado é infinito como meus pensamentos. Não que seja de toda metafísica, só acho que, qualquer um para ser artista, tem de estar com um pezinho no outro mundo.
Minha mãe levava-me todo domingo à igreja, pois, além de única folga, era de largo, um dia especial; acima do altar morava a padroeira, tão imponente e majestosa, adorada por ter abençoado variedade de filhos seus, adoentados por inúmeras enfermidades diagnosticadas como incuráveis.

O domingo é legal, porém, gosto mais da vida útil.

Ah! Como amo estar em casa ensaiando os meus primeiros passos no degrau do reconhecimento de obras feitas. O começo é sempre no espelho, é onde me divirto e alegro também o próprio vidro com minhas caretas e falas engraçadas. A maquiagem, uso de minha mãe, ela não vai ligar mesmo, hoje em dia está mais preocupada com os trabalhos eclesiásticos, já se foi o tempo de vaidade, perdeu-a após os dezoito anos, e aos trinta e dois, acha esses desejos mundanos, não pertencem mais à sua alma. Isso é fácil de compreender, foi exatamente à idade de meu nascimento, no mais, os sintomas de hereditariedade por si só se explicam.
Dona Clara, esta que me deu a luz, é filha órfã e mãe solteira, tem hoje elevada moral e estima no bairro da Mooca; sua atitude de não ter me abandonado aos seus dezoito anos, na sua plena jovialidade e cheia de predicados físicos, num momento crítico, após meu pai ter se afastado por falta de suporte psicológico, originou extrema comiseração na rua Matarazzo. Seu João ajudava nos trabalhos de parede, chão e teto; Dona Júlia comia mais que cozinhava, contudo ainda sobrava muita comida e, finalmente, Dona Fátima, a mais dada, era à qual se contava sempre, com seu fusquinha 68, na locomoção para a AACD, onde eu fiz minhas primeiras seções de fisioterapia. Ao passar dos anos, com melhora paulatina, observaram-se muitos avanços na parte motora. Primeiro os braços e agora até as pernas já estão dando sinais de reconhecido esforço.
Hoje, com quatorze, eu, minha mãe e minha cadeira de rodas continuamos a ir, semana a semana, à igreja agradecer pelas vitórias alcançadas e, particularmente, por não ter perdido a fé no sonho de trabalhar no circo. Logo, logo estarei divertindo a todos com minhas palhaçadas, pois o meu desejo é incurável e a ostra que habita em mim, não tem pérola, mas é a mais feliz.
 

Milton Roza Junior
Enviado por Milton Roza Junior em 06/04/2005
Reeditado em 04/06/2011
Código do texto: T10034

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Sobre o autor
Milton Roza Junior
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
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